Pedido de pizza: atendente relata “emergência bem delicada” de vítima. Veja vídeo
Em entrevista ao Metrópoles, atendente que recebeu “pedido de pizza” relembra ligação que ajudou a salvar vítima de violência doméstica
atualizado
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Na central de atendimento de emergências da Polícia Militar do Estado de São Paulo, um pedido de pizza pode significar muito mais do que parece.
Conhecida como um código usado por mulheres vítimas de violência para pedir ajuda sem alertar o agressor, a expressão foi o sinal que chamou a atenção da atendente Suzi Freitas, do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). Em poucos segundos, ela percebeu que a mulher do outro lado da linha estava em uma situação de risco e precisava de socorro.
O Metrópoles conversou com Suzi (veja vídeo acima) sobre a ligação que ajudou a salvar a vítima. Segundo ela, bastaram poucos segundos para perceber que a situação exigia atenção imediata. “Quando elas ligam pedindo pizza, a gente já identifica que é um perigo, que é uma emergência bem delicada”, afirmou.
Apesar do nervosismo, a vítima conseguiu manter a calma durante a ligação e não despertou atenção de quem estava ao seu redor. Para Suzi, esse é um detalhe que costuma marcar esse tipo de ocorrência.
“Ela estava aflita, mas conseguiu falar de forma tranquila. A gente percebe quando a pessoa está correndo perigo”, diz.
“Oi, eu gostaria de pedir uma pizza”
O caso ocorreu na noite da última sexta-feira (23/5), no Jardim São Francisco, na zona sul de São Paulo. Sem conseguir pedir ajuda de forma direta porque o agressor estava dentro de casa, uma mulher vítima de violência doméstica ligou para o 190 e usou um código já conhecido em situações semelhantes.
“Oi, eu gostaria de pedir uma pizza”, disse a vítima logo no início da ligação (ouça acima). Do outro lado da linha, Suzi percebeu e deu continuidade à conversa para obter as informações necessárias, sem levantar suspeitas.
“A senhora quer pizza de calabresa ou mussarela?”, perguntou. Em seguida, passou a solicitar o endereço da suposta entrega, enquanto registrava a ocorrência e acionava equipes do 37º Batalhão da Polícia Militar.
“Um risco de vida”
Com cerca de um ano de experiência na central, Suzi afirma que atende dezenas de chamadas por dia, mas destaca que os casos de violência doméstica exigem uma atenção especial. Para ela, quando uma mulher chega ao ponto de ligar para o serviço de emergência, normalmente já está enfrentando uma situação extrema.
“Quando é uma mulher correndo perigo, é um risco de vida. É alguém que precisa de ajuda urgente”, afirma.
Ao mesmo tempo, ela diz que sente esperança ao atender esse tipo de ocorrência. “Geralmente, quando ela decide ligar, é porque já tomou a decisão de mudar de vida. Eu fico feliz por poder ajudar e por saber que ela está começando um novo ciclo”.
Mil casos de violência doméstica por dia
- São Paulo registrou mais de 127 mil casos de violência doméstica entre janeiro e abril de 2026.
- Os registros representam uma média superior a 1.000 ocorrências por dia no estado.
- Em comparação com o mesmo período de 2025, houve um aumento de 15,5% nos casos comunicados às autoridades.
- As ocorrências incluem crimes como lesão corporal, ameaça, perseguição, calúnia e divulgação de imagens íntimas sem consentimento.
- O número de feminicídios subiu de 82 para 107 casos na comparação entre os primeiros quatro meses de 2025 e 2026.
- Os registros de descumprimento de medidas protetivas também cresceram, passando de 7.727 para 9.031 ocorrências.
- Os dados são da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) e mostram uma tendência de aumento da violência contra a mulher no estado.
De 400 a 500 ligações por dia
Durante a visita do Metrópoles ao Copom, a reportagem também conversou com a sargento Ana Claudia, responsável pela formação e treinamento dos atendentes que recebem as ligações de emergência.
Segundo a policial, o preparo dos profissionais vai muito além dos protocolos técnicos. O treinamento inclui orientações sobre empatia, acolhimento e a forma correta de conduzir conversas com pessoas em situações de vulnerabilidade.
“Eles têm o treinamento da sensibilização, da empatia, de tranquilizar a pessoa com falas assertivas”, contou. De acordo com a sargento, os atendentes são orientados a transmitir segurança à vítima para conseguir obter informações essenciais para o atendimento da ocorrência.
“A gente pede para a pessoa se acalmar, porque precisamos de informações necessárias para que o patrulheiro consiga chegar ao endereço. Existe todo um treinamento para que o atendente chegue a esse nível de atendimento”, afirmou.
Ainda durante a visita ao Copom, a reportagem conversou também com a cabo Maria, que atua na Cabine Lilás, setor especializado no atendimento de ocorrências de violência doméstica.
A policial informou que a central recebe, diariamente, um volume expressivo de chamadas, entre 30 mil e 40 mil ligações por dia, número que pode aumentar em períodos de festas, feriados e grandes eventos.
Dentro desse universo de atendimentos, os casos de violência doméstica representam uma parcela significativa das ocorrências. “De violência doméstica, a gente acaba tendo em torno de 400, 500 ocorrências por dia”, contou. O número ajuda a dimensionar a frequência com que mulheres em situação de risco recorrem ao serviço de emergência em busca de ajuda.
Como pedir ajuda
- Ligue para o 190 em casos de emergência ou quando houver risco imediato.
- Peça ajuda mesmo que não consiga falar abertamente. Atendentes são treinados para identificar situações de violência doméstica.
- Registre a ocorrência pela Delegacia Eletrônica da Mulher, disponível 24 horas por dia.
- Utilize o aplicativo SP Mulher Segura, que reúne serviços de proteção e permite acionar a Polícia Militar de forma rápida.
- Ao ligar para o 190, a vítima pode ser atendida pela Cabine Lilás, setor especializado da Polícia Militar para ocorrências de violência doméstica e familiar.
- Em caso de ameaça ou agressão, solicite uma medida protetiva de urgência para impedir a aproximação do agressor.
- Se conhecer uma mulher em situação de violência, denuncie. O pedido de ajuda pode salvar uma vida.