PCC cobra Rota por testemunha protegida e segura parcela de R$ 500 mil
Reunião entre Promotoria, inteligência da Rota e delator do PCC teria sido registrada em áudio e vendida por R$ 5 milhões, diz promotor
atualizado
Compartilhar notícia

A suspeita de que policiais militares das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) negociaram informações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) por R$ 5 milhões ganhou um novo elemento que tensiona ainda mais a investigação. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), a última parcela do acordo, no valor de R$ 500 mil, não teria sido paga porque os policiais não indicaram onde estava uma testemunha protegida.
A informação consta do depoimento prestado pelo promotor à Justiça Militar (TJM), formalizado em cota ministerial assinada pelo Ministério Público Militar, em 26 de março deste ano. Com base em relatos de inteligência, Gakiya afirma que integrantes do PCC discutiram internamente a suspensão do pagamento final justamente pela ausência dessa entrega.
“Sem o endereço correto, a quantia não seria paga”, relatou o promotor, ao descrever o que foi apurado a partir de informantes.
A Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) foram questionadas pelo Metrópoles sobre medidas tomadas contra policiais investigados por suposto elo com o crime organizado.
Em nota, a SSP disse informou que a investigação segue pela Corregedoria da Polícia Militar, sob sigilo determinado para garantir a eficácia do processo. “As apurações são conduzidas com rigor técnico, observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais. A PM reitera seu compromisso com a legalidade, a transparência e a apuração de eventuais irregularidades, adotando as medidas cabíveis sempre que houver indícios de desvios de conduta”, complementa o texto.
Dinheiro, vazamento e uma reunião comprometida
O episódio da parcela não paga é apenas o fio de um enredo mais amplo, que envolve a suspeita de vazamento de informações estratégicas dentro da própria corporação. No centro da apuração está uma reunião realizada em 6 de outubro de 2021, na sede da Rota, no numeral 440 da Avenida Tiradentes, região central da capital paulista.
Na ocasião, membros do MPSP, policiais da inteligência e um colaborador ligado ao PCC discutiram, por horas, a estrutura da facção, seus líderes e possíveis operações em andamento. O encontro, como consta em relato oficial obtido pelo Metrópoles, teria sido gravado clandestinamente.
Segundo Gakiya, essa gravação foi negociada por R$ 5 milhões com o criminoso Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, então principal liderança do PCC em liberdade. Ele foi preso em maio do ano passado, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
Operação frustrada e fuga de Tuta
O impacto desse suposto vazamento já havia sido sentido antes mesmo da reunião de 2021. De acordo com o promotor, a Operação Sharks, deflagrada em 2020, pode ter sido comprometida por repasses indevidos de informações. Tuta, principal alvo da ação, conseguiu escapar mesmo estando sob monitoramento.
“Nos causou estranheza que o principal investigado […] escapou de ser preso”, disse Gakiya, apontando indícios de que dados sigilosos tenham sido antecipados ao criminoso.
A suspeita reforça informações já reveladas pelo Metrópoles, que indicam que o próprio Tuta mencionava o pagamento de milhões para evitar a prisão. Com o depoimento do promotor, essa versão ganha respaldo institucional.
A análise de áudios entregues pela testemunha protegida levou o promotor a descartar que o vazamento tenha partido de agentes externos. Para ele, há forte indicativo sobre a participação de policiais com acesso direto às informações.
Estrutura de favorecimento
Os documentos da investigação descrevem um ambiente em que o repasse de informações não seria pontual, mas parte de uma dinâmica mais ampla de favorecimento ao crime organizado. Policiais teriam utilizado suas funções para antecipar operações, proteger determinados criminosos e, em alguns casos, atuar diretamente na segurança de integrantes da facção.
Há também menções ao recebimento de valores em troca dessas informações, além do uso de estruturas empresariais para ocultação de recursos. Nesse contexto, o pagamento milionário mencionado no caso da reunião gravada surge como um dos episódios mais emblemáticos.
Da confiança à ruptura
O relato de Gakiya carrega um peso simbólico relevante. Ao longo de décadas de atuação, a Rota sempre foi tratada como uma unidade imune à corrupção. “Era comum ouvir que ‘com a Rota não tem negócio’”, afirmou o promotor, com base em interceptações telefônicas de criminosos.
Esse cenário, porém, começou a mudar após a Operação Sharks. A fuga de alvos e os indícios de vazamento instauraram uma desconfiança inédita na relação entre MPSP e o 1º Batalhão de Choque da PM (Rota).
“Passou a pairar uma dúvida se informações […] não poderiam ter sido vazadas”, pontuou.
O elo que não se completou
A retenção da última parcela de R$ 500 mil expõe, segundo investigadores, o grau de expectativa do PCC em relação ao suposto acordo com os policiais. Não bastava o fornecimento de informações sobre operações, a facção exigia acesso direto ao elemento mais sensível da investigação, ou seja, a testemunha que decidiu colaborar com as autoridades.
Sem essa entrega, o ciclo de pagamento foi interrompido, a mando do próprio Tuta, como ainda indicam as investigações. A defesa dele não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
O episódio, descrito no depoimento do promotor e incorporado à investigação formal, revela não apenas a suspeita de um esquema milionário, mas também seus limites, definidos, paradoxalmente, pela falha em cumprir uma exigência do próprio crime organizado.
Investigação avança sob sigilo
A investigação segue em sigilo e apura o chamado “núcleo de vazamentos” dentro da Polícia Militar de São Paulo. As suspeitas recaem sobre policiais ligados à inteligência da Rota e suas conexões com integrantes da cúpula do PCC.
Mais do que um episódio isolado, a apuração expõe uma crise de credibilidade que atinge uma das unidades mais emblemáticas da Segurança Pública paulista e nacional, colocando sob suspeita o fluxo de informações que sustenta operações contra o crime organizado.















