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São Paulo

Orixá: ao depor, PM negou que agentes tenham tomado partido de pai

Em depoimento à Polícia Civil, policial disse que "em nenhum momento" equipe cusou escola de ensino religioso. Vídeo mostra o contrário

24/06/2026 16:43
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Material cedido ao Metrópoles
Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana. Pai chamou a polícia por conta de desenho de orixá. - Metrópoles

Um dos policiais militares que atendeu a ocorrência em que um pai acionou o 190 após a filha desenhar uma orixá em uma atividade escolar afirmou, em depoimento, que “em nenhum momento, a equipe de policiais acusou a escola de prática de ensino religioso”. Na ocasião — em novembro do ano passado —, a fim de ouvir a direção da unidade, ele e outros três agentes entraram no local armados com revólveres e pelo menos um fuzil.

A versão do PM, no entanto, é desmentida pelas imagens das câmeras corporais dos agentes. Como revelou o Metrópoles, as cenas mostram um dos PMs discutindo com a diretora da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, no Caxingui, zona oeste de São Paulo, e repetindo que a atividade tinha cunho religioso.

“Isso que a senhora está falando que ‘é cultura’, e tal… Não [é], estamos falando de uma religião, estamos falando de forças energéticas”, disse o tenente Ronald Camacho, à diretora da Emei, naquele dia 12 de novembro de 2025.

Em outro trecho do vídeo, quando a diretora e a inspetora da escola falam que o colégio não ensina religião, o tenente rebate. “Como não? Eu vi um desenho escrito Iansã. É uma entidade da cultura afro”, diz o policial. O tenente chega a dizer que a educadora quis “ditar a sua ideologia” para ele.

Nenhuma dessas falas foi citada no depoimento do sargento Rafael Lima à Polícia Civil. O agente aparece nas imagens em frente ao tenente Ronald, e acompanhou toda a conversa com a diretora.

O sargento Rafael, inclusive, protagonizou uma breve discussão com a educadora, quando ela disse que a situação promovida pelo pai era uma coação para a escola. “É direito dele. Por que coação?”, perguntou o sargento. No mesmo instante, Ronald manda Rafael sair do local e ele espera do outro lado da porta, que se mantém aberta.


Relembre o caso

  • O caso envolvendo o desenho da orixá foi revelado pelo Metrópoles e gerou repercussão nacional.
  • Como mostrou a reportagem à época, no dia 12 de novembro do ano passado, o pai de uma estudante chamou a Polícia Militar após discordar de uma atividade feita pela filha, de 4 anos.
  • O homem, que também é policial, disse aos agentes que sua filha estaria sendo obrigada a ter aula de uma “religião africana” e teria desenhado uma orixá.
  • Os policiais entraram na escola de educação infantil portando armas de grosso calibre, o que assustou crianças, segundo relatos colhidos pelo Metrópoles.
  • A atividade que culminou no desenho estava ligada à leitura do livro infantil “Ciranda em Aruanda”, da autora Liu Olivina.
  • Na obra, a autora traz ilustrações de 10 orixás e apresenta, em textos curtos, as características das divindades – Oxóssi, por exemplo, é retratado como “o grande guardião da floresta”.
  • Uma professora da Emei leu a história para os alunos. Em seguida, estudantes fizeram desenhos a partir da leitura. A filha do policial desenhou Iansã, orixá ligada aos ventos e às tempestades.

“Postura intimidatória”

No depoimento à Polícia Civil, o sargento disse que a diretora “elevou o tom de voz e chamou outras pessoas, que teriam adotado postura intimidatória” contra os agentes.

As imagens, no entanto, mostram que funcionários da escola e pais de alunos só aparecem na cena quando os agentes retornam ao interior da escola – ou seja, depois da discussão entre o tenente Ronald e a diretora.

Não é possível identificar se quem chamou o grupo foi a diretora, que saiu de cena pouco antes à procura de um material sobre o currículo antirracista da Secretaria Municipal de Educação e retorna com o material em mãos, seguida pelo grupo. Uma professora diz que eles estão ali porque estavam na reunião do conselho.

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Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"
Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana
Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia
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Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia

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Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"
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Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"

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Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana
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Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana

Material cedido ao Metrópoles

Nesse momento da imagem, Ronald fala ao telefone com a supervisora da Diretoria Regional de Educação (DRE) do Butantã.

Após ouvir a supervisora, o tenente diz que é “neutro” na situação e só está ali para aplicar a lei. “Por isso que eu ‘reentrei’ na escola, para entender com a diretora. Eu tenho que ver as duas partes. Se a gente só ouve uma, parece que o pai é um criminoso. Se só ouço o pai, parece que a diretora é criminosa. E eu não vejo nenhum criminoso aqui. Não existe isso. Para mim, não existe aqui isso; é ‘lide’, confusão de ideias”, diz ele.

O diálogo entre o tenente e a supervisora de ensino é encerrado, e os funcionários e pais começam a falar com o policial. O agente diz para uma professora que não vê crime na situação, mas que é direito do pai chamar a polícia e acionar a Justiça.

Depois que o caso da Emei Antônio Bento veio à tona, a Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. Já a Polícia Militar abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar a postura dos policiais envolvidos no caso.

O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) se a investigação sobre os agentes continua aberta. Em nota, a pasta disse que o Inquérito Policial Militar (IPM) foi encaminhado pela Corregedoria ao Tribunal de Justiça Militar para análise. Já o Tribunal de Justiça Militar disse que o caso foi encaminhado ao Ministério Público para manifestação.

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