Obras no calçadão de SP derrubam faturamento de comerciantes em até 70%
Requalificação de calçadões acumula atrasos, deixa danos em trechos reformados e tem novo prazo de conclusão adiado para 2027

As obras de requalificação nos calçadões do centro de São Paulo permanecem em andamento — e, para muita gente, seguem sendo motivo de insatisfação. Iniciadas na região do Quadrilátero Histórico, na República, em julho de 2025, os trabalhos se encontram em diferentes estágios de andamento em cada uma das ruas englobadas — algumas já avançadas, enquanto outras, como a comprida Rua Barão de Itapetininga, praticamente intocadas.
O cenário mais caótico no momento é o da Rua Dom José de Barros, que já havia sido tema de reportagem publicada pelo Metrópoles em setembro do ano passado, pouco menos de três meses após o começo dos trabalhos na via.
De lá para cá, a situação mudou um pouco. Na reportagem anterior, o foco havia sido na parte da rua mais próxima à Avenida São João onde, agora, os trabalhos já foram concluídos. Nesses 12 meses, os trabalhos foram deslocados para a parte mais próxima da Rua 7 de Abril, que conta com bares, restaurantes, uma galeria e uma academia, além de outras lojas.
Rendimentos de comerciantes despencaram
Entre os comerciantes do local, as opiniões são quase unânimes: o movimento foi duramente afetado, com a grande maioria dos lojistas entrevistados pelo Metrópoles relatando quedas de 30% a 40% no faturamento — “na UTI”, diagnostica um deles, Edson, do restaurante Frigideira, que afirmou ter medo de precisar demitir funcionários caso as obras se arrastem.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPPara os bares, o impacto foi ainda maior: a dona de um dos bares presentes na via afirmou ter tido uma queda de 70% no faturamento, agravada, principalmente, pelo fato de não poder colocar mesas na rua que, antes das obras, costumava lotar em toda sua largura — especialmente nas noites de sexta-feira e sábado.
Dona de outros dois estabelecimentos na região, ela, que preferiu não se identificar, conta que tem precisado transferir grande parte de seus ganhos nas outras lojas para conseguir arcar com o aluguel do bar na Dom José de Barros.
Aliás, a questão das mesas é central para empresários do ramo. Alguns, como Paulo, do bar Esquina da 7, chegaram a se arriscar mesmo com as interdições — a ousadia para tentar amenizar os prejuízos rendeu uma multa de R$ 5,9 mil.
Outra unanimidade diz respeito à falta de auxílio: na (única) conversa promovida com os comerciantes do local, a Prefeitura de São Paulo não fez menção a quaisquer tipos de auxílios ou benefícios, como a redução do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), por exemplo — talvez pela previsão relativamente curta de duração da obra, de 90 dias. Por essa estimativa, os trabalhos na Dom José de Barros deveriam ser finalizados entre novembro e dezembro — previsão que parece deixa espaço para questionamentos, a julgar pelo atual cenário no calçadão.
Mesmo em ruas prontas, movimento ainda não foi normalizado
O fim das obras não significou, para outros comerciantes, o fim da dor de cabeça. É o caso de lojas na Rua Marconi, onde praticamente toda a requalificação já foi concluída, com exceção do cruzamento com a Rua 7 de Abril.
Cícero, gerente do restaurante Marconi, relatou à reportagem que, mesmo após o fim das obras, o movimento ainda não voltou ao normal. “Ficava só um corredor para passagem”, relembra. “Era um canteiro de obras, ninguém vai querer entrar assim.”
O relato é corroborado por José, do restaurante Vitrine, do outro lado da rua, que também lamentou a dificuldade de não ter podido colocar messas para fora do estabelecimento. No fim, optou por abrir o restaurante somente na parte do dia, com uma queda de aproximadamente 30% dos rendimentos no almoço, e de 100% no período da noite.
Indignado, contou ao Metrópoles que as contas apertaram tanto que precisou vender um apartamento para conseguir honrar com os pagamentos. Ele também lembra de questões sanitárias causadas pela obra, como o aparecimento mais frequente de ratos e baratas, em função da abertura de tubulações da Sabesp, além de dias em que o canteiro ficava vazio, sem ninguém trabalhando.
Para Marcelo, da lanchonete Central, na esquina com a Rua Barão de Itapetininga, a queda no faturamento foi de 40%. “Já voltou uns 20% [desde o fim das obras, há cerca de dois meses]”, avalia.
“Lembro exatamente do dia em que começaram as obras: 1º de julho de 2025”, conta Marcelo. Ele acrescenta que a previsão inicial dada pela prefeitura, na única comunicação realizada com os comerciantes, era de 90 dias para a conclusão das obras. No fim, os trabalhos na Rua Marconi levaram aproximadamente um ano e dois meses.

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Ver todasEm trechos reformados, novos problemas — e alguns elogios
Assim como na Rua Marconi, as obras na Rua 7 de Abril estão avançadas — embora também tenham sofrido com grande atraso, tendo levado mais de um ano para a conclusão. Restam, basicamente, a interseção já mencionada entre as duas, bem como o trecho final da via, próximo à Rua Gabus Mendes e à Avenida Ipiranga. Apesar disso, o visual novo da movimentada rua é prejudicado pelos vários danos facilmente observáveis ao longo dela.
É possível perder as contas de quantas das bocas de lobo de concreto estão quebradas e/ou com barris sobre elas, para evitar que o pedestre desavisado acabe dando um passo em falso. Muito provavelmente, os danos foram causados pelos veículos que têm permissão para transitar nas vias, como viaturas policiais e caminhões de lixo, indispensáveis para o dia a dia de quem mora ou trabalha no Centro.
Alguns dos pisos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual, recentemente instalados, também já apresentavam danos à ocasião da visita da reportagem, e nas laterais da Rua Dom José de Barros era possível ver resquícios esquecidos das obras, como tubos e varas de ferro espetadas para fora do novo concreto.
Apesar de tudo, alguns dos objetivos da Prefeitura com a requalificação foram atingidos. Os comerciantes ouvidos nas ruas Marconi e 7 de Abril ressaltaram melhora principalmente no aspecto estético das vias, com elogios também à evolução na acessibilidade — o piso atual, de pedras portuguesas, apresenta diversos buracos, desníveis e não conta com tecnologias como o piso tátil. Em dias de chuva a drenagem também é um problema, e grandes poças se multiplicam pelos antigos calçadões, além das pedras ficarem perigosamente escorregadias.
Achados arqueológicos atrasaram trabalhos
Na Rua Conselheiro Crispiniano, outra das vias contempladas pelo projeto de requalificação, os trabalhos pararam antes mesmo de começar. Poucos dias após a quebra da parte central do calçadão, o canteiro de obras foi esvaziado em função de achados arqueológicos — os trilhos do bonde que costumava circular pela região central décadas atrás foi redescoberto.
Com a novidade histórica, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi acionado e as obras foram paralisadas para a execução de um protocolo obrigatório focado no registro e na proteção dos itens, conforme informado ao Metrópoles pela Prefeitura.
O processo pode ser comparado ao realizado na região do Triângulo Histórico, onde as obras de requalificação do calçadão já foram praticamente concluídas, e incluíram a implementação de uma espécie de museu ao ar livre com os Trilhos da Light, como ficou conhecido o sítio arqueológico.
A solução temporária encontrada pela prefeitura, no caso da Conselheiro Crispiniano, foi a de cobrir o canteiro com um material arenoso e acinzentado. Nos dias mais secos, ele é motivo de reclamações ligadas principalmente à poeira. Já em dias mais chuvosos, a sujeira barrenta espalhada pelos calçados de pedestres é o maior incômodo.
Apesar do intervalo relativamente breve até a implementação dessa “solução”, o tempo de interdição foi suficiente para comerciantes da Conselheiro Crispiniano também terem prejuízos financeiros: novamente, foram relatadas quedas de 20% a 30% no faturamento das lojas.
Prefeitura dá novo prazo para primeiro semestre de 2027
O Metrópoles questionou a Prefeitura de São Paulo a respeito dos pontos abordados nesta matéria. Em resposta, o governo municipal iniciou reforçando o objetivo da requalificação, especialmente na garantia de maior acessibilidade e segurança aos pedestres, com atenção especial a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos. Também foram destacadas as melhorias na drenagem, organização das redes subterrâneas, paisagismo e instalação de mobiliário urbano.
Em relação aos danos apontados pela reportagem, a prefeitura afirmou que “eventuais ajustes serão feitos pelas empresas contratadas até a conclusão das obras” — o que não explica alguns dos danos já reincidentes em trechos concluídos, que levantam questionamentos a respeito da qualidade dos materiais.
Já em relação aos prazos anteriormente previstos, a administração de Ricardo Nunes (MDB) afirmou que “os cronogramas foram atualizados em razão da necessidade de medidas adicionais para garantir a segurança dos trabalhadores e da população, além de outros fatores”.
Por fim, a prefeitura informou que o investimento total na requalificação do Triângulo e do Quadrilátero Históricos é de R$ 126,3 milhões.





















