Obra de parque em zona de proteção ambiental deixa lixo e desmatamento
Situado em Zona Especial de Proteção Ambiental, Parque dos Búfalos passa por obras há anos e moradores apontam sujeira e falta de segurança
atualizado
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Antiga reivindicação da comunidade de Cidade Ademar, na zona sul da capital paulista, o Parque dos Búfalos vive a expectativa da conclusão das obras realizadas pela Prefeitura de São Paulo, iniciadas há oito anos, entre pausas e retomadas. A inauguração é prometida para o primeiro trimestre deste ano, mas moradores reclamam do rastro de desmatamento e sujeira que a construção deixou no local, além do projeto original incompleto.
Com cerca de 537 mil metros quadrados, o parque está situado em uma área de mananciais e tem vegetação remanescente da Mata Atlântica, com 14 nascentes que alimentam a Represa Billings. Foi criado oficialmente em 2015 e classificado como Zona Especial de Proteção Ambiental (Zepam).
Originalmente, o território tinha quase o dobro de tamanho, mas parte dele foi destinada pela Prefeitura para a construção de um condomínio com 193 prédios — o Residencial Espanha.
Ao longo dos oito anos desde o início das obras, moradores apontaram diversas irregularidades ocorridas no local, como remoção de árvores, descarte irregular de materiais de construção, soterramento das nascentes e falta de segurança — há relatos de que o parque seja usado como ponto de “desova” de cargas roubadas e até de cadáver. Tais queixas foram apresentadas ao Ministério Público de São Paulo, ainda em 2021, que instaurou um inquérito civil e depois passou a monitorar a obra por meio de um Procedimento Administrativo de Acompanhamento.
O Metrópoles visitou o local e percorreu o trecho que corresponde ao Núcleo Sede, que será inaugurado até março deste ano, de acordo com a Prefeitura. Apesar de estar oficialmente em obras, o parque é frequentado normalmente por moradores e ainda possui uma entrada lateral sem qualquer bloqueio ou vigilância (veja galeria abaixo).
Ao longo da trilha — que foi construída pelos próprios moradores, antes mesmo de o parque ser anunciado, foi possível observar buracos cavados embaixo de árvores para receber luminárias, árvores de pequeno e médio porte derrubadas, montes de concreto acumulados, embalagens de materiais de construção descartados e sinais de erosão no solo onde passou o maquinário pesado utilizado nas obras. Alguns entulhos foram jogados em áreas de difícil acesso e visão.
“A prefeitura vai entregar 20% do que foi prometido. Prometeram que iam pavimentar todo o parque, fazer vários playgrounds, várias entradas, várias guaritas, segurança, limpeza, e nada disso tem acontecido”, afirma o líder comunitário Wesley Silvestre, fundador da Oëkobr, organização dedicada à conscientização ambiental e ao desenvolvimento sociocultural do bairro. “Além disso, resíduos de obra, o impacto sobre as nascentes, assoreamento da represa, com esse pouco de obra que aconteceu, é muito grande”, completa.
Segundo Wesley, o projeto de reforma não considerou as características do parque. “Estão cortando árvores para colocar postes de luz. Daria para colocar um metro para cá, um metro para lá, e evitar mais cortes. Árvores velhas, centenárias, a Prefeitura colocou no chão”, diz.
Para o líder comunitário, o playground construído no local pode oferecer riscos para as crianças. “Nos outros parques, a gente não vê brinquedos tão inferiores de qualidade. Alguma criança vai se acidentar ali, é um labirinto de concreto”, afirma.
O que diz a prefeitura
Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que as alegações apresentadas na denúncia não procedem. “Todas as ações realizadas no Parque Apurá Búfalos seguiram rigorosamente critérios técnicos e legais, assegurando a integridade e a preservação da área verde. Além disso, a pasta já prestou todos os esclarecimentos necessários ao Ministério Público”, disse.
Segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o Núcleo Sede está “em fase final de implantação” e faz parte da primeira etapa do projeto. “A inauguração está prevista para ocorrer ainda no primeiro trimestre deste ano. A segunda etapa do projeto inclui a implantação de praças, mirantes e a pavimentação dos caminhos”, afirmou. A próxima fase das obras ainda será submetida a processo licitatório, de acordo com a gestão municipal.
A Emccamp Residencial, construtora responsável pelo Residencial Espanha, teve que realizar plantio compensatório dentro da área do parque, devido à remoção da vegetação realizada para a construção do condomínio. Em nota, a empresa afirmou que o empreendimento foi entregue em 2017 e que não realiza mais obras no local.
“Durante a implantação, todos os programas ambientais exigidos foram executados, com monitoramento contínuo e adoção de medidas de controle de resíduos, erosão, recursos hídricos, fauna, flora, qualidade do ar e ruídos”, afirmou a construtora.
O Metrópoles entrou em contato com a Engecon, empresa responsável pelas obras dentro do Parque dos Búfalos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.




























