Obra pode resgatar história do Largo São Francisco com população negra

Obra de requalificação do Largo São Francisco motiva debate sobre a relação estreita da região com a população negra de SP no século 18

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Reprodução / Prefeitura de SP
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1 de 1 projeto-preliminar-requalificacao-largo-sao-francisco-2 - Foto: Reprodução / Prefeitura de SP

Uma obra de requalificação no Largo São Francisco (leia abaixo), no centro de São Paulo, pode ser uma oportunidade para resgatar a relação histórica do endereço com a população negra da capital paulista. É o que defendem membros do movimento negro e pesquisadores que estudam a região.

Assim como seu bairro vizinho, a Liberdade, o Largo São Francisco também foi testemunha da resistência da população negra escravizada em São Paulo. Uma história que foi parar, inclusive, em versos escritos pelo advogado abolicionista Luiz Gama.

Em 1859, ele publicou o poema “Cemitério de São Benedito”, falando de um lugar onde o “escravo sucumbiu, livre nascendo!”.

Em lugubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das horridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrilegos tyrannos,
Dorme o somno feliz da eternidade

O Cemitério de São Benedito, que dá nome ao poema, foi criado para enterrar escravizados e ex-escravizados que faziam parte da Irmandade de São Benedito, uma espécie de associação católica de negros com forte atuação no Largo São Francisco entre os séculos 18 e 20.

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Fotografia mostra Largo São Francisco em1887
Largo São Francisco no século XX
Largo São Francisco
Faculdade de Direito do Largo São Francisco
Audiência Pública debateu requalificação do Largo São Francisco
Largo São Francisco em imagem de Augusto Militão de Azevedo em1874
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Largo São Francisco em imagem de Augusto Militão de Azevedo em1874

Augusto Militão de Azevedo / Divulgação Prefeitura de SP
Fotografia mostra Largo São Francisco em1887
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Fotografia mostra Largo São Francisco em1887

Jean Georges Renouleau
Largo São Francisco no século XX
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Largo São Francisco no século XX

Autor desconhecido
Largo São Francisco
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Largo São Francisco

Cecília Bastos / USP Imagens
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Faculdade de Direito do Largo São Francisco

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Audiência Pública debateu requalificação do Largo São Francisco
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Audiência Pública debateu requalificação do Largo São Francisco

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Largo São Francisco durante Peruada - evento dos estudantes da Faculdade de Direito
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Largo São Francisco durante Peruada - evento dos estudantes da Faculdade de Direito

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Doutor em história pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o frei Alvaci Mendes conta que, na época em que a Irmandade de São Benedito nasceu, os sepultamentos em São Paulo eram feitos nos terrenos das igrejas, levando em consideração o poder aquisitivo e status social dos fiéis.

“Dentro da igreja, só eram enterrados aqueles que tinham condição de pagar por aquela cova, as pessoas mais ricas. As pessoas mais pobres eram enterradas da porta da igreja para fora. Isso inclui os escravizados e, é muito provável, inclui os da Irmandade de São Benedito, que trabalhavam de escravizados para o Convento de São Francisco.”

O convento citado por ele ficava no terreno onde hoje está a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

No início do século 19, a irmandade de São Benedito criou, então, um lugar próprio para sepultar seus “associados”: o Cemitério São Benedito. Pesquisas feitas pelo frei Alvaci, que conta a história da irmandade no livro Um Preto no Altar, indicam que o cemitério ficava nos fundos da Igreja de São Francisco, onde agora está o prédio do Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), que realiza trabalhos sociais com a população em situação de rua.

Apesar disso, quem passa hoje em dia pela Rua Riachuelo, na frente do ex-cemitério, ou cruza o Largo São Francisco, não encontra referências a essas memórias. Ou às histórias de que a irmandade juntava o dinheiro para comprar a alforria dos associados. Ou, ainda, à informação de que foram os negros que cuidaram da Igreja de São Francisco, depois que os frades franciscanos saíram de São Paulo – e olha que a irmandade passou quase um século à frente da igreja e colocou um santo negro, São Benedito, em seu altar.

A notícia de que a Prefeitura de São Paulo planeja uma obra para o local acendeu, por isso, um alerta entre aqueles que conhecem a história da região e que agora fazem uma cobrança: a de que essa memória seja resgatada e ganhe lugar de destaque.

A obra e o debate

A Prefeitura de São Paulo anunciou no início deste ano os planos para uma intervenção no entorno do Largo São Francisco. A reforma ainda não tem data para começar, nem valor definido, mas prevê ampliar calçadas e ciclovias, melhorar a arborização e a iluminação pública, e instalar bancos para descanso.

Uma fonte de água em memória a outra que existia ali no passado também deve ser instalada na requalificação. A meta é que, com as mudanças, o Largo São Francisco deixe de ser um lugar de passagem e se torne um ambiente de permanência.

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Ideia é instalar mobiliário para fazer do Largo um espaço de permanência
Versão preliminar do projeto prevê fonte pública no Largo
Versão preliminar do projeto prevê lembrar história do Largo com pisos que lembram diferentes épocas do lugar
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Versão preliminar do projeto prevê lembrar história do Largo com pisos que lembram diferentes épocas do lugar

Reprodução / Prefeitura de SP
Ideia é instalar mobiliário para fazer do Largo um espaço de permanência
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Ideia é instalar mobiliário para fazer do Largo um espaço de permanência

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Versão preliminar do projeto prevê fonte pública no Largo
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Versão preliminar do projeto prevê fonte pública no Largo

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A ideia surgiu de uma provocação feita pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e a associação de ex-alunos da instituição, que procuraram a prefeitura para propor uma ação no local.

“Hoje a gente assiste um centro de São Paulo que está muito desgastado, desertificado, que sofre muito, principalmente depois da pandemia. No entorno da faculdade, os comércios estão fechados, as pessoas têm receio de andar na rua”, diz a diretora da Faculdade, Ana Elisa Bechara.

Ela conta que a instituição se reuniu com representantes da gestão municipal para defender que a prefeitura ouvisse coletivos e associações do entorno para construir um projeto de requalificação para o local.

“Não é um projeto de embelezamento, nem de maquiagem e estética. Requalificar é priorizar essa convivência, os aspectos culturais, históricos. É revalorizar o centro”, diz ela.

Depois das primeiras reuniões, uma consulta pública on-line foi criada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) e, há uma semana, no dia 10 de fevereiro, uma audiência pública foi realizada na Faculdade de Direito para discutir o tema.

“Potência histórica”

Foi lá, na faculdade, que o frei Davi Santos, fundador da ONG Educafro, pediu a palavra para defender que a memória negra da região fosse levada em consideração no projeto.

“Quem cuidou dessa igreja [de São Francisco] foi a Irmandade de São Benedito, por muitos anos. A pergunta é: como é que a organização vai recuperar essa potência histórica? […] A Prefeitura e todo o processo de urbanização não estão olhando para isso”, disse o frei.

Escritor e presidente do Instituto Tebas, Abílio Ferreira também defende atenção com o tema. Ele diz que o projeto para o Largo São Francisco precisa ter um acompanhamento arqueológico.

“Essa intervenção está no mesmo contexto que o Sítio Arqueológico dos Aflitos, na Liberdade, o Sítio Arqueológico de Saracura, do Bixiga, e o sítio arqueológico das escavações que vão acontecer na Praça Antônio Prado. A possibilidade de encontrar vestígios de presença indígena e negra ali [no Largo São Francisco] é a mesma”, diz o escritor.

Abílio tem acompanhado de perto os processos envolvendo os sítios arqueológicos da Liberdade e do Bixiga, que têm revelado traços importantes da ocupação negra nestes bairros.

No caso do Largo São Francisco, a quantidade de obras às quais a região foi submetida ao longo dos anos pode se tornar um empecilho para a localização de vestígios, segundo frei Alvaci.

Prefeitura analisa

Diretor-presidente da SP Urbanismo e um dos nomes à frente destas discussões sobre a obra no Largo dentro da Prefeitura, Pedro Martins Fernandes disse ao Metrópoles que a gestão deve acatar a reivindicação do movimento negro e trazer a memória da população para o projeto.

Ele lembra que discussões parecidas aconteceram durante o projeto da área para Liberdade, e culminou com a retirada das luminárias japonesas próximas à Capela dos Aflitos.

“A Liberdade começou como algo para abrir ruas para pedestres e terminou tirando luminária japonesa para permitir o melhor uso [do espaço] para a memória negra e indígena do Beco dos Aflitos. O que o frei Davi trouxe [na audiência pública], junto com outros movimentos, para a gente é muito benéfico.”

Pedro afirma, no entanto, que ainda não há uma definição por parte da gestão de como esse resgate à história negra do local será feito.

Edital em breve

A Prefeitura prevê abrir em breve o edital de chamamento público para que interessados apresentem seus projetos para a requalificação do Largo São Francisco. A diretora Ana Elisa Bechara diz que a Faculdade de Direito tem interesse em doar um projeto para a cidade, reforçando a relação da instituição com o centro da capital.

Ela ressalta, no entanto, que a ideia não é que seja um projeto apenas com as sugestões do que a faculdade pensa ser o melhor, mas sim do que tem sido debatido em conjunto com moradores e movimento do bairro.

“[Queremos doar] um projeto que justamente seja fruto dessas contribuições. Do que foi produzido [até agora] e, claro, submetido a essa discussão que é pública”, diz ela.

Moradia no entorno

Na audiência pública da semana passada, alguns participantes questionaram a prefeitura sobre quais serão as propostas da gestão para lidar com outros temas latentes na região, como a população em situação de rua e a necessidade de habitação popular – o entorno do Largo tem prédios ocupados por movimentos de moradia.

Uma das pessoas a se posicionar de forma crítica foi a arquiteta Isadora Guerreiro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e uma das coordenadoras do LabCidade, laboratório da universidade que acompanha políticas urbanas e habitacionais.

Ao Metrópoles, ela disse que o projeto apresentado até agora não está levando em consideração aspectos históricos das lutas e ocupações atuais do território.

“É importante que ele se transforme num projeto de fato urbanístico, que considere todos os elementos urbanos envolvidos e, portanto, quem mora, quem trabalha, quem estuda no lugar”, afirma ela, que defende que a prefeitura amplie o escopo das intervenções para incluir, por exemplo, o debate sobre moradia no local.

O projeto da prefeitura, de fato, não parece adentrar em outros aspectos neste momento. Mas, ao menos na Faculdade de Direito, a discussão sobre moradia popular tem ganhado tração nos últimos tempos.

A direção tem mantido conversas com a Reitoria da USP para instalar uma moradia estudantil no entorno da Faculdade de Direito. A ideia prevê responder a uma demanda histórica dos alunos e permitir que estudantes cotistas em situação de vulnerabilidade tenham mais condições de permanecer na universidade. Não há confirmação de quando o projeto sairá do papel, mas o Metrópoles apurou que a ideia foi bem recebida pelo reitor.

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