“No lugar errado, na hora errada”, diz delegado sobre PM desaparecido
Delegado que investiga o caso avalia que o PM Fabrício Santana pode ter sido morto após ser julgado e condenado pelo “tribunal do crime”
atualizado
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O delegado Vitor Santos de Jesus, responsável pela investigação do desaparecimento do policial militar Fabrício Gomes de Santana, de 40 anos, que sumiu na última quarta-feira (7/1), diz que o PM pode ter sido morto após ter sido julgado e condenado pelo chamado “tribunal do crime”.
Em coletiva de imprensa neste domingo (11/1), ele lembrou que Fabrício participava de uma confraternização com um amigo na zona sul de São Paulo e acabou se desentendendo com um homem que, depois, teria “delatado” sua presença no bairro.
“Em determinado momento, um dos suspeitos se desentende com o policial porque ele foi usar um pino de cocaína. O policial se viu desrespeitado e o repreendeu. De início, o homem pediu desculpas, mas saiu e foi procurar o pessoal da criminalidade local. Ele teria delatado o amigo do PM por ter permitido que um policial militar frequentasse o local”, disse o delegado.
“Em razão disso, houve uma ligação feita para o amigo do PM, que foi convocado para comparecer num local para dar satisfações, mas ele convenceu o PM a ir junto. Chegando lá, o PM teria sido desarmado, arrebatado e levado para um lugar que ainda estamos investigando. Nesse local, teria ocorrido um ‘julgamento’ sumário, e o policial teria sido condenado à morte pelo simples fato de ser policial e de estar ‘no lugar errado, na hora errada’. ‘Não poderia estar ali’ naquela região, que seria um reduto do crime, vamos dizer assim. A partir daí demos sequência na investigação”, completou Jesus.
A polícia encontrou um corpo na manhã deste domingo (11/1), também em uma área de mata, em um sítio em Embu-Guaçu, a 15 km de Itapecerica. A suspeita é que seja o policial militar (veja mais abaixo). Exames feitos no Instituto Médico Legal (IML) devem confirmar a identidade do morto.
Indícios apontam que o soldado pode ter sido vítima de um tribunal do crime. O capitão da PM, Marcos Bazela, destacou ao Metrópoles que as informações que a corporação tem sobre a dinâmica do ocorrido ainda são preliminares.
Até o momento, quatro pessoas foram presas sob suspeita de envolvimento no desaparecimento do policial. Segundo o capitão, todas se contradisseram ao prestar depoimento. As identidades, com exceção de Gleison, ainda não foram divulgadas pela PM.
Dos presos, sabe-se que três deles, detidos na sexta-feira (9/1), foram os últimos a ver o soldado com vida. O quarto é o dono do sítio onde o corpo foi encontrado, detido neste domingo. O caseiro do local chegou a ser preso, mas foi liberado após a polícia concluir que, a princípio, ele não teve envolvimento com o crime.
Conforme Bazela, a Polícia Judiciária vai levantar informações para saber o real envolvimento de cada um deles. Só então é possível apontar qual a participação dos suspeitos no crime.
O que os averiguados disseram à polícia
Segundo relatos à polícia, Fabrício estava bebendo com dois conhecidos (identificados como Mirys Sthefanny Bezerra Siqueira e Isaque Duarte da Silva) e mais um terceiro desconhecido, identificado como Riclecio Cerqueira de Moraes, em uma adega na zona sul paulistana, na noite de quarta-feira.
Em depoimento, Isaque afirmou que conhece Riclecio do bairro e que pegou uma carona de moto com ele até a rua de sua casa na noite do desaparecimento. Ao chegar no local, avistou Fabrício e Mirys, uma mulher trans, ingerindo bebidas alcoólicas na garagem do sogro de Fabrício. Decidiu então se juntar à dupla.
Isaque informou conhecer Fabrício porque o policial já havia morado no bairro, mas não conhecia Mirys. Contou ainda que Riclecio decidiu ficar e beber junto com o grupo. Em determinado momento, segundo Isaque, Riclecio e Fabrício se desentenderam em razão de uma aposta de queda de braço.
Após o bate-boca, Riclecio teria dito que estava errado e deixado o local em sua motocicleta. Isaque conta que permaneceu no local com Fabrício e Mirys até por volta das 7h da manhã, quando saiu com o policial em seu veículo para uma padaria próxima.
De acordo com o depoimento, a mulher decidiu ficar no local, onde aguardaria o retorno de Fabrício. No trajeto até a padaria, segundo Isaque, ele e Fabrício foram abordados por um homem conhecido pelo apelido de “Gato Preto”.
Ao abordá-los, o indivíduo, que estava em um carro do modelo Gol “bola” e trabalha como motoboy, perguntou se a dupla havia estado com Riclecio e se tinham conhecimento de uma briga entre ele um policial.
Isaque afirmou que presenciou a discussão. Gato Preto então relatou que Riclecio havia chegado em sua casa e reclamado de Fabricio, dizendo que havia discutido com um “polícia”.
Neste momento, o PM, que estava ao lado de Isaque no carro, demonstrou nervosismo e afirmou que iria até o final da rua, em uma biqueira, para “conversar” com o homem, percebendo a repercussão da discussão.
À polícia, Isaque afirmou ter tentado dissuadir o policial, sugerindo que resolvessem a situação depois., mas Fabrício insistiu em ir. Ao chegarem no local, foram recepcionados por aproximadamente seis pessoas, segundo o depoimento, cujas identidades Isaque não soube informar.
Ao saírem do veículo, os dois foram separados e o grupo passou a questionar se Fabrício estava armado. O policial respondeu que sim e teve dois revólveres retirados pelos suspeitos. Depois disso, Isaque afirma não ter tido mais contato visual com Fabrício.
Segundo o relato, um homem forte e de cabelos grisalhos conduziu Isaque até um local mais estreito da rua, onde passou a fazer diversas perguntas sobre a briga e se Fabrício era seu parente. Em determinado momento, um dos suspeitos teria afirmado que o policial seria morto.
O depoente calcula que ficou aproximadamente duas horas no local até ser liberado. Antes disso, um dos homens do grupo lhe disse que Fabrício já teria sido assassinado.
Ao sair, Isaque conta que notou que o veículo do policial não se encontrava mais no local. Ele também contou à polícia que não viu Riclecio na cena e que, depois disso, não teve mais notícias de Fabrício.
Suspeito negou desentendimento
Em seu depoimento, Riclecio negou qualquer desentendimento com Fabrício. Ele afirmou aos policiais que conhece Isaque por ser um conhecido traficante da região, o que foi negado pelo acusado, e confirmou que estava com Isaque em sua moto quando este lhe pediu que o deixasse em um local onde Fabrício e Mirys estavam bebendo, por volta da meia-noite.
Segundo o relato, Riclecio deixou Isaque no local e saiu para buscar cerveja antes de juntar de vez ao grupo, com quem permaneceu até por volta de 3h da manhã. Disse também que, nesse meio tempo, levou Mirys em sua motocicleta duas vezes até uma biqueira para que ela adquirisse drogas, retornando em seguida.
Ao policiais, Riclecio disse que não houve nenhuma briga entre os presentes e que, inicialmente, não sabia que Fabricio era policial, tendo tomado conhecimento disso apenas após a segunda vez em que retornava da biqueira.
Ele ainda declarou ter consumido drogas junto com Isaque e Mirys, mas que o policial não fez uso do entorpecentes, apenas de bebidas. O depoente ainda disse que deixou os três no local e ainda passou em outros três bares antes de ir para casa dormir, já amanhecendo.
Após acordar, por volta do meio-dia de quinta-feira, Riclecio contou aos policiais ter recebido uma ligação de Mirys questionando se sabia do paradeiro de lsaque. Ele respondeu que não sabia e a avisaria caso soubesse de algo.
Carro encontrado carbonizado
No final daquela tarde, dia seguinte ao desaparecimento, a polícia foi informada que o veículo do policial, modelo Ford Ka, havia sido encontrado carbonizado em uma estrada de terra no bairro Jardim Mombaça, em Itapecerica da Serra.
Paralelamente, a equipe da Delegacia de Itapecerica obteve imagens de uma câmera de segurança mostrando o veículo da vítima andando pela rua Richard Beck, uma via de terra batida, em Itapecerica, por volta das 16h30 de quinta-feira (8/10). Veja:
Bazela confirmou à reportagem que a rua que aparece no vídeo fica próxima ao local em que o carro foi encontrado carbonizado. Ele também informou que o motorista do Corsa, que aparece sendo conduzido atrás do Ford Ka, é um dos suspeitos presos na última sexta-feira.
Ao consultar a placa do Corsa cinza, os policiais identificaram como proprietário Gleison Humberto Santos Dias, de 40 anos. Após consultas, a polícia identificou o endereço do suspeito, no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, onde o encontrou.
O corsa cinza visto nas imagens estava estacionado em frente ao imóvel, com três galões vazios com cheiro de gasolina no porta-malas. Gleison foi conduzido à delegacia e prestou depoimento.
Durante o testemunho, ele afirmou que é conhecido como “Gato Preto” no bairro, o mesmo apelido do homem que teria abordado e levado Fabrício e Isaque até o local onde o policial foi visto pela última vez.
À polícia, o proprietário do Corsa negou envolvimento no desaparecimento de Fabrício. Ele afirmou que os galões eram seus e que os carrega para uso pessoal, no caso de a gasolina acabar.
Gleison contou em seu depoimento que, por volta das 15h de quinta, estava na rua quando um conhecido da comunidade, identificado como Fábio, pediu para que o acompanhasse até o bairro do Santa Julia, em Itapecerica da Serra, onde venderia um carro. A ideia era que Gleison levasse Fabio de volta após a venda.
De acordo com o depoimento, o veículo que seria vendido era o Ford Ka, depois identificado como o carro de Fabrício. Gleison relatou ter seguido o carro conduzido por Fábio que, em determinado local da estrada, pediu para que o dono do Corsa o esperasse e entrou com o Ford Ka em uma área de mato.
Em seguida, voltou e entrou no carro do colega. Os dois retornaram ao bairro onde residem. Gleison afirmou aos policiais que conhece Fábio da comunidade e não sabe onde o mesmo reside.
Corpo encontrado em sítio pode ser do PM
A partir de investigações da Polícia Militar, da Polícia Civil, e de denúncias feitas pela população, os agentes envolvidos nas buscas por Fabrício chegaram a um sítio em Embu-Guaçu.
Em uma área de mata do local, com a ajuda de um cão farejador, encontraram um corpo enterrado. O momento foi capturado em vídeo. Veja:
Bazela informou à reportagem que o corpo vestia um uniforme de educação física da Polícia Militar. O fato aumentou as suspeitas de que a vítima seja o policial desaparecido. Ainda segundo o capitão, não há evidências de que ali funciona um cemitério clandestino, e a utilização do local teria sido pontual.
O local de desova foi encontrado com ajuda do sistema de informações da PM, além da investigação e trabalho de campo da Polícia Civil e de denúncias da população, destacou Bazela. A mobilização operacional para solucionar o crime reúne mais de mil policiais militares e centenas de viaturas, informaram as forças de segurança.
Agentes do Choque, Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar de São Paulo, retiraram uma quantidade parcial da terra para identificar preliminarmente o achado.
O rosto da vítima não foi descoberto. Por isso, o capitão não pôde informar se a família é capaz de reconhecer Fabrício no IML. Contudo, o corpo não apresentava sinais de estar irreconhecível.
“Estava com vestes, com o uniforme da Polícia Militar de educação física, o que aumentou a nossa evidência”, afirmou o capitão.
O local onde o corpo foi achado passa por perícia. A equipe chegou à cena de desova por volta das 13h30 deste domingo, e deve preparar o corpo para ser encaminhado ao IML. Uma autópsia deve indicar a causa da morte.
Também devem ser periciados o Ford Ka do PM e um Corsa cinza, flagrado sendo conduzido atrás do veículo do soldado na tarde seguinte ao desaparecimento.
A PM ainda tenta levantar as imagens de câmeras de segurança da adega onde teria começado a discussão que resultou na suposta morte do soldado. O caso é investigado pela Delegacia de Polícia de Itapecerica da Serra.
Fabrício era soldado da PM lotado no Comando de Policiamento de Área Metropolitano 10 (CPA-M10) e iria se casar no civil na última sexta.








