MPSP denuncia PMs por matar jovem e plantar arma ao lado do corpo
Segundo a denúncia, os policiais alteraram a cena do crime para simular que o jovem havia sacado uma arma antes de ser baleado

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou o policial militar Ivo Florentino dos Santos por homicídio qualificado e fraude processual, nessa terça-feira (30/6), por matar o entregador Gabriel Ferreira Messias da Silva e plantar uma arma ao lado do corpo do jovem, na zona leste de São Paulo, em novembro de 2024.
O cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos, que estavam na ocorrência, também foram denunciados por fraude processual.
Segundo a denúncia, Ivo Florentino matou Gabriel “sem que houvesse agressão atual ou iminente que legitimasse a utilização de força letal”. Na sequência dos acontecimentos, para conferir aparência de legitimidade à intervenção policial, o denunciado, junto a outros policiais, aproximou uma arma de fogo da motocicleta da vítima, “tudo com o propósito de induzir em erro a produção da prova”.
O promotor de Justiça Thiago Alcocer Marin argumentou que a alteração da cena do crime não decorreu de providência voltada ao socorro da vítima ou à preservação do local, “mas de atuação dirigida à modificação dos vestígios materiais existentes, buscando conferir verossimilhança à alegação de que Gabriel Ferreira Messias da Silva teria sacado ou ameaçado sacar uma arma de fogo antes de ser alvejado”.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) acatou a denúncia e determinou que os acusados apresentem defesa em até 10 dias. A Justiça também manteve o afastamento cautelar de Ailton e Ivo das suas funções operacionais da Polícia Militar do Estado.
Relembre o caso
Gabriel morreu durante uma perseguição policial, na Vila Silvia, zona leste da capital paulista, em novembro de 2024. Os PMs que atenderam a ocorrência disseram que Gabriel teria caído ao fazer uma curva e, ao levantar-se, sacou uma arma de fogo. Neste momento, o sargento Ivo Florentino dos Santos teria disparado de dentro da viatura.
Gravações das câmeras corporais mostram, no entanto, que não há nenhuma arma próxima de Gabriel ou da moto que ele pilotava quando os agentes se aproximam do jovem.
Às 23h18, duas câmeras mostram o policial Ailton Severo do Nascimento se abaixando ao lado da moto. Segundo relatório da Defensoria, neste momento o agente “parece dar uma instrução de como colocar uma arma no chão”. No minuto seguinte, Ivo “parece colocar a arma no chão, ao lado da motocicleta”, de acordo com o relatório.
Na sequência, é possível ver, pela câmera do policial Ailton, o sargento Ivo empurrando uma arma com o pé para debaixo da moto. O momento em que Ivo empurra a arma é flagrado também pelos aparelhos do próprio Ivo e do policial Gilbert, que registraram o som do objeto sendo arrastado.
Mãe lamenta “injustiça”
Para a mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira, o sentimento é de injustiça.“Os meses vão passando, a gente vê a injustiça, e nada acontece. O laudo da perícia comprova que ele [o sargento Ivo] colocou a arma no Gabriel, que o Gabriel não tinha nada. Eu não entendo por que a corregedoria não tá com casos desses. Por que que não pediu a prisão desse homem?”.
“Meu filho mais velho sai para trabalhar e eu tenho medo dele não voltar, dele encontrar esse assassino. Porque se esse policial não fosse perigoso, ele não tinha feito o que ele fez. Ele não se intimidou nem com as câmeras corporais”, diz a mãe.
As imagens também filmaram Gabriel, ainda vivo, implorando por ajuda após ser baleado. No vídeo, ele diz para um agente: “Eu sou trabalhador, senhor, pra que isso comigo, meu Deus? Me ajuda, senhor, por favor”.
A recepcionista faz um apelo: “Eu só queria que o governador olhasse o meu apelo de mãe, e visse que o que eu tô pedindo não é injusto. Eu só quero justiça, eu só quero honrar a memória do meu filho, porque a todo tempo eles querem fazer meu filho de ladrão”.












