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São Paulo

MPSP avalia caso de racismo em loja com manequins negros servindo brancos

Especialistas apontam que a posição dos manequins representa uma hierarquia racial: "Brancos no lugar da celebração, negros no de serviço"

04/11/2026 15:19
Redes sociais/Reprodução
Manequins negros servindo brancos em loja de São Paulo - Metrópoles

São Paulo — A loja de luxo Arthur Caliman, na zona sul da capital paulista, é acusada de cometer práticas racistas ao colocar manequins negros em posição de serventia em relação aos manequins brancos em vitrine. O Ministério Público de São Paulo (MPSP) avalia uma representação protocolada nesta terça-feira (4/11) a respeito do caso.

No expositor, os manequins negros estavam posicionados abaixo dos manequins brancos, com roupas neutras e em posição de servidão. Nenhum deles vestia vestidos de festa — artigo principal da loja —, apenas o manequins brancos, posicionados no centro da vitrine.

Gabriela Augusto, especialista em diversidade e inclusão e fundadora da Transcendemos Consultoria, analisa o caso como uma mensagem que reforça a hierarquia racial, ainda muito presente no Brasil, reforçando a ideia de que pessoas brancas pertencem ao luxo e pessoas negras pertencem à posição de trabalho e apoio. “Toda vitrine, publicidade, entre outros, é comunicação, e ela mostra quem é o público imaginado pela marca e quem ocupa cada lugar na cena”, explica.

“Quando pessoas negras aparecem em posição de servir e pessoas brancas aparecem de vestido de festa, sendo servidas, a imagem recupera uma hierarquia que a gente conhece muito bem no Brasil: brancos no lugar da celebração e do consumo, negros no lugar do serviço. Mesmo sem uma palavra escrita, a mensagem é de quem pertence ao luxo e quem pertence à posição de trabalho, de apoio. Mesmo que a marca não tenha tido a intenção de comunicar essa cena, infelizmente, pela disposição dos elementos, pela simbologia e pelas cores dos manequins, ela foi interpretada dessa forma”, destaca Augusto.

Além disso, a especialista ressalta que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão nas Américas e nunca fez uma reparação efetiva em relação a isso. Após 138 anos da Lei Áurea, pessoas negras continuam em posições subalternas, são maioria nas ocupações de menor remuneração, como o trabalho doméstico, e minoria nos espaços de poder e de consumo de alto padrão. Uma vitrine como essa reforça a desigualdade e a ideia de trata-se “ordem natural das coisas”.

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“Quem passa na calçada, principalmente pessoas negras, pode ler ali a mensagem de qual é o lugar esperado para elas. Quanto mais sofisticado o contexto, mais a imagem ganha legitimidade”, afirma a especialista.

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Arthur Caliman disse à reportagem que repudia qualquer forma de racismo e discriminação. Segundo Caliman, os manequins são dispostos de forma aleatória e, na maioria das vezes, são selecionados para valorizar o contraste com a cor das roupas expostas.

“Foi o que ocorreu na vitrine registrada pela reportagem, que combinou manequins pretos com trajes brancos e um manequim branco com vestido azul-escuro. A vitrine anterior, por exemplo, era composta inteiramente por manequins pretos com vestidos claros. Jamais houve a intenção de transmitir qualquer mensagem de cunho racial. Lamentamos o desconforto causado e, assim que recebemos o contato da reportagem, substituímos o manequim da vitrine”, destaca.

Após a denúncia, o estabelecimento trocou a vitrine, substituindo um manequim negro por um prata. “É positivo que a loja tenha reconhecido o desconforto e substituído o manequim, mas o caso mostra a importância de prevenir, e não só remediar”, aponta Gabriela Augusto.

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Divulgação/Arthur Caliman
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Divulgação/Arthur Caliman

Questionada sobre como as empresas podem evitar de reproduzir estereótipos raciais e reforçar preconceitos, Gabriela Augusto destaca quatro pontos essenciais:

  • Ter diversidade real nas equipes de criação, marketing e visual merchandising, inclusive em cargos de decisão
  • Fazer formação em letramento racial para quem produz e aprova imagens
  • Criar uma etapa de revisão de conteúdo com olhar de equidade antes da publicação, ouvindo pessoas negras e especialistas
  • Ter canais para receber críticas e responder a elas com transparência e mudança concreta, e não só com nota de desculpas ou retirada da peça