Motos viram “furgão lotado” para dar conta das entregas de Natal
Motos têm circulado por São Paulo superlotadas de encomendas, amarradas até nos baús, para conseguir fazer as entregas de Natal
atualizado
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As motos têm transportado cargas dignas de pequenos furgões nesta época do ano para dar conta das entregas de produtos comprados pela internet e com previsão de entrega antes do Natal.
São pilhas de caixas e sacos que superam em muito a capacidade dos baús e que cruzam São Paulo testando, muitas vezes, o equilíbrio do motoboy para sustentar tamanho volume sobre duas rodas.
Os motoboys ganham entre R$ 4 e R$ 7 por pacote transportado, dependendo da plataforma para a qual trabalham. Neste período, é difícil encontrar quem não faça ao menos 100 entregas por dia.
Alguns chegam a levar mais de 170 encomendas em uma única jornada e, para isso, precisam de muita criatividade. Vale tudo, como amarrar os pacotes com cintas ao redor do baú, passar fita adesiva para “grudar” a embalagem na moto ou superlotar alforges (bolsas laterais) com pacotes os mais variados.
Como disse um motoboy à reportagem, tem “moto que vira Fiorino (furgão)” para dar conta de tudo. Quem pilota diz que é só levar “na manha” para chegar com tudo ao destino. Mas a legislação tem regras que, em tese, limitam o volume do material a ser transportado.
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CBT), transportar na moto carga com excesso de peso ou fora das dimensões fere o art. 244, inciso VIII. É considerada uma infração média, com multa de R$ 195,23 e 5 pontos na CNH.
Entre outras coisas, a lei estabelece que o baú não pode ter mais que 60 cm de largura por 70 cm de altura, a partir do assento.
Riscos
Há quase 10 anos como motoboy, Kennedy, 27 anos, estava com a moto sobrecarregada na última semana. Ele reconhece que pode dar problema. “Totalmente, tem risco. Tem o peso, a gente não pode correr tanto. A moto não passa em certos lugares”, afirma. “É desse jeito, todo dia”, afirma.
Sobre o motivo para aceitar o risco, é direto. “O dinheiro, o faz-me-rir. Se não fosse, não levava, não”, diz.
Ricardo, 38 anos, diz que esse período é ideal para melhorar a renda. “Está bom para fazer o Natal, o 13º. Tem que ser assim, volumoso”, afirma. Mesmo assim, ele diz que não se descuida. “Tenho meus cuidados. Às vezes, deixo alguma entrega, porque realmente pode atrapalhar.”
Até na roupa
João, 21 anos, já trabalhou com transportadoras que prestam serviço para o comércio on-line e diz que, com elas, os ganhos são maiores que por aplicativos de entrega. Porém, afirma que os riscos também são maiores. “Era fita no baú todo, pacote amarrado, pacote dentro da camiseta, da bolsa”, afirma. Ao perder alguma encomenda, tinha que pagar.
Hoje, Souza trabalha diretamente para uma plataforma de vendas e diz ter mais liberdade, inclusive em relação ao horário. Mas diz que os riscos também existem para aqueles que querem andar carregados demais.
“Não são minivans”
Advogado especialista em crimes de trânsito, Maurício Januzzi afirma que o excesso de peso e de cargas que são levadas fora de compartimento adequado representam um risco para os motociclistas. Também cita as infrações cometidas por quem se expõe dessa maneira.
“Os motoboys não podem fazer da sua moto um caminhão de entregas ou uma minivan, porque só podem ter outra pessoa sentada atrás, como carona, e, para transporte, devem ter um baú adaptado, dentro das regras legais”, afirma.
Segundo Januzzi, o infrator pode ter até a moto apreendida. “Qualquer coisa fora disso, como sacolas, como a gente vê penduradas, excesso de volume, isso deve ser apreendido pela Polícia Militar, fazendo com que haja a apreensão do veículo até que aconteça a regularização”, diz.
O advogado também afirma que consumidores podem ser prejudicados. “Não há, nessas mercadorias que o motoboy carrega, nenhum tipo de seguro. As pessoas que iriam receber não vão ter a quem recorrer”, afirma.
O que diz a Prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo, por meio do Departamento de Transportes Públicos (DTP), afirma que a legislação estabelece que os baús das motocicletas que prestam o serviço de motofrete devem ter a altura máxima de 70 centímetros e largura de 60 centímetros.
“Os materiais transportados devem ser fixados no interior do baú. Também é permitida a utilização de sidecar (para transporte de galões de água mineral), grelha, alforjes, bolsas ou caixas laterais”, diz.
Segundo a administração municipal, denúncias sobre irregularidades podem ser realizadas pelo portal sp156.prefeitura.sp.gov.br. É necessário informar o número da placa do veículo, o local e o horário da infração.
















