Justiça determina que USP matricule aluno cotista que perdeu vaga
Estudante teve matricula negada após universidade não considerá-lo pardo, como ele declarou durante vestibular

São Paulo – A Justiça de São Paulo concedeu uma liminar para que o estudante Glauco Dalalio do Livramento tenha a matrícula aceita pela Universidade de São Paulo (USP). O aluno, que tinha sido aprovado no Provão Paulista, teve a entrada no curso de Direito negada após a USP avaliar que ele não tinha características de uma pessoa parda e que, por isso, não poderia ocupar a vaga destinada à política afirmativa.
A decisão em caráter provisório foi tomada pelo juiz Randolfo Ferraz de Campos nesta segunda-feira (4/3). Ao deferir a liminar, o magistrado argumentou que o adolescente deveria ter o acesso garantido sob risco de “prejuízo irreversível”.
“O perigo da demora é inerente à própria exclusão do curso universitário para a qual, inclusive, já tinha se pré-matriculado, dada a sequência que terá, o que poderá implicar prejuízo irreversível”, afirmou.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP
Frequência de envio: Diário
Ver todasO juiz aceitou os argumentos da defesa do estudante, que alegava falta de isonomia da universidade no processo que avalia possíveis fraudes entre cotistas. Candidatos aprovados por meio do Enem e do Provão Paulista passam por uma etapa de avaliação virtual, enquanto uma análise presencial é feita com os candidatos aprovados na Fuvest.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP“Essa distinção pode mesmo ter prejudicado o autor. Primeiro, porque imagens geradas por equipamentos eletrônicos não são necessariamente fiéis à realidade. E segundo, porque cabe considerar que a decisão do Conselho de Inclusão e Pertencimento (CoIP), em sua 15ª sessão extraordinária, de 23 de fevereiro de 2024, foi tomada por maioria de votos dos presentes. Restaria, então, saber se, fosse a sessão presencial, haveria de se produzir o mesmo resultado”, disse o magistrado.
O Metrópoles procurou a USP para comentar o caso, mas não recebeu nota até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
Processo contra universidade
Glauco é um dos cotistas aprovados na USP e que tiveram a matrícula negada após a instituição considerar que eles não eram pardos, como constava na declaração deles ao prestar o vestibular. Agora, as famílias tentam reverter a decisão na Justiça e estão processando a instituição.
No parecer que decidiu negar o direito à vaga para Glauco, a Comissão afirmou que “o candidato tem pele clara, boca e lábios afilados, cabelos lisos (1C), não apresentando o conjunto de características fenotípicas de pessoa negra”.
Em entrevista ao Metrópoles, o pai do adolescente, Odirlei Lopes do Livramento, afirma que a família se sente injustiçada com a análise feita pela banca. “Ele é pardo e eu sou pardo para negro. Quem é [de cor] clara é a mãe dele. Ele puxou a característica do cabelo da mãe dele”, diz o auxiliar de pedreiro.
Odirlei afirma que o filho ficou assustado ao receber o e-mail avisando sobre o prazo do recurso e acabou enviando apenas outra foto, imaginando que a banca iria refazer a análise.
Ao ter a matrícula oficialmente cancelada, a família foi pedir ajuda na própria escola onde Glauco estudou.
“A gente ficou sem chão, não sabia para onde correr”, afirma o pai. Uma professora então fez a ponte com a advogada Alcimar Maziero: “A hora que ele entrou no escritório eu não tive dúvidas de que ele era pardo”, disse.
O estudante é o primeiro da família a ser aprovado em uma universidade pública e sonha em ser juiz do Supremo Tribunal Federal, segundo o pai.
Na ação movida pela família contra a USP, a defesa contesta a resolução da universidade que permite uma avaliação presencial para estudantes aprovados na Fuvest e outra virtual para quem é aprovado no Enem e no Provão Paulista. Eles acreditam que, se o estudante tivesse sido visto pessoalmente pelos avaliadores, ele teria sido aprovado pela banca.









