TJSP vê indícios de desvio de R$ 2 bilhões por pai e irmã de Vorcaro
Um dos bens descritos em ação é mansão de U$ 35 milhões na Flórida, que estaria em nome de empresa de pai e irmã de Vorcaro
atualizado
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A Justiça de São Paulo viu indícios de possíveis desvios bilionários do grupo do Master pelo pai e irmã de Daniel Vorcaro, Henrique e Natalia Vorcaro, conforme decisão dessa sexta-feira (20/3).
A decisão ocorre após pedido de protesto feito pelo liquidante do Banco Master, que aponta desvios que podem superar a casa dos R$ 2 bilhões. Um dos bens citados na ação é uma mansão avaliada em U$ 35 milhões, na Flórida, nos Estados Unidos.
Vorcaro está preso sob suspeita de fraudes bancárias e é alvo, junto com familiares e associados, de ações que visam impedir que o patrimônio supostamente transferido do Master evapore. Nomeado pelo Banco Central (BC), o liquidante é um escritório especializado nesse tipo de trabalho, designado para realizar o encerramento de uma empresa, sendo responsável por vender ativos, quitar dívidas e concluir as operações, geralmente em casos de falência ou liquidação.
A ação do liquidante afirma que houve um esquema de transações fraudulentas envolvendo concessão de créditos elevados por meio de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e investimentos em empresas ligadas aos familiares do banqueiro. De acordo com a peça, essas operações resultaram em dívidas não pagas, renegociadas ou transferidas a fundos controlados pelo mesmo núcleo familiar, com prejuízo financeiro.
Mansão na Flórida
Parte dos valores teriam sido usados para compras de bens de luxo no exterior, diz a ação. Conforme investigação do liquidante, Henrique e Natalia ocupam os cargos de presidente e vice-presidente da Sozo Real Estate Inc., empresa registrada na Flórida e proprietária de um imóvel de alto padrão em Windermere, nos Estados Unidos.
Registros imobiliários indicam que a propriedade foi adquirida em 2023 por US$ 32 milhões, com outros US$ 3 milhões destinados à compra de mobília e obras de arte, totalizando US$ 35 milhões. A existência do imóvel foi noticiada pelo Metrópoles.
“Os indícios apresentados corroboram a tese de que os Requeridos, familiares próximos do ex-controlador, possam ter atuado de forma consorciada para a canalização, desvio e ocultação de recursos bilionários”, diz a decisão do juiz Adler Nobre, da 3ª Vara de Falências de São Paulo.
O juiz autorizou registro de protesto em 29 participações societárias dos familiares de Vorcaro, 16 imóveis e também em eventuais veículos de ambos. Na prática, a decisão do juiz da Vara de Falências serve para dar publicidade ao patrimônio envolvido na liquidação do Master e alertar terceiros de que eventual aquisição de tais bens pode ser considerada ineficaz, embora não proíba a venda.
“A inicial noticia de forma detalhada a complexa teia societária utilizada, revelando o risco iminente de alienação, ocultação e reestruturação de ativos de altíssimo valor agregado (participações societárias e imóveis) pelos Requeridos. A não concessão da medida liminar neste momento processual potencializa o risco de dilapidação irreversível do patrimônio que, em tese, deveria compor o acervo para satisfação da coletividade de credores lesados, frustrando cabalmente o resultado prático de futura ação revocatória”, justifica a decisão do juiz de falências.
No caso da mansão da Flórida, o assunto está em curso na Justiça dos Estados Unidos.
Na quinta-feira (19/3), a reportagem procurou a assessoria do Vorcaro sobre as ações do liquidante contra o banqueiro. A defesa afirmou que não se posicionaria sobre o tema. A reportagem não localizou a defesa de Henrique e Natalia Vorcaro –o espaço está aberto.
Henrique Vorcaro é fundador do grupo imobiliário Multipar. Ele atua no setor imobiliário e de saúde, e participou da venda do Hospital Promed para a Hapvida por R$ 1,5 bilhão, pouco tempo depois de tê-la comprado. Anteriormente, quando o Metrópoles noticiou a negociação da mansão na Flórida, “o senhor Henrique e suas empresas atuam no setor imobiliário há mais de 30 anos, dentro da estrita legalidade. Por questões de privacidade, não expõem informações ao público”.
Liquidação do Master e prisões de Vorcaro
- O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, em meio a uma crise de liquidez e ao escândalo de fraude envolvendo a compra da instituição de Daniel Vorcaro pelo Banco de Brasília (BRB).
- Estima-se que o rombo deixado pelo Banco Master a investidores seja superior a R$ 50 bilhões.
- Parte dessa conta recaiu sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que pagou investidores que tinham até R$ 250 mil aplicados no Master.
- Com a liquidação do Master, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, por suspeita de crimes financeiros.
- Vorcaro ficou 11 dias preso em São Paulo e foi libertado pela Justiça mediante uso de tornozeleira eletrônica.
- Em março deste ano, Vorcaro foi preso preventivamente de novo, na terceira fase da Operação Compliance Zero, por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça.










