Júri do caso Gritzbach: "Perdi tudo", diz viúva de motorista de app
Viúva foi ouvida nesta segunda (22/6) durante julgamento dos três policiais militares acusados de participar da execução de Gritzbach

Em seu depoimento na manhã desta segunda-feira (22/6), durante o julgamento dos três policias militares acusados de participar da execução de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, a viúva do motorista de app que também foi atingindo durante o ataque relatou “ter perdido tudo” com a morte do marido.
Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, o motorista, morreu no dia 9 de novembro de 2024, um dia depois de ser baleado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Ele estava na área de desembarque do Terminal 2 quando foi surpreendido pelos disparos que também mataram Gritzbach.
Simone Dionísio Novais, a viúva, relembrou o dia da morte do marido em seu depoimento nesta segunda. Os dois eram casados havia mais de 20 anos e juntos tiveram três filhos, de 22, 15 e 5 anos. Ela contou que ficou sabendo do ataque por meio de um colega do marido: “Depois disso, recebi um vídeo dele dentro da ambulância, com ele falando ‘levei um tiro no aeroporto'”, contou.
A viúva relembrou a rotina do marido como motorista de app: saía de casa de manhã e voltava no período da tarde, mas sem um horário fixo. Simone afirmou ter conversado com Celso cerca de 30 minutos antes do tiroteio e, após a ligação na ambulância, foi diretamente para o hospital.
“Nós conversamos um pouquinho antes do ataque, sobre um parcela do carro que estava em atraso. Ele disse que ia tentar pegar mais uma corrida para conseguir comprar comida japonesa para os filhos”, disse.
Simone também contou que os filhos conseguiram ver o pai. “O pequenininho [de 5 anos] pedia para o pai acordar, o de 15 anos ficou fechado no seu canto e o mais velho [de 22 anos] ficou ao meu lado. Na última conversa de Celso com os filhos, um deles mandou mensagem contando algo da escola e ele respondeu dizendo que os amava”, relembra.
A esposa de Celso afirmou que desde então ainda não conseguiu colocar a vida em ordem. “Ele era o principal provedor da família, eu quase não tinha preocupação com o aspecto financeiro mesmo trabalhando”. Ela contou que com a ajuda do marido conseguiu comprar o carro dos sonhos, que depois de morte de Celso foi vendido por causa das dificuldades financeiras.
“Psicologicamente falando, meu filho de 15 anos é o que mais me preocupa. Ela já passou 4 dias na cama sem comer e só foi para escola porque eu conversei muito com ele. Ele não fala no assunto, sofre e me preocupa demais. Meu filho mais velho não tá conseguindo nem trabalhar, não consegue seguir a vida. O pequenino não esquece o pai. Eu estou há dois dias sem dormir, não trabalho desde abril, estou afastada“, afirmou Simone ao ser questionada sobre os últimos dias.
Julgamento começa nesta segunda
O julgamento dos três policiais militares acusados de participar na execução do corretor de imóveis Antônio Vinícius Lopes Gritzbach começou nesta segunda-feira (22/6) no Tribunal do Júri de Guarulhos, com sessão pautada para durar até sexta-feira (26/6).
Gritzbach foi morto em 8 de novembro de 2024 na área de desembarque do Terminal 2 do Aeroporto de Guarulhos, após voltar de uma viagem a Alagoas. Ele caminhava ao lado da namorada e de seguranças quando foi alvo de 10 disparos de fuzil. O crime ocorreu dias após o corretor iniciar delações sobre o envolvimento de policiais com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a acusação, o cabo Denis Antônio Martins e o soldado Ruan Silva Rodrigues teriam sido os atiradores que desceram de um Volkswagen Gol e fuzilaram Gritzbach diante de dezenas de testemunhas, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Já o tenente Fernando Genauro da Silva, é apontado como o motorista que teria levado os executores até o aeroporto e ajudado na fuga após o crime.
Na prática, os jurados terão de decidir se os três participaram de uma execução planejada contra o delator. A acusação sustenta que o crime teve motivo torpe, colocou outras pessoas em risco, dificultou a defesa das vítimas e envolveu fuzis, que são armas de uso restrito.
O Juri é composto por 4 homens e 3 mulheres. Até o fim da manhça, três testemunhas já foram ouvidas: William Souza Santos e Samara Lima, que foram atingidos no dia da execução de Gritzbach e Simone Dionísio Novais, esposa do Celso Novais, que morreu após ser atingido pelos disparos.
“Farsa contra inocentes”
Pouco antes do julgamento começar, o advogado dos suspeitos, Renan Canto, afirmou à imprensa que as provas contra os três PMs foram “forjadas e manipuladas para incriminar inocentes”. Para a investigação, dados de GPS, imagens de câmeras, informações de celulares e exames de DNA colocaram os três PMs na cena do crime. O advogado, porém, critica a confiabilidade das provas.
“O carro foi analisado no dia 8 de novembro. Nada foi encontrado. O carro passa por uma segunda análise, aí eles encontram uma amostra que não havia sido encontrada no dia anterior. Essa amostra, até hoje, a gente não sabe do que se trata. Se é sangue, se é suor, se é saliva. Essa amostra subiu pro sistema AIFES, que a gente chama, e ninguém foi identificado”, afirmou o advogado.

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