Maestro João Carlos Martins inaugura a 1ª orquestra sênior do Brasil. Vídeo
Composta apenas por músicos com idade acima de 60 anos, a Orquestra Bachiana Sênior Sesi-SP será regida por João Carlos Martins
atualizado
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O renomado maestro e pianista João Carlos Martins vai inaugurar, em São Paulo, a primeira orquestra sênior do Brasil, composta apenas por músicos com idade acima de 60 anos.
Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, ele contou que o objetivo de juntar os músicos 60+ é levar uma mensagem de esperança para aqueles que poderiam ser substituídos por instrumentistas mais jovens.
O maestro, responsável pela direção artística do projeto, afirmou que a Orquestra Bachiana Sênior Sesi-SP tem 25 músicos com idades entre 62 e 80 anos. A maioria acaba de se aposentar da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), da Orquestra Sinfônica Municipal, do Theatro Municipal, ou da Orquestra Sinfônica Universidade de São Paulo (Osusp). Muitos deles receberam o convite para voltar a tocar com lágrimas nos olhos.
“O instrumento, para um músico, mesmo quando ele se aposenta, é um ímã”, comparou o pianista.
João Carlos Martins foi diagnosticado aos 18 anos com contratura de Dupuytren e distonia focal, doenças raras e, até hoje, sem cura. Ele sofre com dor ou desconforto nas mãos desde os 22 anos.
“Eu nunca desisti dos meus objetivos e meus objetivos hoje estão ligados àqueles que estão perto do apagar das luzes e àqueles que estão tendo a oportunidade de conhecer o que significa a palavra música. Porque o maior compositor espanhol dizia que a música começa onde a linguagem termina”, lembrou.
João Carlos brincou que, se os músicos são “sênior”, ele é “ultrassênior”. “Depois de mim, o mais novo tem 80 anos. Eu vou fazer 86, mas eu reduzi drasticamente minhas atividades: agora só são 120 concertos por ano”.
Com o projeto, o maestro quer que novas orquestras sênior sejam criadas Brasil afora. “Tudo na vida necessita de um pontapé inicial. Então, se você pergunta do que a vida é feita, a vida é feita de tradição e inovação. Tradição, você mantém preservando o interesse, que é a minha luta, é a democratização da música clássica […] E inovação é você criar fatos novos para causar interesse para pessoas que não tiveram contato com a música clássica”, ensinou.
A ideia de criar a Bachiana Sênior ocorreu num momento em que João Carlos já estava regendo a Bachiana Filarmônica e a Bachiana Jovem. Com isso, a orquestra se tornou a única instituição no mundo com as três modalidades.
Para João Carlos, reger músicos 60+ vem do exemplo que ele trouxe de seu pai, que morreu aos 102 anos totalmente lúcido. “Na festa dos 100 anos do meu pai, o embaixador da Romênia chegou para ele e falou: ‘Seu Martins, o senhor está fumando charuto e tomando vinho. O senhor já perguntou para os seus médicos [se ele podia fumar e beber]?’ Meu pai respondeu: ‘Meus médicos já morreram há muito tempo’”, riu ao contar a história ao Metrópoles.
Orquestra Bachiana Sênior Sesi-SP
O processo seletivo dos músicos foi feito com a ajuda do maestro Laércio Sinhorelli Diniz, regente principal das apresentações. A temporada será aberta no dia 15 de abril, com shows no Sesi-SP.
Um dos diferenciais é que os concertos vão começar mais cedo e ter menos tempo de duração. As apresentações devem ter início às 20h e ter cerca de 50 minutos de duração.
O repertório da Orquestra Sênior será o tradicional da Bachiana, mas também vai abordar temas que não fazem parte do cotidiano de outras orquestras. Um dos concertos, por exemplo, vai abordar a relação entre música e psicanálise, e outro vai trazer a relação da música com o meio ambiente.
“A Bachiana Sênior vai ter uma missão social muito importante para que pessoas que estão entrando na base do envelhecimento tenham mais experiência para discutir temas importantes da sociedade e do nosso cotidiano”, explicou.
Em 15 de março, o maestro realizou uma apresentação especial com a Orquestra Sênior. Segundo ele, a recepção do público “foi um escândalo. Parecia Carnaval”. Ele ressaltou que, não só no Brasil, mas fora também, nunca houve um lugar vazio em seus concertos e ele acredita que a situação vá se repetir com as apresentações do novo projeto.
Orquestra Bachiana Filarmônica
O maestro João Carlos rege a Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP, que já atingiu ao vivo 20 milhões de pessoas. “Eu acho isso um feito extraordinário aqui no Brasil. Qualquer concerto nosso fora tem que ter telão em praça pública”, disse.
A Bachiana nasceu quando João Carlos, aos 63 anos, ouviu dos médicos que nunca mais iria poder tocar piano profissionalmente.
“Meu mundo caiu. Mas, no dia seguinte, eu reuni 18 músicos aqui em casa, fui numa faculdade e tomei duas aulas de regência. E, com os 18 músicos, eu aprendi a reger. Seis meses depois, eu já estava regendo uma das principais Orquestras de Câmara do mundo, a English Chamber Orchestra, em Londres”, lembrou.
Para manter uma orquestra no Brasil, o maestro procurou presidentes de federações, para que cada um deles adotasse um músico do grupo – o conjunto tinha 65 instrumentistas. O primeiro lugar que ele procurou foi a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que disse que não iria adotar apenas um músico, mas sim, a orquestra inteira. E foi assim que nasceu a Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP. Após alguns anos, o novo presidente da Fiesp criou a Bachiana Jovem e, este ano, João Carlos teve a ideia da Orquestra Sênior.
No dia 4 de agosto de 2026, inclusive, o pianista programou um evento inédito: um concerto com músicos da Jovem, da Sênior e da Filarmônica. Ainda não há detalhes sobre a apresentação.
Ao Metrópoles, ele lembrou que, no primeiro dia, acabou fazendo um movimento errado enquanto regia a orquestra e, “sem o menor constrangimento”, admitiu que chegou a fazer xixi na calça por causa do nervosismo. Porém, ele voltou ao palco e terminou o trabalho.
“No dia da última gravação, os músicos se levantaram e falaram para mim: ‘A partir de hoje, quando nós tocarmos Bach sozinhos, nós vamos tocar Bach como o senhor nos ensinou.’ Aí eu comecei a chorar”, contou.








