Casal de investigadores que lavou dinheiro do PCC perde aposentadoria
Investigadores da Polícia Civil de SP lavavam dinheiro de propina do PCC para fazer vista grossa sobre tráfico de drogas
05/10/2026 11:53, atualizado 05/10/2026 12:06

Um casal de investigadores da Polícia Civil de São Paulo teve a aposentadoria cassada após condenações criminais transitarem em julgado na Justiça paulista.
Marcelo Luis Silva perdeu o benefício em maio deste ano e Rosilene Venâncio Silva perdeu na última sexta-feira (2/10), conforme publicações do Diário Oficial.
Os dois foram condenados por branquear valores advindos da venda de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região de São José dos Campos, no interior paulista. Marcelo acumula ainda outras condenações na Justiça, por corrupção passiva e tráfico de entorpecentes.
Na ação por lavagem de dinheiro, transitada em julgado no ano passado, Marcelo e Rosilene foram condenados a seis anos e cinco meses de prisão em regime inicial semiaberto, além da perda do cargo público.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPFoi a condenação por associação ao tráfico e corrupção passiva, no entanto, que tirou a aposentadoria do investigador, cinco meses antes da esposa dele também perder o benefício.
Neste processo, ao qual somente ele respondeu, o investigador foi sentenciado a oito anos e sete meses de prisão em regime inicial fechado, e também à perda do cargo, o que teve confirmação administrativa.
O Metrópoles procurou a defesa de Marcelo e Rosilene, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Casal de investigadores cobrava propina e lavava dinheiro do PCC
De acordo com as ações judiciais obtidas pelo Metrópoles, Marcelo (também conhecido como Teta ou Careca), cobrava propina de traficantes de drogas de São José dos Campos vinculados ao PCC, garantindo que a polícia faria “vista grossa” para as ações criminosas.
Rosilene, por sua vez, cedia suas contas bancárias para recebimento do dinheiro advindo do tráfico. Com o montante, o casal comprou dois imóveis e três carros de alto padrão, em desacordo com a remuneração que recebiam na Polícia Civil.
Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), Marcelo recebia, em média, R$ 3.737,42 por mês, mas movimentou mais de R$ 1,1 milhão em crédito e R$ 1,12 milhão em débito entre 2013 e 2017, período de cometimento dos crimes.
Já a investigadora recebia entre R$ 5 mil e R$ 6 mil por mês, mas movimentou R$ 720 mil em crédito e R$ 727 mil em débito no mesmo período. Somados, o casal deixou de declarar mais de R$ 450 mil em renda.
Eles ainda adquiriram uma distribuidora de gás para simular que os valores vinham de origem lícita. A empresa também acendeu o alerta do COAF.
Em 2017, a distribuidora movimentou mais de R$ 1 milhão, somando operações a crédito e a débito, sem declaração fiscal. Eles também vendiam botijão de gás a R$ 40, enquanto os concorrentes praticavam o valor de mercado de R$ 60.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP
Frequência de envio: Diário
Ver todasAmigos e sócios do PCC
As investigações em torno do casal mostraram que os dois tinham relações próximas com integrantes do PCC. Marcelo era amigo pessoal e sócio de Augusto de Souza Alba na distribuidora de gás.
Alba, por sua vez, é vinculado a Lúcio Monteiro Cavalcante, o “Bebê”, líder do PCC na zona sul de São José dos Campos e chefe da rede de distribuição de drogas no bairro Campo dos Alemães. Era ele quem pagava propinas a Marcelo.
O nome do investigador foi encontrado em diversas anotações da contabilidade do tráfico. Os operadores José Aparecido Teles de Proença, o “Cidão”, e Jean Thierry administravam o controle dos “acertos” e anotaram ao menos quatro pagamentos que somaram R$ 14.400 a Marcelo entre novembro de 2015 e janeiro de 2016.
As anotações, encontradas na casa de Cidão em abril daquele ano, diziam “Teta R14 R$ 2.500,00”, “Teta R17 R$ 1.000,00” e “mandei 2900 Teta e 400 foi no picado”.
Marcelo usava um Renault Fluence prata para coletar as propinas no Campo dos Alemães e em outros bairros, como Galo Branco, Vila Tatetuba, Favela do Lixão e na Boate Estrela.
Nem tão amigos assim
Com os acordos de propina firmados, Marcelo exigiu que os traficantes da Rua 15 do bairro Campo dos Alemães pagassem mais caro pelo acerto, sob ameaça de “fechar” o ponto de venda de drogas.
As exigências do investigador geraram um conflito entre ele e a facção. O sintonia “Bebê” deu ordens a um subordinado, Alison Batista Carvalho, o “Gordinho”, para disparar contra Marcelo. A intenção era “assustá-lo” e, assim, interromper as cobranças.
Em juízo, Alison confirmou que pretendia assustar o investigador, mas errou o tiro e acertou a perna dele.
Uma ligação telefônica interceptada, em julho de 2016, revelou que Bebê usava o caso como exemplo para ameaçar outros policiais. O traficante dizia que, se outros agentes tentassem atrapalhar as “bocas”, aconteceria “o mesmo que aconteceu com o Teta”.
A reportagem não localizou as defesas de Lúcio Monteiro Cavalcante, José Aparecido Teles de Proença, Jean Thierry e Alison Batista Carvalho. O espaço segue aberto.



