Felca corre aqui: vídeo viral gera patrulha contra pedófilos no TikTok
Usuários marcam Felca em postagens com crianças e adolescentes, e alertam pais para assistirem ao vídeo viral que denuncia ação de pedófilos
atualizado
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O nome do youtuber Felca nunca foi tão comentado nas redes sociais quanto nas duas últimas semanas. Desde que o vídeo “Adultização” foi ao ar, comentários marcando o influenciador se espalharam em publicações que mostram crianças e adolescentes.
A interação é feita por usuários que assistiram ao vídeo viral e agora deixam alertas em postagens que têm sido alvo de pedófilos, em uma espécie de “patrulha” contra a ação dos criminosos.
Além de marcar o perfil do próprio Felca, no que parece uma tentativa de denunciar a situação, os usuários também têm orientado quem publica os vídeos sobre os perigos envolvendo a presença dos pedófilos nas redes.
O Metrópoles notou o movimento ao repetir a experiência feita pelo youtuber e criar, do zero, uma conta no TikTok e no Instagram. A reportagem pesquisou palavras-chave como “crianças” e “dancinha” nas duas redes, e leu os comentários das publicações em que apareciam crianças e adolescentes.
Se no Instagram não foram encontrados comentários que remetessem à pornografia infantil ou pedofilia, no TikTok a situação foi bem diferente. Em poucos minutos de uso, o Metrópoles se deparou com suspeitos indicando, nos comentários de vídeos com crianças e adolescentes, canais para a troca de material criminoso de pornografia infantil. Nos mesmos posts, no entanto, dezenas de pessoas passaram a reagir contra estes comentários.
Foi o que aconteceu, por exemplo, no post de uma influenciadora brasileira, que gravou um vídeo dançando com a filha — o Metrópoles não vai divulgar o nome das duas para não expor as vítimas. Nos comentários do vídeo, um perfil escreveu o link para um grupo de Telegram, com as letras “CP” no nome, referência à child porn — pornografia infantil, em inglês.
Outros usuários, então, avisaram a mãe da menina sobre a situação. “Assistam o vídeo do Felca”, disse uma mulher. Uma pessoa sugeriu que a influenciadora parasse de gravar a filha para evitar que ela se tornasse alvo dos criminosos.
“Não consigo mais ver crianças dançando que já lembro do que [o Felca] mostrou no vídeo”, comentou uma mulher, pedindo para as mães protegerem seus filhos.
Em outro vídeo, uma adolescente aparece dançando com uma menina que aparentava ter cerca de 5 anos. Nos comentários, a mesma cena se repete, com criminosos indicando canais para a troca de pornografia infantil, enquanto outros usuários marcavam a conta do youtuber. “Já viram o vídeo do Felca?”, dizia um deles.
“Não tinha visto”
Um dos casos que mais chamou a atenção da reportagem aconteceu no vídeo de uma adolescente de 16 anos. “Felca, corre aqui”, dizia um usuário, na publicação em que a jovem aparecia dançando funk. “Meu Deus, depois de ver o vídeo do Felca vi os comentários”, contou outra pessoa. “Agora entende: 400 pessoas salvaram esse vídeo como favorito, um vídeo de uma criança dançando. Por que será?”, disse outro perfil.
A adolescente, no entanto, respondeu os comentários perguntando sobre o que as pessoas estavam falando. Os usuários avisaram para que ela pesquisasse sobre o tema. Pouco tempo depois, a jovem avisou que havia excluído as interações que remetiam à pedofilia.
“Gente, excluí todos os comentários. Não tinha visto que tinha esses tipos de comentários porque é um vídeo do começo do ano”, contou a adolescente na própria postagem.
O Metrópoles conversou com a jovem e a mãe dela por telefone. A adolescente contou para a reportagem que foi somente quando pesquisou sobre o assunto que percebeu a presença dos criminosos na publicação.
“Até ver o vídeo do Felca, eu não sabia que esses comentários tinham aparecido pra mim”, disse a estudante, que também terá a identidade preservada para sua proteção. Ela disse que os avisos foram essenciais para que entendesse o que estava acontecendo. “Foi por conta desses comentários sobre o vídeo do Felca que eu entendi”.
A mãe da jovem não sabia que o vídeo da filha tinha sido alvo dos criminosos até falar com o Metrópoles. A família decidiu excluir a publicação do TikTok da adolescente.
Até escola de balé
Assim como no caso da adolescente, comentários remetendo ao compartilhamento de pornografia infantil foram encontrados pelo Metrópoles nos mais variados vídeos, sem que a pessoa responsável pela publicação aparentemente soubesse ao que eles se referiam.
Um dos conteúdos alvo dos criminosos foi um vídeo publicado por uma escola de balé. As imagens mostravam crianças pequenas fazendo exercícios com as pernas. Nos comentários, perfis indicavam grupos no Telegram para troca de imagens de pornografia infantil usando códigos.
Ao ser contatada pelo Metrópoles, a proprietária da escola se disse surpresa com o teor das mensagens.
“Nunca imaginaria esse tipo de coisa, jamais”, disse a mulher. “A gente faz as postagens porque é uma atividade que acontece na escola. Toda escola de balé faz”. Os pais, segundo ela, tinham autorizado o compartilhamento de cenas das aulas nas redes sociais. Ninguém imaginava que a publicação pudesse receber a atenção de pedófilos.
Como os pedófilos se comunicam nas redes?
- Criminosos que vendem conteúdo de pornografia infantil e pedófilos interagem em publicações simples, onde aparecem imagens de crianças e adolescentes.
- Os perfis se comunicam por códigos, como as letras “CP”, em referência à expressão “child porn” — pornografia infantil em inglês.
- Expressões “cambio” e “trade”, que significam troca, também são utilizadas pelos criminosos.
- Nos casos observados pelo Metrópoles, os criminosos indicam grupos de Telegram para trocarem as imagens de pornografia infantil.
- Segundo a coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD) da Polícia Civil de São Paulo, Lisandréa Salvariego Colabuono, os criminosos lucram com a venda desses materiais.
- “A venda de pornografia infantil é um mercado gigantesco e que movimenta muito dinheiro. Todas as nossas investigações acabam citando lavagem de dinheiro e organização criminosa”, diz a delegada.
Outro lado
Em nota, o TikTok disse que mantém uma política de tolerância zero para conteúdo de abuso e exploração sexual infantil. “Assim que uma violação grave é identificada, o conteúdo é imediatamente removido, as contas banidas e os casos, quando cabível, reportados às autoridades responsáveis”, diz a empresa.
O TikTok afirma que, além das publicações, atua também moderando ativamente comentários que possam violar as diretrizes da plataforma. “De forma proativa, identificamos e removemos conteúdos e contas que infringem nossas Diretrizes da Comunidade. No caso dos conteúdos enviados pela reportagem, após investigação, nossa equipe de moderação tomou as providências necessárias, removendo os conteúdos e banindo as contas violativas.”
A empresa afirma ainda que tem um esforço de moderação contínuo e, que no primeiro trimestre de 2025, 99% dos vídeos violativos foram removidos de forma proativa, com 94,3% deles retirados do ar em menos de 24 horas.




























