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São Paulo

Especialista diz que PMs em moto com fuzis é proposta “ingênua e perigosa”

Coronel José Vicente da Silva Filho diz que usar PMs em motos, com fuzis, para combater roubo de celular é desproporcional e arriscada

28/09/2026 02:15, atualizado 28/09/2026 06:04
Divulgação/SSP/Paulo Guereta
Imagem mostra PM em moto com fuzil - Metrópoles

Especialista em segurança pública e coronel da reserva da Polícia Militar (PM), José Vicente da Silva Filho afirma que a criação do Batalhão de Resposta Avançada Operacional (Bravo), com duplas em motos, portando fuzis, para coibir roubo e furto de celular, é uma resposta “ingênua e perigosa” para combater esse tipo de crime.

O coronel da reserva explica que considera a proposta do Bravo perigosa porque coloca em risco a vida de piloto e garupa. “Não faria nunca um negócio desse. Você incrementa o risco que o policial já tem de policiar na rua”, diz.

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Para José Vicente, a utilização de fuzis no patrulhamento “é uma ideia ingênua de reduzir o medo mostrando força”.

“Na verdade, as pesquisas que a gente tem, sou psicólogo também, estou finalizando um livro sobre psicologia aplicada à inteligência policial, é que quanto mais força você mostra, mais medo você causa”, diz.

Para o especialista, a própria criação de um nome para o batalhão é algo controverso. “Primeiro, o nome é ridículo, né? Forçar uma construção de palavra para fazer um nome de marketing. A polícia precisa ter mais austeridade, sobriedade com essas coisas”, diz.

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Ex-secretário nacional de segurança pública, José Vicente afirma que a iniciativa é problemática sob vários aspectos. O primeiro diz respeito à própria moto, que pode promover agilidade em meio ao carregado trânsito paulistano, mas traz uma série de inconvenientes, quando usada em dupla.

“Um garupa constante afeta o equilíbrio do homem e da máquina. Ele agarra o piloto pela cintura, acompanha o movimento e ajuda. O equilíbrio é precário”, diz. “Mas o policial garupado tem outra incumbência, que é fazer a visualização tática do ambiente. Então ele já não tem como segurar direito, manter o equilíbrio, e pior, com um fuzil, que não é leve”, afirma.

Para o coronel da reserva, o próprio uso de fuzil para combater ladrões de celular é equivocado. José Vicente diz que o uso do fuzil está dentro de um contexto de equipes táticas, como as Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) e os Batalhões de Ações Especiais de Polícia (Baeps). “Você tem quatro policiais, eles têm um estoque de armamento para enfrentamento de alto risco. Quando há previsibilidade de alto risco, aí fazem parte do pacote de enfrentamento o fuzil, a metralhadora, a carabina”, diz.

José Vicente é categórico ao afirmar que esse tipo de armamento não deveria fazer parte do patrulhamento rotineiro. “É um absurdo dos absurdos. Um fuzil desse que vai dificultar a segurança do policial e do carona, do conjunto, dos dois e mais a moto. Não vejo sentido nisso”, diz.

Para atacar os roubos e furtos de celular, José Vicente diz que o foco deve ser outro. “Tenho dito que 70% desse roubo de celular é problema de Polícia Civil”, afirma. O coronel da reserva lembra da operação desencadeada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) recentemente, em parceria com a Polícia Civil, que localizou milhares de celulares levados por ladrões.

Sobre a PM, diz que o patrulhamento ajuda a reduzir a intensidade dos crimes. “Mas, por trás disso, tem toda uma máquina de furto e roubo, que é o sistema de receptação”, afirma.

O que diz a SSP

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que o Batalhão de Resposta Avançada Operacional (BRAvO) reforça o policiamento em áreas definidas a partir da análise criminal, integrando inteligência, mobilidade, prevenção e pronta resposta. “A atuação complementa o trabalho investigativo contra roubos, furtos e receptação de celulares, inclusive as ações do SP Mobile”, diz, em nota.

Segundo a pasta, os policiais empregados no patrulhamento tático passam por capacitação avançada, distribuídas ao longo de seis semanas. A formação prepara o efetivo para a atuação nas ruas e inclui pilotagem, condução em situações de emergência e tiro defensivo, inclusive com armas longas, com foco em uma resposta técnica, segura e proporcional às diferentes situações operacionais.

A SSP diz que o fuzil é um recurso destinado a ocorrências de maior risco ou complexidade e não uma resposta automática a roubos de celulares ou casos de “quebra-vidro”.

“Seu uso é restrito a policiais habilitados e segue os protocolos de uso da força e a avaliação de cada ocorrência. A presença do equipamento, portanto, não significa seu emprego. Todos os agentes utilizam câmeras operacionais portáteis. O lançamento é resultado de planejamento iniciado em março, com treinamentos a partir de abril e aquisição das novas motocicletas em junho”, afirma.

A SSP diz que, por se tratar de uma operação recente, é prematuro atribuir ao BRAvO ou a um equipamento específico eventuais variações dos índices criminais. “A efetividade da iniciativa será acompanhada a partir de indicadores como prisões, apreensões, recuperação de veículos e celulares e evolução das ocorrências nas áreas de atuação”.