Deolane diz que recebeu R$ 430 mil de MC Ryan por venda de carro
Deolane foi citada no inquérito da PF que investiga MC Ryan por lavagem de dinheiro após receber dinheiro do artista e doar a ONG de Neymar
atualizado
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A advogada e influenciadora Deolane Bezerra justificou a transferência de R$ 430 mil de Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, com a venda de um carro. A transação entrou na mira da Polícia Federal (PF), que prendeu o funkeiro sob acusação de chefiar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, no âmbito da Operação Narco Fluxo.
Após reportagem do Metrópoles dessa sexta-feira (17/4), ela se manifestou nas redes sociais. “Eu vendi um carro para o Ryan. Ele me deu um outro carro mais barato na troca e um outro valor a ser depositado na minha conta bancária. O valor foi depositado na minha conta bancária”, disse.
De acordo com a investigação da PF, a transação ocorreu entre 14 de maio e 30 de junho de 2025 – período de 47 dias em que a influenciadora movimentou R$ 5,3 milhões. Na mesma época, ela doou R$ 1,165 milhão ao Instituto Projeto Neymar Jr.
“A doação que eu fiz para o instituto foi três vezes maior o dinheiro que eu recebi do Ryan da venda do carro que está comprovado. A doação que eu fiz para o instituto saiu da minha conta pessoa física, da minha conta, entendeu? Inclusive está lá no meu imposto de renda”, argumentou.
Nas publicações, Deolane adicionou capturas de tela do contrato de transferência do veículo e de depósito milionário feito em benefício da ONG do jogador (veja abaixo). “Tudo que eu ganho eu declaro, tudo tem nota fiscal, tudo tem contrato”, afirmou.
A captura de tela mostra que Deolane recebeu a transferência bancária da holding de Ryan, apontada pela PF como uma ferramenta de blindagem patrimonial dentro da organização criminosa.
Segundo a investigação, a estrutura jurídica da holding foi desenhada para centralizar ativos de alto valor e isolá-los dos riscos operacionais das demais empresas do artista, voltadas a shows e eventos.
A PF aponta ainda que a empresa seria utilizada para integralizar capitais de origem não rastreável ou para liquidar compromissos financeiros utilizando laranjas.
PF desconfia de transações de Deolane
Apesar das justificativas, as transações de Deolane chamaram a atenção da PF. A investigação identificou que ela movimentou R$ 5,3 milhões em 47 dias – entre 14 de maio e 30 de junho de 2025. Nesse período, ela recebeu R$ 430 mil da produtora de Ryan e transferiu R$ 1,16 milhão ao Instituto Neymar Jr e outros R$ 1,1 milhão a uma empresa de blindagem de veículos. O jogador e o instituto dele não são alvos de suspeitas.
Sobre a transferência de Ryan a Deolane, a PF aponta que “há indícios de que esta transação configure uma evidência material do vínculo financeiro direto entre os dois investigados, demonstrando que o fluxo de caixa da produtora de Ryan, suspeita de misturar receitas de shows com recursos de apostas e rifas, irriga também as contas de aliados estratégicos que enfrentam investigações similares por lavagem de dinheiro e associação criminosa”.
“Em suma, a transferência de R$ 430 mil não aparenta ter justificativa comercial ordinária de prestação de serviços, mas robustece a tese de que Deolane e MC Ryan SP compartilham um ecossistema financeiro comum”, aponta a representação policial.
A representação da PF menciona que Deolane foi presa em setembro de 2024 em Recife, Pernambuco, acusada de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro e apostas ilegais. Ela foi solta poucos dias depois.
“O relatório de inteligência destaca que Deolane já é investigada por crimes contra a economia popular e lavagem de dinheiro via rifas digitais, e o recebimento de recursos da MC Ryan SP Produção reforça a suspeita de que os capitais ilícitos circulam livremente entre as pessoas jurídicas e físicas do grupo para serem integrados na economia formal”, diz a PF.
Já sobre a transferência da influenciadora para o Instituto Neymar Jr, a PF considerou ser uma ação de “limpeza de imagem”.
“Essas operações [ao instituto e à empresa de blindagem] sugerem o uso da liquidez financeira para aquisição de bens de alto valor e ações de limpeza de imagem”, diz outro trecho da representação.
Para os investigadores, a alta movimentação na conta da advogada em um curto espaço de tempo demonstra que ela atuaria como uma “conta de passagem”, na qual valores altos entram e são debitados quase imediatamente para evitar o rastreio do saldo.
Nas redes, Deolane afirmou que a prisão de 2024 foi injusta e destacou que não é alvo de pedido de prisão temporária na Narco Fluxo, o que provaria que ela não tem envolvimento com o esquema criminoso. “Eu tenho o contrato e tenho os comprovantes, talvez por isso que eu não tenha sido presa, porque a minha transação é comprovada”, argumentou.
Operação Narco Fluxo
- Segundo a PF, mais de 200 policiais federais participam da operação e cumpriram 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pelo Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos.
- De acordo com a PF, a ação aconteceu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
- A PF acredita que o volume financeiro pelo grupo criminoso ultrapassa R$ 260 bilhões. Além de armas, carrões e dinheiro em espécie, a corporação apreendeu documentos e equipamentos eletrônicos que ajudarão na investigação.
- Entre os presos na operação desta quarta estão os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página Choquei.
- A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de Ryan.
- O bloqueio foi imposto a 77 alvos da PF, entre empresas e pessoas físicas.
- De acordo com a decisão judicial, o valor estimado para o bloqueio foi calculado com base no lucro estimado com os crimes que teriam sido praticados: “tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf“.
- Também foram determinadas medidas de constrição patrimonial, incluindo o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
- As investigações continuam e os alvos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
- Além de Ryan, outros 32 alvos também foram presos, incluindo Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze, Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, e o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão
Envolvidos se manifestam
Em nota, a defesa de MC Ryan informou que não teve acesso ao procedimento e afirmou confiar que os esclarecimentos que serão prestados demonstrarão a verdade dos fatos.
“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”.
Já os advogados de MC Poze afirmaram desconhecer os autos ou teor do mandado de prisão. “Com acesso aos mesmos, [a defesa] se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, informou o texto.
A defesa de Raphael Sousa, dono da Choquei, disse, em nota, que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.
Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.
Já a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, como o processo corre sob segredo de Justiça, as manifestações ocorrerão apenas nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, diz a nota.











































