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São Paulo

Cotista alvo de racismo na infância perde vaga na USP após decisão judicial

Rebecca Vieira foi desligada da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) depois de mais de dois anos de batalha na Justiça

06/11/2026 02:00
Arquivo pessoal
imagem colorida mostra mulher com cabelos curtos e cacheados

São Paulo – A estudante Rebecca Vieira, de 24 anos, foi desligada da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), após batalhar por mais de dois anos na Justiça para ter a autodeclaração de parda reconhecida pela instituição.

A jovem descobriu o desligamento ao perceber que o nome dela não constava mais nas listas de presença das disciplinas e que havia perdido o acesso ao sistema da universidade, em outubro deste ano. “Me sinto humilhada”, afirma a estudante, em entrevista ao Metrópoles.

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Rebecca e colegas de curso na Faculdade de Direito da USP
Estudante pode perder vaga na USP após reviravolta judicial
Rebecca na imagem enviada à USP durante o processo de Heteroidentificação
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Rebecca na imagem enviada à USP durante o processo de Heteroidentificação

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Rebecca e colegas de curso na Faculdade de Direito da USP
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Rebecca e colegas de curso na Faculdade de Direito da USP

Arquivo pessoal
Estudante pode perder vaga na USP após reviravolta judicial
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Estudante pode perder vaga na USP após reviravolta judicial

Arquivo pessoal

Batalha jurídica

Em maio de 2025, o Metrópoles revelou a história da universitária. Autodeclarada parda, a jovem passou no vestibular na Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) 2024 na cota destinada às pessoas pretas, pardas e indígenas (PPI). Ainda no primeiro semestre de aulas, no entanto, ela teve a matrícula negada pela Comissão de Heteroidentificação da USP, que contestou a autodeclaração.

Rebecca entrou na Justiça e, na primeira instância, saiu vitoriosa, mas a universidade reverteu o resultado na segunda instância. A defesa da jovem contestou a decisão e chegou a acionar o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF), mas não conseguiu alterar a decisão da 14ª Vara do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). Em outubro deste ano, o processo foi arquivado.

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Rebecca critica o fato de que a documentação avaliada em primeira instância, que inclui laudo antropológico, fotografias e um processo anterior que mostra que ela foi alvo de racismo na infância, não foi considerada pelos desembargadores que julgaram o recurso da USP.

No acórdão favorável à universidade, a desembargadora Cynthia Thomé, relatora do caso, disse que não cabia ao Judiciário revisar a análise do fenótipo de Rebecca e o que o ato da Comissão de Heteroidentificação apresentava “fundamentação suficiente”.

Em resposta a um dos recursos da defesa da jovem, o desembargador Torres de Carvalho considerou que as alegações apresentadas pelos advogados não eram suficientes para anular as conclusões da decisão favorável à USP. Segundo ele, o acórdão pró-universidade “contém fundamentação adequada”.

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Entenda comissão da USP

  • A Comissão de Heteroidentificação foi criada para evitar fraudes na política de cotas. Para isso, analisa se os aprovados em vagas afirmativas têm características fenotípicas, como cabelo, cor da pele e nariz, correspondentes às de pessoas pretas e pardas.
  • A análise, na época do vestibular de Rebecca, envolvia a aprovação de fotos dos candidatos por bancas e, em casos de reprovação, uma oitiva presencial com os estudantes aprovados na Fuvest. Os candidatos poderiam ainda entrar com recurso.
  • Rebecca teve a autodeclaração vetada pela comissão em todas as etapas.

Desgastante

Agora, Rebecca estuda medidas para recuperar a matrícula. Ela tem frequentado as aulas como ouvinte desde o fim de outubro, na esperança de que ainda possa reverter a situação.

“Essa decisão mudou a minha vida de cabeça para baixo”, diz a jovem. Além das aulas, a jovem afirma que a ação também tem impactos na iniciação científica que fazia e na estabilidade financeira da família, já que ela recebia um auxílio da USP e está desempregada atualmente.

A estudante defende a existência de bancas para evitar fraudes em vagas de cotistas, mas afirma que o caso dela não é uma tentativa de burlar o sistema. Ela diz que, por outro lado, conhece alunos socialmente lidos como brancos e que foram aprovados pela universidade. “Não existe um padrão [nas decisões da USP]”, afirma.

Quando criança, Rebecca teve a matrícula negada em uma escola particular. Na época, uma funcionária do colégio disse que a diretora não permitiria a matrícula porque não gostava de “criança escura” e a família da jovem processou a instituição.

O processo da época da infância foi anexado pela estudante na ação contra a decisão da USP. Na primeira instância, o juiz Randolfo Ferraz de Campos citou o caso ao afirmar que a defesa de Rebecca mostrou “consideráveis elementos em favor do reconhecimento de sua qualidade como pessoa parda”.

Desde que o processo contra a USP começou, a jovem diz que viu a própria saúde mental se deteriorar, com piora em crises de insônia e ansiedade. “Cansa muito. É desgastante emocionalmente. [É] como se eu fosse uma impostora, se tivesse lá por caridade”, afirma a jovem, com a voz embargada.

Depois que soube do arquivamento da ação, Rebecca acionou parlamentares e a União Nacional dos Estudantes (UNE) para pedir ajuda. Ela considera tentar um acordo com a universidade ou entrar com um novo processo para terminar o curso. A jovem está no terceiro dos cinco anos da graduação na instituição. Procurada, a USP não quis comentar o caso.

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