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São Paulo

Como votam moradores de bairros com operações letais da PM no litoral de SP

Operações Escudo e Verão realizadas pela PM deixaram mais de 100 mortos, entre 2023 e 2024, em bairros periféricos da Baixada Santista

11/10/2026 02:00
Vista da Vila dos Pescadores, a partir da Vila dos Criadores, na região do Rio Casqueiro, em Santos, no litoral de São Paulo
Imagem mostra comunidade - Metrópoles

Bairros periféricos da Baixada Santista foram assolados pela violência policial durante as Operações Escudo e Verão, entre 2023 e 2024, que deixaram um rastro de mais de cem mortos. Mas como os moradores desses locais votaram no último domingo (4/10) e de que maneira especialistas em segurança pública enxergam os resultados?

Jovem fuzilado pelas costas em meio à chacina que vitimou outros cinco, pessoas com deficiência física executadas, cabeleireira que deixou seis filhos órfãos após ser atingida na cabeça por uma bala da Polícia Militar (PM) estão entre os que perderam a vida nas operações, além de quatro policiais. O histórico foi documentado pelo Metrópoles na série especial “Baixada Sangrenta”, indicada ao Prêmio Gabo de Jornalismo em 2025.

Meses depois das operações, até mesmo um menino de quatro anos morreu baleado por disparo feito por um policial durante perseguição em meio a crianças que jogavam futebol no Morro São Bento, em Santos. Era filho de um homem que usava muletas quando foi morto pelo Comando de Operações Especiais (COE), na Operação Verão.

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Ponto de venda de drogas no Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
Vista da Vila dos Pescadores, a partir da Vila dos Criadores, na região do Rio Casqueiro, em Santos, no litoral de São Paulo
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Vista da Vila dos Pescadores, a partir da Vila dos Criadores, na região do Rio Casqueiro, em Santos, no litoral de São Paulo

Ponto de venda de drogas no Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo
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Ponto de venda de drogas no Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024

William Cardoso/Metrópoles
Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024

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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024

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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024
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Morro São Bento, em Santos, durante a Operação Verão, em 2024

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Viela no Morro do São Bento, em Santos
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Viela no Morro do São Bento, em Santos

Renan Porto/Metrópoles
Polícia Militar durante a Operação Verão, em Santos, no litoral de São Paulo
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Polícia Militar durante a Operação Verão, em Santos, no litoral de São Paulo

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Polícia Militar durante a Operação Verão, em Santos, no litoral de São Paulo
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Polícia Militar durante a Operação Verão, em Santos, no litoral de São Paulo

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Palafita na comunidade do Dique das Caixetas, em São Vicente, no litoral de São Paulo
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Palafita na comunidade do Dique das Caixetas, em São Vicente, no litoral de São Paulo

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Ponto de venda de drogas no Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo
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Ponto de venda de drogas no Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral de São Paulo

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Comunidade do Dique de Caixetas, em São Vicente, no litoral de São Paulo
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Comunidade do Dique de Caixetas, em São Vicente, no litoral de São Paulo

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Garoto com camisa da Liga da Justiça, na Vila dos Criadores, em Santos
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Garoto com camisa da Liga da Justiça, na Vila dos Criadores, em Santos

No último domingo, grande parte dos vizinhos dessas pessoas votou para eleger os responsáveis pelas ações policiais, que são o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos), o senador eleito Guilherme Derrite (PP), então secretário da Segurança Pública, e seu grupo político, ligado a Flávio Bolsonaro (PL).

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Antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e, há décadas, uma das principais estudiosas de segurança pública e suas relações de poder, Jacqueline Muniz afasta o julgamento sobre quem votou (“eleitor não é réu”, diz), critica a engrenagem que sustenta esses votos e explica como as operações são utilizadas como prática eleitoreira.

“Matar tem ‘mérito’ e morrer tem ‘merecimento’. Quem mata tem o ‘mérito de matar’ e quem morre ‘fez por merecer’. Essa lógica desigual é muito perigosa. E é ela que orienta, de uma certa forma, essas percepções, que são os regimes do medo. A estruturação do regime do medo que alimenta e valida práticas de exceção”, diz. “Matança dá voto”, afirma (veja mais abaixo).

Agora reeleito, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi denunciado à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2024, pela matança provocada pela PM na Baixada Santista durante as operações.

Na ocasião, Tarcísio afirmou que não se importava com as críticas. “Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir à ONU, pode ir à Liga da Justiça, ao raio que o parta, que eu não tô nem aí”, disse.

Votos

A cidade de Santos tem três zonas eleitorais. Na 118ª, estão bairros periféricos que foram assolados pela letalidade policial durante as duas operações, como Vila dos Pescadores e Saboó.

Para presidente, Flávio ficou em segundo lugar, atrás de Lula (PT), por menos de um ponto percentual. Para governador, Tarcísio ganhou com folga sobre Fernando Haddad (PT), 55,85% a 42,96%. Derrite liderou a disputa ao Senado (27,27%).

Ainda dentro da 118ª zona eleitoral de Santos, um dos exemplos é o Morro São Bento. Derrite foi o primeiro colocado na disputa pelo senado em 19 das 23 seções instaladas em três escolas do bairro. Teve 27,1% dos votos.

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O Morro São Bento foi um dos locais com atividade mais intensa da PM durante a Operação Verão, em 2024. Trata-se do bairro onde Leonel Andrade Santos, de 36 anos, foi morto em fevereiro daquele ano por policiais do Comando de Operações Especiais.

Segundo a versão oficial, ele e um amigo teriam reagido à abordagem, o que é visto como impossível por familiares, porque Leonel usava muletas e não teria como atirar e correr simultaneamente.

A tragédia não terminou ali. Em novembro de 2024, Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, foi morto com um tiro na barriga durante uma incursão da PM no mesmo morro. Ele era filho de Leonel. Embora tenha sido confirmado que o projeto que atingiu o garoto foi disparado por um policial, a Promotoria arquivou o inquérito em junho deste ano alegando que os agentes agiram em legítima defesa durante uma perseguição.

Na 340ª zona eleitoral de São Vicente, Flávio Bolsonaro ficou à frente de Lula, Tarcísio bateu Haddad e Derrite foi o mais votado entre os candidatos ao Senado. É a região onde aconteceu a chacina do Rio Branco, uma das ações mais sangrentas das duas operações que assolaram a Baixada Santista nos primeiros 16 meses da gestão bolsonarista à frente de São Paulo.

Seis pessoas foram emboscadas e mortas. Uma delas foi Luiz Henrique Jurovitz Alves de Lima, de 18 anos, fuzilado pelas costas, com sete tiros. Um oitavo projétil penetrou a cabeça, na altura do ouvido. Nenhum policial ficou ferido na ação.

Em 2023, a Operação Escudo também deixou seus mortos na Baixada Santista, após o assassinato do policial das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) Patrick Bastos Reis, no Guarujá.

Na mesma cidade, as regiões da Vila Zilda e Vila Baiana foram algumas das mais afetadas pela onda de vingança que se sucedeu. Ambas fazem parte da 212ª zona eleitoral, onde Flávio, Tarcísio e Derrite se elegeram com folga sobre os adversários.

Relações de poder

A professora Jacqueline Muniz afirma que as pessoas que moram nos bairros que são alvos de operações “têm a sua rotina sabotada e vivem no provisório e no imprevisto”, tendo dificuldade muitas vezes de ir ao trabalho, à escola e acessar serviços básicos, como saúde e transporte. “Portanto, experimentam a incerteza com tudo que ela traz de preconceito, de discriminação, de perdas”, diz.

Para a especialista da UFF, na tentativa de tocar a vida em frente e ter alguma normalidade, muitas vezes acreditam no discurso do “mata tudo de uma vez”, porque “precisam voltar para as suas vidas”. “Não é que elas sejam a favor da matança. É uma questão prática.”

“Diante do medo, cada um de nós abre mão das garantias individuais e coletivas em favor do primeiro musculoso de ocasião que ofereça proteção. Seu protetor de hoje é seu tirano de amanhã”, diz.

A professora afirma que “o medo não se adia” e que a insegurança é um projeto autoritário de poder. “A gente sente medo agora do estupro, do feminicídio, do assalto, do tiroteio, e a intervenção é no imediato do nosso medo. E aí como é que eles [políticos autoritários] performatizam? Bravateiros, com peito de pombo, cara feia, dando soco na mesa, não é?”, afirma.

Jacqueline diz que autoridades se utilizam de três “Ss” para lidar com esse tipo de situação.

Primeiro, dão um “susto na população”, deixando todos à flor da pele com a insegurança. “É um choque elétrico”, diz.

Depois, ocorre um “surto de autoridade’. “’Comigo bandido não se cria’ e todo mundo vira macho”, diz.

Por fim, aponta os “soluços operacionais”, que desmoralizam a própria polícia. “Porque depois que sai a operação, o resto da polícia tem que permanecer com os serviços rotineiros, porque o que dá sucesso na segurança se chama rotina, o que é ordinário. Se você não tiver o arroz com feijão, não adianta comer muita carne hoje”, diz.

Para Jacqueline, nada acontece sem lastro político e o Estado é “a agência reguladora do crime”. Por isso, ela rejeita explicações que apontam a existência de “Estado paralelo” ou “Estado ausente”. “Essa história tem mais de 500 anos”, diz.

Segundo a especialista, nada atravessa um território, seja droga, tráfico de órgãos, de mulheres, “elefante ou agulha” sem a existência de “carimbadores audazes”. “Uma sucessão de pedágios que não começa e termina na fantasia do policial corrupto e do político puro. Essas coisas são absolutamente infantis”, diz.

A professora diz que a “governança do crime começa dentro dos palácios”. Também explica as diferenças existentes entre São Paulo e Rio de Janeiro.

“O mito do bandeirantismo paulista também explica essa origem do PCC [Primeiro Comando da Capital] unificada. Porque você tem unidade política, apesar de diferenciação partidária, em torno de interesses em São Paulo. Isso faz com que você tenha unidade no crime”, diz.

Sobre o Rio de Janeiro, diz que, por ter sido capital do Brasil, é “uma zorra” desde o Império, daí as múltiplas facções. “Então você tem que dividir os quinhões, as capitanias hereditárias aqui. Olha bem, o Rio de Janeiro é um bom farol do que você será amanhã”, afirma.

A especialista faz também um alerta. “O seu vigia, quanto mais forte que você, senta na sua cadeira e governa em seu lugar. Se fraco demais, ele se milicia. Um e o outro inviabilizam a vida democrática, alternância de poder, validação de voto e tudo mais”, diz.

Dificuldade à esquerda e contradições

Integrante do Grupo de Pesquisa em Segurança, Violência e Justiça da Universidade Federal do ABC (UFABC), o pesquisador Carlos Augusto Pereira de Almeida afirma que a análise do voto é uma questão bastante complexa e que os impactos das políticas públicas nas eleições são muito diversos.

Almeida aponta que o governo estadual partiu desde o início para uma política de maior letalidade, com ocorrências envolvendo troca de tiros e que o resultado das operações não foi bom. “Não teve resultado positivo depois disso. Foi implementada com intuito vazio, sem sustentação prática”, diz.

Em paralelo, um dos fatores que as próprias urnas e as pesquisas já apontavam com uma questão importante era a sensação de insegurança dos eleitores. “E é complexo, né? Porque a operação do governo gerou insegurança na população local. Mas o que se contou mais foi a insegurança patrimonial. Os roubos e furtos de celulares, a sensação de não poder sair de casa tranquilo. Isso vende muito”, afirma o pesquisador.

Almeida diz que a discussão sobre segurança ainda é muito superficial, com soluções baseadas em câmeras, mais presídios e o endurecimento das leis.

“É uma tendência as pessoas estarem mais ao lado, mais de acordo com quem está gritando, esgoelando, que vai resolver o problema da segurança pública com a repressão do que quem vem com uma parte mais técnica e mais consciente, mais humanizada, inclusive, das próprias polícias”, diz, citando os inúmeros problemas psicológicos entre policiais.

O pesquisador da UFABC também diz que a esquerda tem muita dificuldade de falar sobre o tema, que é complexo. “E a direita vendeu muito que a esquerda não está nem aí para a segurança pública, que ela está do lado do bandido, que ela é a favor da descriminalização da maconha, que ela é a favor do desencarceramento, que ela não quer que a majoridade penal diminua, enfim. A direita vende isso e isso pega muito rápido”, afirma.

O que diz a Secretaria da Segurança Pública

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) diz que as operações de segurança na Baixada Santista são realizadas para combater a criminalidade na região, com ações de policiamento ostensivo, combate ao tráfico de drogas e retirada de armas ilegais de circulação.

“Durante a operação de 2023 para combater o tráfico de drogas e o crime organizado, 976 criminosos foram presos, sendo que desse total, 388 estavam foragidos. Outros 70 adolescentes infratores foram apreendidos. Além disso, foram apreendidas 119 armas de fogo, incluindo fuzis e cerca de uma tonelada de drogas. Como resultado, os roubos no Guarujá caíram 33% em relação ao mesmo mês do ano anterior”, afirma, em nota.

A SSP diz que na operação realizada entre 2024 e 2025, foram 713 prisões e apreensões de adolescentes nas 16 cidades do litoral paulista. O número de carros e motos recuperados e de apreensões de drogas cresceu 9%.

“Na operação feita entre 2025 e 2026, foram realizadas 899 prisões e apreensões de adolescentes nas 16 cidades do litoral paulista, alta de 47,6% em relação à edição anterior. Também foram apreendidas 41 armas de fogo ilegais e 151,8 quilos de drogas, além da recuperação de 77 veículos. No período, os roubos de veículos caíram 53,8% e os furtos, 12%”, afirma.

A Secretaria da Segurança Pública diz que o enfrentamento ao crime exige atuação contínua, baseada em inteligência, investigação e policiamento ostensivo, com acompanhamento dos indicadores criminais e apuração de eventuais excessos policiais.