Cabeleireiro atacado por cliente: corregedoria apura B.O. por “lesão”
Defesa do cabeleireiro Eduardo Ferrari argumenta que ele foi vítima de tentativa de homicídio e homofobia
atualizado
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A Corregedoria da Polícia Civil irá ouvir, nesta semana, o cabeleireiro Eduardo Ferrari, atacado com uma faca por uma cliente em São Paulo. A defesa do profissional não concorda com a tipificação do crime registrada no boletim de ocorrência (B.O.), que é “lesão corporal simples”, e pede que o órgão apure a conduta da autoridade policial de plantão naquele dia.
O Metrópoles entrou em contato com a advogada de Eduardo Ferrari, Quecia Montino, que confirmou a informação. Segundo a defesa, o cabeleireiro foi vítima de tentativa de homicídio e homofobia. No dia 5 de maio, Ferrari foi golpeado pelas costas pela designer Laís Gabriel Barbosa da Cunha em um salão de beleza na Avenida Marquês de São Vicente. Laís não teria gostado de um cabelo feito pelo profissional.
A corregedoria é um órgão de controle interno da Polícia Civil que fiscaliza a conduta de delegados, investigadores e demais servidores da instituição. A defesa da vítima sustenta que é “inaceitável” o crime ter sido tipificado como “lesão corporal simples”.
Em nota, os advogados do cabeleireiro também disseram ter protocolado um pedido de representação no Ministério Público de São Paulo (MPSP) pela prisão preventiva de Laís.
“Homofobia aceitável no Brasil”
Após o ocorrido, nas redes sociais, Ferrari disse que a sensação deixada pelo episódio é a de que “a homofobia parece aceitável no Brasil”. No texto, ele também criticou o tratamento dado ao caso pelas autoridades policiais e relatou ter ouvido de uma agente que a ocorrência não teria sido tratada como tentativa de assassinato, porque ele “não tem parentes influentes”.
“Quem comete um ato como esse não tem nada a perder. Eu tenho. Tenho uma carreira construída com anos de luta, estudo, dedicação e trabalho. Tenho um negócio. Tenho responsabilidades. Tenho pessoas que dependem diretamente da minha cadeira e do meu trabalho para levarem sustento para casa. Meu único desejo era que tudo isso nunca tivesse acontecido. Que eu pudesse continuar exercendo a profissão que carrego tatuada no corpo e na alma. Poder acordar todos os dias e fazer aquilo que amo. De verdade, não aguento mais tudo isso”, afirmou.
Designer reclamou do corte
A designer, de 27 anos, reclamou nas redes sociais do resultado do trabalho do profissional no dia 7 de abril. Lais Gabriela Barbosa da Cunha afirmou ter ficado revoltada.
“Ele pegou o meu cabelo e foi picotando com uma tesoura-navalha. Se vocês conseguem ver, a minha franja está parecendo o Cebolinha, porque ele cortou todo o meu cabelo. Eu mandei mensagem do WhatsApp e eles ficaram dois dias sem me responder”, disse. Em outra gravação, ela afirmou: “Aí sabe o que eu fiz? Ofendi ele e falei: ‘seu viado desgraçado, arruma o meu cabelo’”.
Imagens cedidas ao Metrópoles mostram o momento em que Lais Gabriela Barbosa da Cunha fica posicionada atrás da vítima e, em seguida, retira um objeto da bolsa e realiza o ataque.
Na sequência, um segurança e outras pessoas presentes no salão intervém e retiram a faca usada contra o profissional, além de imobilizar a agressora. A Polícia Militar foi acionada e deteve Lais.
Ao Metrópoles, o cabeleireiro atacado contou estar sem trabalhar por temer por sua segurança. Eduardo Ferrari também lamentou desfecho do crime.
“A faca pegou de forma superficial e não foi no meu pescoço. Estamos lutando para julgarem da forma correta, porque a delegada considerou como lesão corporal leve e ela [Lais] saiu pela porta da frente. Isso não pode ficar impune. Estou com medo pela minha vida, não sabemos até onde isso foi um fato isolado”, diz.
O caso vai ser investigado pelo 7° Distrito Policial (DP) da Lapa como lesão corporal e ameaça. Lais foi liberada depois de prestar depoimento, no 91° Distrito Policial (DP) Ceasa.
Ameaças a cabeleireiro
O Metrópoles teve acesso ao Boletim de Ocorrência (B.O.) O documento diz que o proprietário do salão, bem como a vítima, pediram para que a mulher saísse do salão devido à confusão provocada. Apesar do pedido, Lais disse que “não resolvia coisas desse jeito”. Além disso, a designer falou que o cabeleireiro “estava marcado para morrer, nem que tivesse que trabalhar para pagar por isso”, destaca documento elaborado pela Polícia Civil.
De acordo com os responsáveis pelo salão, ela teria feito um procedimento para a aplicação de mechas no dia 7 de abril. Uma semana após o serviço, Lais começou a enviar mensagens demonstrando insatisfação com o resultado. Em um dos contatos, a mulher afirmou que gostaria de colocar fogo no profissional.
Eles explicaram para a cliente que o procedimento havia sido realizado conforme o combinado. Mas ela insistiu com os contatos e foi até o salão na tarde dessa terça, exigindo um reparo imediato ou a devolução do dinheiro pago pelo serviço.
Em nota, o advogado Murilo Augusto Maia diz que Laís tem transtorno psicótico agudo e transitório não especificado. Segundo ele, a cliente foi diagnosticada com o transtorno em 2023 e, desde então, realiza tratamento pelo CAPS. No entanto, passou por uma internação em decorrência de uma hepatite medicamentosa, o que fez com que seu tratamento controlado fosse interrompido.
Além disso, a defesa alega que a mulher “jamais pensou em tentar contra a vida de Eduardo” e que portava uma faca de cozinha na bolsa por questões de segurança, uma vez que já havia sido assaltada na região da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.















