“Baque”, diz mãe de menino de 4 anos morto por PM em “legítima defesa”
Polícia Civil concluiu que PMs que atiraram e mataram menino de 4 anos em Santos, em 5 de novembro de 2024, “disparavam em legítima defesa”
atualizado
Compartilhar notícia

A mãe do menino Ryan Silva Andrade Santos, morto aos 4 anos, vítima de um tiro efetuado por um policial militar (PM), classificou como “um baque” a conclusão da Polícia Civil de que os agentes da segurança pública “disparavam em legítima defesa” quando acertaram a criança.
“Eu tô esses três dias sem dormir direito, sem querer comer. Foi um baque pra mim, tá sendo um baque pras crianças, principalmente pro mais velho, que entende”, disse Beatriz da Silva Rosa, de 31 anos, à reportagem, se referindo aos outros dois filhos, irmãos de Ryan, de 8 e 11 anos.
Ryan morreu após ser baleado em uma troca de tiros entre policiais militares (PMs) e traficantes no Morro São Bento, em Santos, no litoral de São Paulo, em 5 de novembro de 2024. Ele estava a cerca de 70 metros do confronto quando foi atingido na barriga. O menino foi socorrido por familiares à Santa Casa de Santos, mas não resistiu.
Bala partiu de PM
Mais tarde, um laudo apontou que o projétil que matou a criança partiu de um policial militar. Entre todos os suspeitos e PMs, o cabo Clóvis Damasceno de Carvalho Júnior, do 6º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I), era o único que portava uma espingarda calibre 12 – mesmo calibre que atingiu o menino.
Em depoimento, ele e todos os colegas de corporação que participaram da ação afirmaram ser “improvável que o disparo que atingiu a criança tenha partido da arma de qualquer policial”.
Os agentes consideraram que a distância, o terreno e o ângulo dos disparos impossibilitaria que um projétil acertasse Ryan. A criança estava na parte mais elevada da rua no momento em que os PMs trocaram tiros com os supostos traficantes – sendo dois adolescentes, de 15 e 17 anos. O mais velho foi morto.
Os PMs alegam que os adolescentes atiraram contra os agentes. O menor que sobreviveu, no entanto, negou que eles estivessem portando qualquer arma de fogo. Testemunhas oculares também negam a ocorrência de uma troca de tiros e afirmam terem visto apenas policiais atirando.
No relatório final da Polícia Civil, o delegado Thiago Nemi Bonametti afirmou que os elementos colhidos na investigação confirmam a versão dos PMs de que teria havido um confronto armado.
Conforme o documento, o exame pericial do local apontou que também foram feitos disparos de armas que não pertenciam aos policiais.
“Revelando que a hipótese mais provável é mesmo que foi atingida após o projétil ricochetear mais abaixo na via (próximo do local do confronto), o que revela a impossibilidade de que esse resultado fosse previsível aos militares que disparavam em legítima defesa”, afirmou o delegado.
“Acabaram com a minha família”
Esta não foi a primeira vez que Beatriz perdeu um familiar para a Polícia Militar. Nove meses antes da morte de Ryan, o companheiro da merendeira, e pai das crianças, também foi morto por agentes do estado. Eles estavam juntos há 14 anos.
“A polícia que seria para nos proteger, acaba nos matando. Então, assim, é bem difícil a situação que a gente vive no morro. Quem mora no morro já é discriminado. Se é preto e mora no morro, é mais discriminado ainda. Esse é o trabalho da polícia, pra gente pelo menos, no morro. Segurança a gente não tem nenhuma. A gente não é protegido por nenhum dos dois lados, então é bem complicado”, denunciou a mulher.
Com as duas mortes em menos de um ano, ela conta que a família ficou despedaçada. “Acabaram com a minha vida, acabaram com a minha família. Destruíram a vida das crianças”, desabafou.
Beatriz relatou ainda que a família não recebeu qualquer assistência do Estado e que ficou desamparada financeiramente, principalmente após a morte do marido.
“Não chegaram nem com o mínimo, que é assistência psicológica para as crianças, uma assistência básica. Porque mataram o pai, que me ajudava. Então, estou sozinha para [pagar] aluguel, para comida, para isso, para aquilo. Está tudo muito difícil”, relatou.
Apesar da conclusão da Polícia Civil, a merendeira afirmou acreditar no trabalho do Ministério Público. “O que eu quero e o que eu espero é que a justiça seja feita”, destacou.
“Eu me desespero, porque sou mãe. Todos acabam se desesperando e ficando revoltados porque era uma criança, mas ainda não tá acabado, não é o fim. Eu espero que o Ministério Público dê uma cartinha pelo menos, boa pra nós, de que vá ser feito alguma coisa, que a justiça seja feita. E é o que eu espero, vou lutar até o fim”, afirmou a mãe do menino.
PMs respondem por homicídio simples
Seis policiais militares do 6º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I) são os principais investigados por terem participado diretamente da ação.
Eles são alvos de um inquérito na Polícia Civil, apresentado à Justiça, nessa segunda-feira (2/2), no âmbito de um processo que investiga os agentes por homicídio simples.
Os agentes também foram investigados em um Inquérito Policial Militar (IPM), movido pela própria PM, e em um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) movido pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP).
A Polícia Civil concluiu o inquérito sem indiciar nenhum PM. Agora, o MPSP deve analisar o relatório final antes de dar um parecer à Justiça.
O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) sobre as investigações internas movidas contra os policiais. Em nota, a pasta afirmou que o caso foi investigado pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Santos, sob segredo de Justiça.
Pela Polícia Militar, um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para apurar todas as circunstâncias da ocorrência. O procedimento foi concluído e encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar do estado de São Paulo (TJM-SP) em janeiro de 2025. Os policiais envolvidos permaneceram afastados do serviço operacional durante o período das investigações.








