PMs são indiciados por fraude em execução de jovem, mas seguem soltos
Câmeras mostram policial empurrando arma para cena do crime. Segundo Defensoria, PMs tentaram incriminar jovem para alegar legítima defesa
atualizado
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Mais de um ano após o entregador Gabriel Ferreira Messias da Silva, de 19 anos, ser morto por um policial militar na zona leste de São Paulo, os agentes envolvidos no caso continuam soltos. Imagens de câmeras corporais, testemunhas e até um laudo pericial apontam que os policiais fraudaram a cena do crime, numa tentativa, segundo a Defensoria Pública, de justificar uma execução como legítima defesa.
A investigação do caso é conduzida pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil de São Paulo. Em dezembro de 2025, o delegado Adriano Menechini afirmou no inquérito que “elementos robustos” colocam em xeque a versão apresentada pelos PMs e decidiu indiciar os quatro agentes que estavam na ocorrência.
O sargento Ivo Florentino dos Santos, que atirou em Gabriel, foi indiciado por homicídio e fraude processual. O cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos também foram indiciados por fraude processual.
Gabriel morreu durante uma perseguição policial, na Vila Silvia, zona leste da capital paulista, em novembro de 2024. Na época, os PMs que estavam na ação afirmaram que o entregador estava armado, pilotava uma moto sem placa e fugiu após cruzar com a viatura. Uma análise da Defensoria Pública sobre as imagens das câmeras corporais dos policiais provocou, no entanto, uma reviravolta no caso.
Relembre o caso
- Os PMs que atenderam à ocorrência disseram que Gabriel teria caído ao fazer uma curva e, ao levantar-se, sacou uma arma de fogo. Nesse momento, o sargento Ivo Florentino dos Santos teria disparado de dentro da viatura.
- Gravações das câmeras corporais mostram, no entanto, que não há nenhuma arma próximo a Gabriel ou à moto que ele pilotava quando os agentes se aproximam do jovem.
- Às 23h18, duas câmeras mostram o policial Ailton Severo do Nascimento se abaixando ao lado da moto. Segundo relatório da Defensoria, nesse momento o agente “parece dar uma instrução de como colocar uma arma no chão”. No minuto seguinte, Ivo “parece colocar a arma no chão, ao lado da motocicleta”, de acordo com o relatório.
- Na sequência, é possível ver, pela câmera do policial Ailton, o sargento Ivo empurrando uma arma com o pé para debaixo da moto.
- O momento em que Ivo empurra a arma é flagrado também pelos aparelhos do próprio Ivo e do policial Gilbert, que registraram o som do objeto sendo arrastado.
- As imagens também filmaram Gabriel, ainda vivo, implorando por ajuda após ser baleado. No vídeo, ele diz para um agente: “Eu sou trabalhador, senhor, pra que isso comigo, meu Deus? Me ajuda, senhor, por favor”.
Testemunha viu PM colocar algo ao lado de Gabriel
O Metrópoles teve acesso ao inquérito da Polícia Civil sobre o caso. O documento mostra que testemunhas corroboraram a tese de que Gabriel não estava armado.
Uma delas, protegida pela investigação, afirma que viu um dos policiais “se agachando e colocando rapidamente algo do lado de Gabriel”. Outra, também protegida, diz que viu quando um dos policiais pegou algo dentro da viatura e falou para o outro policial: “Achei, achei”.
Um laudo elaborado pela Perícia da Polícia Técnico-Científica, a partir das imagens das câmeras corporais, também reforçou a análise já feita pela Defensoria Pública sobre a dinâmica dos fatos.
A perícia confirma que não há nenhuma arma ao redor de Gabriel nas primeiras imagens e que Ivo aparece empurrando um “objeto com características semelhantes a uma arma de fogo” para perto da motocicleta.
“A análise detida das gravações revela incongruências relevantes com o relato dos policiais”, afirma o delegado Adriano Menechini no inquérito policial.
Apesar da decisão pelo indiciamento dos quatro policiais, no entanto, não há previsão de quando o inquérito será finalizado e, principalmente, de quando os policiais serão julgados. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública diz que as investigações da Polícia Civil “estão em fase de conclusão”. Segundo a pasta, os agentes “seguem afastados das atividades operacionais” – na prática, isso significa que os PMs estão em funções administrativas, por enquanto.
IPM favorável aos policiais
Os policiais também foram alvo de um inquérito policial militar (IPM), conduzido pela própria corporação. O IPM, no entanto, foi encerrado ainda em janeiro de 2025 e concluiu pela legalidade da atuação dos policiais.
O tenente Wesley Vinícius Martins Silva, responsável pelo procedimento, defendeu que não havia necessidade de prisão preventiva dos agentes.
“Verifica-se que há elementos de convicção suficientes e juízo de cognição sumária demonstrando que a ação dos policiais militares em tela está pautada na preservação da ordem pública e integridade física dos agentes, portanto, encontra-se amparada na excludente de ilicitude”, concluiu o tenente.
A Corregedoria da Polícia Militar não participou da apuração do caso. O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública por que a investigação não foi conduzida pela Corregedoria, mas a pasta não quis comentar.
“Injustiça”
Para a mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira, o sentimento é de injustiça. “Os meses vão passando, a gente vê a injustiça, e nada acontece. O laudo da perícia comprova que ele [o sargento Ivo] colocou a arma no Gabriel, que o Gabriel não tinha nada. Eu não entendo por que a Corregedoria não tá com um caso desses. Por que que não pediu a prisão desse homem?”
Fernanda vive no dia a dia a saudade de Gabriel. Na foto de perfil do WhatsApp, a mensagem de luto nunca foi trocada. Mãe de outros três filhos, ela diz temer pela vida deles diariamente.
“Meu filho mais velho sai pra trabalhar e eu tenho medo de ele não voltar, dele encontrar esse assassino. Porque se esse policial não fosse perigoso, ele não tinha feito o que ele fez. Ele não se intimidou nem com as câmeras corporais.”
A recepcionista faz um apelo: “Eu só queria que o governador olhasse o meu apelo de mãe e visse que o que eu tô pedindo não é injusto. Eu só quero justiça, eu só quero honrar a memória do meu filho, porque a todo tempo eles querem fazer meu filho de ladrão”.
O Metrópoles entrou em contato com a defesa de Ivo, Ailton, Gilbert e Evanildo. Em nota, o advogado Diego Eliel dos Santos, que representa Gilbert, disse que “seu cliente agiu estritamente dentro da legalidade, não havendo nenhuma irregularidade em sua conduta, circunstância que será demonstrada no curso do processo”.
O escritório de João Carlos Campanini, que faz a defesa de Ailton e Evanildo, disse que não vai se manifestar. A defesa de Ivo não retornou até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto.










