
Atos descentralizados da esquerda nas ruas marcaram campanha no 2º turno
Manifestações pró-Lula se espalharam em diferentes pontos do país. Em São Paulo, periferias e centro registraram mobilização

São Paulo — Um ato convocado por fãs de k-pop. Corridas organizadas por atletas amadores. E uma série de passeatas e protestos em diferentes lugares de São Paulo e no Brasil. A mobilização descentralizada nas ruas marcou a campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste segundo turno.
Desde que as urnas mostraram o petista atrás de Flávio Bolsonaro (PL) ao término do primeiro turno, uma profusão de eventos surgiu nas grandes cidades brasileiras em apoio à Lula. Organizados por eleitores ou pela própria campanha, alguns atos chegaram a reunir milhares de pessoas. Foi o caso da manifestação na Avenida Paulista neste sábado (24/10).
Antes disso, outro ato em apoio ao candidato já havia acontecido no mesmo local. Convocada pelos fandoms, como são chamados os grupos de fãs jovens, a manifestação na Paulista no dia 11 de outubro contou com a participação do próprio presidente, além de aliados como o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o governador reeleito do Ceará, Camilo Santana (PT).
O evento chamou a atenção da direita, que divulgou vídeos de manifestantes em cima de estações do Metrô em uma tentativa de reduzir o peso político do ato. Peças de desinformação usando uma imagem falsa de uma usuária de drogas no protesto também foram compartilhadas por Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPAs mobilizações nas ruas, no entanto, continuaram se espalhando nos dias seguintes, em diferentes endereços e com tamanhos variados. Na capital paulista, manifestantes ligados ao movimento hip-hop fizeram um ato musical na zona norte, com nomes como Emicida e Souto MC. Atos também foram registrados em locais como a Praça Roosevelt, no centro, o Largo da Batata, na zona oeste, e no Grajaú, na zona sul.
Em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, políticos como o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), e a ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB) fizeram uma passeata. Em Campinas, no interior paulista, atletas amadores fizeram uma corrida vestindo roupas vermelhas.
No resto do país, grandes atos também foram registrados em cidades como Brasília, Recife e Rio de Janeiro.
“A gente não via uma mobilização nas ruas como essas que estão ocorrendo desde a época da redemocratização, nas Diretas Já”, afirma o cientista político Paulo Ramirez.
Professor da ESPM e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), Ramirez diz que a mobilização surgiu nas redes, a partir de grupos de estudantes preocupados com uma eventual derrota de Lula, mas cresceu rapidamente atraindo pessoas fora do campo da esquerda.
“A novidade é o fato de que o PT atraiu não só petistas, mas membros da sociedade civil no sentido mais geral”, afirma ele, citando que o receio de uma ruptura democrática com a eleição de Flávio levou pessoas da direita não-bolsonarista às ruas.

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Ver todasNas manifestações, políticos, artistas e membros de movimentos sociais reforçavam o discurso de que o público presente precisava virar votos e levar aqueles que não foram às urnas no primeiro turno.
Repetindo a estratégia, a direita também marcou atos nas principais cidades do país e conseguiu reunir multidões na Avenida Paulista, em São Paulo, e na Avenida Boa Viagem, em Recife. As manifestações, no entanto, foram em locais mais centrais, diferentemente do que ocorreu no campo de Lula que pulverizou os atos.
A professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Maria do Socorro Braga diz que a mobilização nas ruas pode influenciar, de forma indireta, o resultado nas urnas neste domingo (25/10).
“O apoiador engajado no ato passa a atuar diretamente no convencimento de vizinhos, familiares e conhecidos indecisos”, diz ela, afirmando que a demonstração de força incentiva os eleitores convictos a atuarem como multiplicadores de votos. “Em disputas acirradas, o principal objetivo das mobilizações não é convencer o eleitor de oposição, mas sim mobilizar a base de apoiadores”, explica a cientista política.
Os dois especialistas afirmam que os atos também influenciam no pós-eleição. Em caso de vitória de Flávio neste domingo (25/10), a mobilização na esquerda pode, segundo os professores, colocar pressão sobre o governo bolsonarista.
“Uma oposição com forte presença de rua deve elevar o custo político de propostas polêmicas e pressionar o Congresso Nacional, atuando como um contraponto externo às decisões do Poder Executivo e moldando a agenda pública nos primeiros anos de gestão”, diz Braga.
















