MPT apura denúncias de assédio moral no Sesc após morte de funcionário
Funcionários denunciam a pressão vivida no ambiente de trabalho nas unidades do Sesc, com relatos de assédios e cargas de horário abusivas
atualizado
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Na noite de 28 de fevereiro, um sábado, o Sesc Pompeia, localizado na zona oeste de São Paulo, fechou as portas repentinamente e só foi reaberto novamente na terça-feira (3/3). Pessoas que estavam dentro do auditório aguardando o show de Alzira E com Zelia Duncan foram orientadas a sair do local às pressas com a justificativa de “problemas técnicos”.
O Metrópoles apurou que, na verdade, que um funcionário havia se matado naquela noite. Ao se aprofundar sobre as circunstâncias do episódio, a reportagem se deparou com testemunhos de outros funcionários apontando forte pressão no ambiente de trabalho, com relatos de assédio moral e carga horária abusiva.
Em alguns casos, funcionários reportaram sobrecarga de trabalho, pressão por resultados, mudanças no plano de saúde, fusões compulsórias de cargo (acúmulo de função) e ausência de políticas para minimizar essa exaustão (leia mais abaixo).
O conjunto de denúncias chegou ao conhecimento do Ministério Público do Trabalho (MPT), que abriu dois procedimentos investigatórios esta semana. Uma Notificação de Fato refere-se à morte do funcionário, e a outra está relacionada aos relatos de jornada exaustiva de trabalho. Ambas aguardam distribuição para um procurador.
Viaturas da Polícia Civil
Um frequentador do Sesc que estava na unidade na noite do dia 28, e que preferiu não se identificar, contou ao Metrópoles que a plateia do show teve que sair às pressas do auditório. Na porta da unidade, ele viu viaturas da Polícia Civil – o que soou estranho diante da alegação de problemas técnicos. Antes de ir embora, o frequentador contou ter visto colaboradores chorando.

O Sesc explicou ter usado a justificativa dos “problemas técnicos” no dia do ocorrido após orientação dos policiais que estiveram no local.
“Não tratamos o colega como um número substituível. Demos toda a atenção e cuidados necessários à família e amigos”, disse o Sesc por meio de nota.
O diretor Regional do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina, informou, também em nota, que toda a comunidade de funcionários e terceirizados está em luto pelo animador cultural que tirou a própria vida.
Denúncias dos funcionários do Sesc
Para colegas do funcionário morto, “o episódio do dia 28 de fevereiro é um sintoma da pressão por prazos, pelas demandas e ordens que vão surgindo e colocando os empregados em grande estresse”.
As pessoas que falaram com o Metrópoles também afirmaram que os problemas não se restringem à unidade Pompeia. “Várias unidades têm afastamentos por questões mentais. São mais de 40 unidades, algumas com mais casos, outras com menos, mas nos grupos os relatos se repetem”, disse.
Os colaboradores explicaram que, como o Sesc abre nos finais de semana, o esquema de trabalho tem um revezamento. Com isso, eles trabalham alternadamente — em uma semana, a escala é de terça-feira a sexta-feira e, na seguinte, de terça a domingo. A queixa é que, muitas vezes, os colaboradores têm que trabalhar em todos os fins de semana sem folga.
O Metrópoles também teve acesso a mensagens trocadas pelos funcionários da rede, que relatam problemas de saúde mental devido às demandas abusivas dos superiores. Uma pessoa contou que teve uma infecção forte, foi ao hospital e precisou tomar antibiótico durante 10 dias, mas o atestado valeu apenas para o dia em que ela foi ao pronto socorro.
“Querem mais é que a gente morra trabalhando”, lamentou. “A fachada é bonita, [mas] o miolo… Quem diria que uma instituição com o social com destaque teria tantas angústias promovidas pelos próprios gestores e líderes de equipe”, pontuou outra.
Segundo os funcionários, no Sesc Pompeia o trabalho é acentuado por inúmeras razoes: os shows podem se estender, há desmontagem de palco e muitas atividades acontecem ao mesmo tempo, como duas ou três exposições, show na comedoria e show/peça no teatro. Outro colaborador contou ao Metrópoles que, ao ser transferido do Pompeia para outra unidade, acumulou um saldo de 120 horas extras – que foram devidamente pagas.
Sobre os relatos dos funcionários, o Sesc falou que “todos os casos de desrespeito que nos chegam por todos os canais disponíveis internos e externos, inclusive o de denúncia, por meio de nossa Ouvidoria, damos o devido cuidado e apuração com punições respectivas, quando assim julgamos devidas”.
Busque ajuda
O Metrópoles tem a política de publicar informações sobre casos ou tentativas de suicídio que ocorrem em locais públicos ou causam mobilização social, porque esse é um tema debatido com muito cuidado pelas pessoas em geral.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o assunto não venha a público com frequência, para o ato não ser estimulado. O silêncio, porém, camufla outro problema: a falta de conhecimento sobre o que, de fato, leva essas pessoas a se matarem.
Depressão, esquizofrenia e uso de drogas ilícitas são os principais males identificados pelos médicos em um potencial suicida – problemas que poderiam ser tratados e evitados em 90% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria.
Está passando por um período difícil? O Centro de Valorização da Vida (CVV) pode ajudar você. A organização atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype, 24 horas, todos os dias.”

