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Alvo de Trump, Tren de Aragua cresceu na Venezuela com “método” do PCC

Assim como PCC, facção venezuelana surgiu dentro do sistema prisional e expandiu domínios a partir da soltura e da transferência de membros

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Salvadoran Government via Getty Images
Imagem colorida de supostos membros da facção Tren de Aragua presos
1 de 1 Imagem colorida de supostos membros da facção Tren de Aragua presos - Foto: Salvadoran Government via Getty Images

A facção Tren de Aragua, citada por Donald Trump com pretexto para invadir a Venezuela, cresceu no país de modo semelhante à expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, no início dos anos 1990. Assim como a maior organização criminosa brasileira, o Tren de Aragua surgiu dentro do sistema prisional, a partir da união de detentos contra as condições precárias e a violência do estado, e expandiu seus domínios por meio da soltura e transferência de membros para outras regiões do país.

O grupo foi criado em uma penitenciária em Tocorón, no norte veezuelano, em meados de 2014. A unidade se tornou o principal centro de recrutamento e fonte de mão de obra para os traficantes. Cerca de uma década depois, o Tren de Aragua estava presente em toda a Venezuela e em diferentes países da América do Sul, atuando em mais de 20 atividades criminosas, além do tráfico de drogas, como: tráfico de armas, contrabando de imigrantes, garimpo ilegal e lavagem de dinheiro.

No Brasil, onde teria conexões em pelo menos seis estados, a facção teria estabelecido bases e parcerias com organizações criminosas locais, como o próprio PCC, de acordo com autoridades de Roraima. A relação envolveria as redes de fornecimento de drogas que passam pela Floresta Amazônica.

De acordo com a jornalista venezuelana Roanna Rísquez, especialista em Tren de Aragua, a primeira região dominada pela organização criminosa fora do sistema prisional foi o bairro de San Vicente, cidade de Girardot, que passou a viver sob um estado paralelo. “Lá não se permite a entrada de forças policiais desde 2014”, disse a autora no livro “El Tren de Aragua: La banda que revolucionó el crimen organizado en América do Sul”, publicado em 2023.

Ao longo dos últimos 10 anos, à medida que o grupo recrutava novos faccionados e que eles eram realocados pelo país, a facção aumentava sua influência territorial e ampliava suas redes de tráfico. Durante o processo de expansão internacional, teria explorado a crise humanitária no país e a concessão de refúgio humanitário por outras nações para exportar integrantes.

“A organização criminosa começou a instalar células nos países que os venezuelanos escolheram como refúgio, mas não em qualquer cidade desses países. Elas se estabeleceram nas zonas fronteiriças, justamente por onde os venezuelanos precisam passar no processo de mobilidade”, escreveu Rísquez.

Segundo ela, a partir do controle das fronteiras, o Tren de Aragua teria começado a atuar no chamado “tráfico de imigrantes”, cobrando de venezuelanos pelo serviço de transporte para países vizinhos e abrigo de forma ilegal.

Parceria transnacional

Nesse movimento, o PCC surge como parceiro circunstancial. A aproximação é pragmática, pois o Tren de Aragua agrega acesso a rotas internacionais e mão de obra, enquanto o PCC oferece capilaridade, domínio territorial e expertise na gestão do varejo do tráfico.

O resultado é uma engrenagem que amplia a circulação de cocaína, majoritariamente, com reflexos diretos na dinâmica criminal de fronteiras e capitais, rendendo bilhões de dólares aos grupos criminosos.

A conexão aparece também em processos judiciais a que a reportagem teve acesso a trechos. Em um deles, de Roraima, é mostrado que Pedro José Odreman Brito e Moisés Rafael Martinez Peinado foram presos em 14 de junho de 2025, por volta das 11h40. O flagrante ocorreu no bairro Cidade Satélite, perto de um posto de combustível.

Segundo a acusação, Pedro José foi detido por trazer consigo entorpecentes, enquanto Moisés Rafael foi preso por manter em depósito e por vender drogas em benefício do Tren de Aragua, organização da qual fariam parte.

Na ação, foram apreendidos 755,33 gramas de cocaína em pó e 49,39 gramas de crack. Em audiência de custódia, a prisão em flagrante foi homologada e convertida em preventiva para garantia da ordem pública, diante da gravidade dos fatos e do risco concreto apontado pela Justiça. Esse entendimento embasou a renovação da prisão preventiva de ambos no âmbito do Judiciário roraimense.

A movimentação processual mais recente obtida pela reportagem, referente a dezembro do ano passado, indica que o caso avançou sem sobressaltos. Houve audiência de instrução por videoconferência no dia 1º. Nos dias seguintes, foram juntados laudos e apresentadas alegações finais, com comunicações encaminhadas ao Diário de Justiça Eletrônico Nacional. No dia 20, constou o fim do prazo para a manifestação dos dois réus da Venezuela, que não foi feita.

O processo, ainda em curso, ilustra como a facção venezuelana, ao se associar a estruturas já consolidadas como o PCC, deixou de ser um fenômeno externo para se materializar em investigações e condenações no Brasil.

Trump e o narcotráfico

Em 2020, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou Nicolás Maduro de comandar um suposto cartel de drogas da Venezuela, o Cartel de Soles. O documento foi usado ao longo de 2025 para justificar a escalada de tensões e militares contra o país, que culminou com a invasão e a captura do ditador em 3 de janeiro.

Após a prisão, um novo documento divulgado pelo Departamento de Justiça mudou a qualificação de Nicolás Maduro. O chavista, que até então era acusado de ser “chefe de uma organização terrorista narcotraficante”, passou a ser culpado de “participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção de enriquecimento a partir do tráfico de drogas” e de lucrar com isso.

O Cartel de Soles, até então descrito como uma organização terrorista, foi mencionado apenas duas vezes no novo documento e passou a ser caracterizado como um termo guarda-chuva para o narcotráfico regido pela elite venezuelana.

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