Advogado de Poze cita racismo ao dizer que MC é “suspeito eterno”
Defesa de Poze aponta “desinformação policial” e cisma da polícia em associar Poze ao crime organizado, o que teria o racismo como motivação
atualizado
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Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, o MC Poze do Rodo, é premiado na Europa, mas considerado um “suspeito eterno” no Brasil, disse o advogado Fernando Henrique Cardoso, que representa o artista, em entrevista exclusiva ao Metrópoles. A defesa atribuiu ao racismo a “cisma” das forças de segurança pública com o funkeiro.
“Uma sociedade que é fundada no racismo observa uma pessoa igual ao Marlon e não consegue entendê-lo enquanto alguém capaz de auferir valores reais, valores lícitos de riqueza. Ou seja, se essa pessoa tem dinheiro, ela só pode ser bandida, esse dinheiro só pode ser sujo”, criticou Cardoso.
Para o advogado, é uma “desinformação policial” associar o artista ao crime organizado e, da mesma forma, incriminá-lo em uma investigação que não identificou transações financeiras suspeitas diretas entre ele e Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, apontado como líder do esquema (veja mais abaixo).
Assim como Ryan, Poze foi preso no âmbito da operação, mas solto em 14 de maio após a concessão de um habeas corpus pelo Juízo da 5ª Vara Federal de Santos, no litoral de São Paulo.
Elo com Comando Vermelho
Alvo da Operação Narco Fluxo da Polícia Federal (PF), que investiga um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, Poze também está na mira constante da Polícia Civil do Rio de Janeiro por suposta associação com o Comando Vermelho (CV).
O elo já foi descartado pela Justiça fluminense anteriormente, como destacou Cardoso à reportagem. O funkeiro foi absolvido em agosto de 2024 da acusação de associação ao tráfico, apologia e corrupção de menores por falta de provas.
Na época, ele tinha se apresentado em uma comunidade dominada pela facção, o que levou a uma denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). O Juízo considerou que o show, por si só, não representa uma prova sólida de integrar o crime organizado.
“Ficou provado no processo que ele é inocente desse tipo de acusação. Não só desse tipo de acusação, como desse tipo de narrativa”, afirmou Cardoso.
Para o advogado, a insistência em citar a facção ao mencionar o nome de Poze, como a PF fez na representação que levou à Operação Narco Fluxo, é uma “desinformação policial”.
PF não identificou transferências entre Poze e MC Ryan, aponta defesa
Cardoso também chamou de desinformação a forma como Poze figura na investigação da Narco Fluxo. O advogado ressaltou que a representação da PF não apontou qualquer transferência financeira entre ele e Ryan.
A investigação mostra que a produtora de Ryan transferiu R$ 300 mil para Ellyton Rodrigues Feitosa, empresário de Poze e sócio do artista na gravadora EMPOZE. Segundo a defesa, a movimentação financeira seria justificada por serviços de publicidade, e não incrimina Poze.
“Não há nenhuma transferência, seja recebendo, seja remetendo valores do Marlon para essas empresas tidas pela polícia como próprias de um esquema criminoso. O fato é que o Marlon não recebeu nenhuma transferência”, destacou.
Para a PF, no entanto, Ellyton é o gestor administrativo do ecossistema financeiro do cantor carioca, e ambos atuariam na fase de “estratificação” do esquema.
A representação descreve a gravadora de Poze como “operadora supostamente atuante conectando recursos bilionários das contas e malhas do CV (MC Poze) em possíveis cruzamentos paulistas vinculados à CASAL [Imports, outra empresa investigada no esquema]”.
A investigação da PF resultou na prisão temporária e, mais tarde, preventiva de Poze. Ellyton, por sua vez, foi alvo de um mandado de busca e apreensão. Para Cardoso, o fato reforça a tese de que a decretação das prisões foi desproporcional, seletiva e baseada na imagem pública do artista, e não em provas concretas.
Em habeas corpus à Justiça, a defesa de Poze destacou que as palavras com indicação de possibilidade (“supostamente” e “possíveis”) apontam para uma “ilação da ilação da ilação” – uma dedução a partir de indícios e premissas. Cardoso argumenta que isto não é suficiente para decretação de prisão.
Sob medidas cautelares
A Justiça Federal atendeu o pedido da defesa e concedeu o habeas corpus a Poze, submetendo o investigado a medidas cautelares, como:
- Comparecimento a todos os atos do processo;
- Comparecimento mensal em Juízo;
- Informar eventual mudança de endereço;
- Não deixar a cidade onde mora por mais de cinco dias sem autorização judicial;
- Retenção do passaporte e não sair do país sem autorização da Justiça.
“Eu poderia ter todas as cautelares e até as que não existem para substituir a prisão do meu cliente, porque prendê-lo não teria nenhum motivo, nenhum fundamento para a investigação”, afirmou Cardoso. Segundo ele, as medidas “dão a garantia para que a polícia possa fazer a investigação que quiser”.














