Mei di Minas entrega pão de queijo gostoso e recheado com linguiça
Os sanduíches feitos com o quitute mineiro são o ponto alto do estabelecimento, que revigora a culinária regional brasileira
atualizado
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Costumo encarar com muita resistência modinhas empreendedoras do ramo gastronômico tais como temakeria, frozen yogurt, paleta mexicana etc. Pois há alguns meses me deparei com uma pão de queijaria, a Mei Di Minas, no Baixo Asa Norte. Você já deve ter ouvido falar deste lugar, por conta dos sandubas de pão de queijo que fizeram a cabeça do editor do Metrópoles Luiz Prisco.
Comecei a me perguntar se seria a vez de uma nova (e efêmera) tendência a surgir no sempre dinâmico setor de alimentação brasiliense.
Depois de três visitas ao local, não me resta dúvidas de que o espírito de Mei Di Minas está muito mais enraizado na forte cultura gastronômica belo horizontina do que nas ondas do momento. Primeiro porque estamos falando de pão de queijo, cartão-postal culinário brasileiro por excelência. Em segundo lugar, lá pelas bandas de BH, pão de queijaria costuma carregar um aspecto diferente das casas de salgados e doces daqui: trata-se de um ponto de encontro boêmio meio quituteria e meio barzinho.
Espanta-me Brasília. Esta terra, gestada por um diamantinense, até 2014 contabilizava em sua população total uns 20% de mineiros. Mas duvido que tenhamos essa porcentagem toda de pão de queijo decente por aqui. Aguardo ainda ansioso pelo dia do exame de sangue no Sabin, na expectativa de aplacar o jejum com a fornada do salgado fornecido pela Delícia de Minas (Taguatinga) para o laboratório. “Que exagero!”, dirão. Nem tanto. Pão de queijo de qualidade por aqui é como a goiabada cascão em caixa de Nei Lopes: “coisa fina que ninguém mais acha”.
Jerivá, na BR-060, costumava ter uma ótima receita do quitute; há o de queijo suíço no Clube do Choro; o Café Bem Casado (309 Norte) com uma primazia de fórmula; e reconheço o estilo caipira verrucoso e queimadinho do Rei do Pão de Queijo (302 Sul) e Pão de Queijo Original (Vicente Pires). Também costumo achar bons exemplares no Doces da Vó Cina (402 Norte), Café Dona Neide (Guará), Gamela (406 Sul) e Vitamina Central (506 Sul). Biscoitos Mineiros e Forninho Mineiro, duas referências regionalistas, acertam no sabor, mas devem em textura.

Pão de queijo não possui uma fórmula única e precisa, mas detém atributos básicos. Deve levar cozimento uniforme, precisa de um exterior levemente crocante e do interior um tanto aerado, porém suculento, macio, um pouco liguento e com proeminente sabor de queijo. É preciso haver um pouco de acidez (a mistura do polvilho doce com o azedo é recomendada, mas não exigida). O fundo levemente queimado pela assadeira acrescenta suave amargor e mais crocância.
No Mei Di Minas não há dúvidas de que estamos diante de um bom pão de queijo. Melhor no seu formato grande, que compõe os sanduíches da casa. As porções em tamanho mini (R$ 6, com cinco unidades) devem umidade no interior, mas são saborosas. Você pode solicitar nos sabores natural, com ervas ou de calabresa (nesses não vejo lá muita graça). Uma pena se recusarem a vender a unidade do pão de queijo pequenininho: ou você come cinco ou nenhum.
Esqueça aquele formato de quituteria de toalha rendada e móveis de pátina ao qual fomos acostumados na cidade. A proposta deste estabelecimento montado por Jaques Mourad e Josias de Freitas faz a linha boêmia. Não podiam se instalar numa quadra melhor para esse propósito, embora situada do lado mais tranquilo da entrequadra 408/409 Norte. Abre no fim da tarde, apresenta uns poucos (e bons) rótulos de cerveja e serve petiscos brasileiríssimos.
Dadinhos de tapioca (R$ 18,90), esses sim modinha advinda lá de São Paulo, combinam com o perfil da pão de queijaria. Quadradinhos bem feitinhos, crocantes e dourados, leves, porém com geleias de maracujá e de pimenta muito açucaradas, devem maior acidez. Uma alternativa para compartilhar com mais gente surge com Nossinhora (R$ 36,50), carne de sol fatiada de forma irregular, dessalgada na medida correta e coberta com queijo de coalho mais couve crocante. Cebola caramelizada e uma pitoresca farofa de pão de queijo acompanham.
Só pelos acepipes já vale uma visita ao Mei Di Minas. Boa companhia às comidinhas pode vir com uma cerveja gelada. Recomendaria a Antonov American Pale Ale, mas saiu do menu de bebidas, atualmente em fase de revisão. Fique então com o Chazim caseiro (R$ 4,00), que não precisava de tanto limão.
Para uma boa experiência, contudo, é necessário relevar o instável clima brasiliense (nessas noites têm ventado um bocado e o ambiente externo pode ser desconfortável para os mais sensíveis à friagem). Também precisa superar o atendimento desatento. Há eficiência no serviço, porém, falta cordialidade, empatia. Cadê a mineirice?
Uma vez no Mei Di Minas você não pode deixar de passar pelo cardápio de sanduíches, definitivamente o ponto alto do local. Os preparos vêm embrulhados em embalagem estilo greasy pel, típico de hamburguerias, com uma charmosa canequinha retrô de fazenda preenchida por um saboroso molho barbecue temperado com pimenta biquinho mais cachaça.
Não compartilho do mesmo entusiasmo do colega Prisco com o hambúrguer Bão Pá Daná (R$ 23,90), considero muito fibroso. Mas a combinação do disco feito com carne de sol mais queijo de coalho com cebola refogada no melaço vai muito bem dentro das fatias de pão de queijo.
Gosto mais do Prestenção (R$ 17,90), a clássica combinação de pão de queijo com linguiça. Fazia em casa até que conheci o Churrasquinho Mineiro na Feira de Vicente Pires que serve o preparo por R$ 5 — embora num pão de queijo muito massudo. A receita do Mei Di Minas é mais sofisticada, combinando o embutido suíno apimentado com queijo Minas meia cura, couve crocante e geleia de pimenta. Infalível.
Outras opções interessantes aparecem com o Vacaiado (R$ 22,90), embora a costela desfiada tenha levado muito sal; ou Doidimais (R$ 21,90), com rabo de boi desfiado num delicioso molho tomatoso e um toque ácido importante conferido pelo picles de cebola-roxa.
No momento do boom das hamburguerias gourmet de inspiração americana, o Mei Di Minas usa criatividade para reafirmar os sabores da nossa culinária caipira. Essa moda eu gostaria que pegasse.
Mei Di Minas
Na 409 Norte, bloco C, lojas 15 e 19. (61) 98165-6545. 17h à 0h, de terça a sábado. Ambiente externo. Aberto em 2017














