Casa Doce acerta ao apostar nas delícias dos doces brasileiros

A loja, localizada na 112 Sul, é comandado pela confeiteira Angela Tonon

atualizado 08/12/2017 19:56

Guilherme Lobão/Metrópoles

Não há nada como uma vitrine de doces. Duro resistir a, ao menos, uma marota olhadela de passagem. Das experiências facultadas à gourmandise desses hábitos de consumo contemporâneos, devo admitir, esta me parece a mais sensual delas. Eis uma conquista do neuromarketing impossível de ser destronada no campo da alimentação. O açúcar vicia, afinal. No paladar, a percepção do dulçor parece ser aquela sem qualquer negatividade, estranheza. Prazer instantâneo, libidinoso. Este é o doce.

Nele me debruço para a reflexão de hoje. Para tanto, recorri à fonte (uma delas apenas), à nave-mãe dos sweet-teeth: a confeitaria. Chame de redundância, mas o destino escolhido foi justamente a Casa Doce. Exagero considerar-me um frequentador assíduo desta (ou de qualquer doçaria). Não me enquadro nas listas de chocólatras nem avolumo estatísticas daquelas pessoas que almoçam pensando na carta de sobremesas.

Reconheço a importância do açúcar para a composição da experiência gastronômica, mas não sem problematizar o excesso com o qual me deparo diariamente – do sonho da padaria aos tenebrosos ramequins lambuzados de calda com um picolé fincado no meio. Há esforços, no Brasil, para se construir uma confeitaria brasileira – como a que persegue o paulistano Diego Lozano, por exemplo. Importante essa busca, com fins de superação da dependência do classicismo francês e das receitas adulosas da memória afetiva.

Pode ser que a Casa Doce percorra essa trilha, pois o estabelecimento situado na 112 Sul reúne muitas dessas facetas da confeitaria. Afinal, aqui encontramos o esforço da matriarca Angela Tonon de sua produção informal no interior paulista à diversificação de influências francesas, italianas e americanas. Há coisas lindíssimas na vitrine, obviamente. A prova de fogo, contudo, está no paladar.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Casa Doce: serviço versátil do café ao lanche da noite

 

Há um bom repertório caseiro, representado por um biscoitinho amanteigada superleve (R$ 60 o quilo) e o pudim lisinho (R$ 7,50) de calda suficientemente cozida a ponto de gerar o desejado contraste do doce com o amargo – tal como deve ser. Perdoem-me os que preferem furadinho, mas o fato de gostarem mais não os outorga razão. De outro lado, produz equilibrada e dourada tortinha de maçã (R$ 4,90) ou uma irreparável mil-folhas com camada de chantili e de creme pâtissière (R$ 8,75).

A loja também opera como cafeteria, com frustante serviço de barista, mas entrega um pão de queijo formidável; restaurante (servindo refeições diárias no almoço); e padaria, com uma oferta bem interessante de pães artesanais (uma modinha bem-vinda até). Um passeio pelas suas vitrines pode deixar o cliente atordoado – sensação esperada neste modelo da exposição de produtos insinuantes nas gôndolas e prateleiras (funciona para tudo, supermercado, livraria e até, para quem curte, marcas de óleo de motor na oficina).

Algumas notas de criatividade e rigor técnico elevam a produção da Casa Doce a uma instância um tanto acima da média encontrada em Brasília – embora em muitas seções, a exemplo da de tortas, acomode-se a modismos e a receitas um tanto básicas, apesar de tecnicamente bem feitas. Registre-se, contudo, um grande feito: o bolo molhado de abacaxi (R$ 9,90 a versão no pote). Costumo torcer o olho para esse negócio de umedecer o pão-de-ló, pois o fazem em excesso. Encontro, nesse, equilíbrio ideal, entre as camadas de massa e de recheio.

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Deslizes aparecem com as meras reproduções. Uma delas, a linha de entremets (torta suprassumo da excelência técnica). Soube essa semana que, sabiamente, foi excluída do cardápio. Os semifredos, por outro lado, persistem, na contramão do gosto mais popular. Aliás, do repertório italiano, a Casa Doce tem seu maior feito na sorveteria assinada pelo filho de Angela, Fabrício Tonon, a Fabrizzio Gelato Italiano. Sobre essa me detive pontualmente no teste do sorvete. Bela técnica, ótima matéria-prima.

Eis que chega para fins desta análise uma última condição, ápice desse processo de aculturação revelado, em boa parte, pelas sobremesas, doces e demais acepipes açucarados: o porn food. Como um bom comércio, a Casa Doce também opera sob esse signo do mero hedonismo.

Assim, aparece a infâmia do tal “bolo de churros”(R$ 52), que nada mais é um bolo de doce de leite com canela (alguns heróis da depravação gourmet ainda conseguem adorná-lo com churros de fato). Soma-se aí a overpriced torta de frutas vermelhas (R$ 86,90 o quilo) e versões gigantescas de docinhos como o quindim e o bem-casado (R$ 38,90). Esses, para minha surpresa, deliciosos.

Seu bolo de cenoura com chocolate (R$ 32 o quilo) sofre do mesmo mal da incensada receita da Casa de Biscoitos Mineiros (espalhada pela cidade): a dependência do açúcar, sobretudo em sua combinação com o chocolate, para esconder todas as notas mais sutis que poderiam aparecer num leve, fofo e saboroso preparo.

Há recheio e cobertura em demasia. Corta-se e a faca arrasta apenas a cremosidade do chocolate, deixando pouco espaço para o que o filósofo do gosto, Nicola Perullo, chama de sabedoria do paladar – algo além da mera dimensão do prazer. Taí: na Casa Doce, como na confeitaria brasileira de um modo geral, há muito deste hedonismo do gosto, imiscuído a tendências, escolas e técnicas. Falta ousadia e jogo de cintura para escapar aos modismos aviltantes acomodados nas vitrines.

Casa Doce
Na 112 Sul, bloco A, loja 29. Telefone: (61) 3445-2807. De terça a sexta das 9h às 20h. Sábado e domingo até 19h (domingo abre só 9h15). Wi-fi. Ambiente interno e externo. Aberto em 2003

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