Twitter, você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão

O samba de Beth Carvalho está sendo cantado em voz alta, não só pelos foliões em blocos de rua neste carnaval, mas por milhões de internautas ao redor do mundo que estão indignados com os rumores de que o Twitter deverá adotar mudanças significativas na timeline de seus usuários nos próximos dias. A informação foi […]

Autor Fernando Braga

atualizado

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O samba de Beth Carvalho está sendo cantado em voz alta, não só pelos foliões em blocos de rua neste carnaval, mas por milhões de internautas ao redor do mundo que estão indignados com os rumores de que o Twitter deverá adotar mudanças significativas na timeline de seus usuários nos próximos dias. A informação foi divulgada pelo BuzzFeed News e, é claro, mexeu com os ânimos dos usuários.

O microblog ganhou força na web a partir de 2009, basicamente por dois motivos: condensar os conteúdos em 140 caracteres (o fim dos textões dos blogs!) e exibir os tweets publicados por ordem cronológica. Bastava publicar algo para que o texto aparecesse lá na mesma hora no feed dos amigos. Pá-pum. Durante anos esse foi um dos principais motivos do sucesso da plataforma. No entanto, os criadores do serviço pretendem mudar essa lógica e fazer com que os tweets sejam mostrados baseados nos cálculos de um algoritmo, da mesma forma como acontece no Facebook.

Em outras palavras, para que o conteúdo chegue até os seus seguidores você terá que ser bem popular (leia-se youtuber, artista ou padre) para ver a publicação exibida na frente de outras ou torcer para ter amigos pacientes e dispostos a fazer várias rolagens na tela até encontrar o que você compartilhou.

Ou seja, o conceito de tempo real defendido na origem do serviço e que o fez o Twitter ser um dos principais responsáveis pela difusão da quarta tela irá dar lugar a uma sistema de priorização de importância de posts, baseado em uma lógica definida por um robô.

Estima-se que os 302 milhões de usuários ativos da rede social publiquem, em média, 350 mil postagens a cada minuto. Não há como negar, é muito conteúdo que circula no microblog. No entanto, o diferencial sempre foi deixar o usuário realizar esse filtro, dando a ele a liberdade para ver as atualizações de quem deseja. Sim, sempre foi ele que esteve no comando das visualizações. O conteúdo já não agrada? O botão “deixar de seguir” está ali, a um clique de distância, para que a peneira balance e a timeline se renove.

Não é de hoje que o microblog vem se esforçando para trazer novidades para os seguidores. E sejamos honestos, muitas vezes eles acertaram. A possibilidade de postar vídeos e gifs, por exemplo, caiu rapidamente no gosto dos internautas. Assim, como as funções “Enquanto você esteve ausente” e “Moments” – esse último, uma espécie de “curadoria” daquilo que o Twitter acha que é importante e que pode, inclusive, ser considerado um precursor do algoritmo.

Assustado com a repercussão da hashtag (olha aí outra novidade introduzida pela rede) #RipTwitter, que bombou nos Trending Topics, o atual CEO da marca, Jack Dorsey, fez questão de acalmar os ânimos e declarou que eles nunca planejaram “reorganizar as timelines nas próximas semanas” e que o Twitter é sobre ser ao vivo e em tempo real. O problema é que ele usou “próximas semanas”, em vez de “nunca”, o que não ajudou muito e que até pode indicar que mudanças, realmente, devem estar à caminho.

Quantas vezes o serviço foi usado como ferramenta de comunicação eficaz, a ponto de “furar” veículos tradicionais de notícias? A onda da primavera árabe, o anúncio da morte do ator Philip Seymour Hoffman, as primeiras informações sobre os atentados de Paris. Essas são apenas algumas histórias que foram contadas primeiro no Twitter antes de chegar às manchetes.

Não defendo o congelamento irracional de uma plataforma. Pelo contrário. O mundo da tecnologia está recheado de exemplos de marcas que pararam no tempo e foram atropeladas pelo novo. Porém, acredito que a essência de um produto, aquilo que faz com que milhões de pessoas se interessem e adotem uma ferramenta, deve ser defendida com uma filosofia estampada nas paredes de uma instituição.

Confesso que a “orkutização” do Facebook, alardeada há alguns, não chegou a me meter medo. Parecia mi-mi-mi setorizado e que, aos poucos, se mostrou sem fundamento. Mas a “faceboquização” do Twitter que nivela diferentes concorrentes num mesmo patamar, onde a popularidade é mais importante que a comunidade, isso, sim, me faz temer pelo futuro do passarinho azul.

Fernando Braga é editor de conteúdo multimídia do Metrópoles. Atua há 11 anos na cobertura jornalística de temas voltados à tecnologia, computação, internet e telecomunicações.

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