Pressa para aprovar a polêmica Luos causa naturais desconfianças
Não há motivo forte para que a Lei de Uso e Ocupação do Solo seja votada a toque de caixa por distritais em final de mandato
Hélio Doyle
Com apenas oito de seus 24 integrantes reeleitos, a Câmara Legislativa pode aprovar na semana que vem um dos mais polêmicos projetos de toda a legislatura: a Lei de Uso e Ocupação do Solo, conhecida como Luos. Tanto o governador Rodrigo Rollemberg quanto seu sucessor, Ibaneis Rocha, pressionam os distritais para que a lei seja aprovada ainda neste ano, apesar da forte oposição de urbanistas, ambientalistas e outras pessoas que conseguem entender o significado das modificações propostas.
Só mesmo os especialistas e os mais envolvidos nas questões urbanísticas, seja pela atividade empresarial ou pela militância social e política, são capazes de discutir com profundidade o que diz o complexo projeto de Luos. Vale o mesmo quanto a outra proposta ainda não votada pela Câmara Legislativa, o Zoneamento Ecológico e Econômico (ZEE), e ao Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot), que deverá ser revisto brevemente.
Nunca houve em Brasília, por parte dos governantes e dos deputados distritais, o menor esforço para levar as pessoas comuns a entenderem o que mudará em suas vidas, em termos pessoais e coletivos, com o que estabelecem a Luos e o Pdot. Nunca interessou a eles que as pessoas entendessem essa legislação. Dificilmente algum morador do Distrito Federal não envolvido diretamente no assunto saberá dizer, por exemplo, para que serve o ZEE.
Há, porém, os poucos que sabem muito bem o que ganharão e o que perderão com esses instrumentos legais que mexem com o território em que vivemos, estabelecem normas que afetam a vivência social, a qualidade de vida, os serviços públicos, a captação de água, o trânsito, as áreas públicas. Enfim, que interferem diretamente no cotidiano dos brasilienses. E são esses poucos que fazem, agora, as pressões e contrapressões para a aprovação ou não da Luos. A quase totalidade da população não sabe do que estão falando.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO bom senso indica que, diante da polêmica, uma Câmara Legislativa com distritais em final de mandato não tem legitimidade para, nos últimos dias do ano e às pressas, aprovar uma lei tão importante quanto a Luos. Ainda mais com 16 distritais que não voltarão no ano que vem. Se o governo de Rollemberg demorou mais de três anos para mandar o projeto à CLDF, e se Ibaneis nem tomou posse, falta-lhes também legitimidade para pressionar os deputados para que aprovem a Luos.
Quem só conhece a Luos pelas notícias da imprensa, tem toda razão para desconfiar da pressa. Muitos se lembram das negociatas entre governantes, distritais e empresários por ocasião de votações anteriores do Pdot e da Luos, e é voz corrente nos meios mais informados de que sempre rolou muito dinheiro em torno desses projetos
Suspeitas
Ótimos negócios já foram feitos em Brasília graças a artigos e parágrafos do Pdot e da Luos aprovados sorrateiramente pela sempre suspeita Câmara Legislativa. Alguns artigos e parágrafos colocados pelo Executivo, outros por emendas de distritais. E até agora, ao texto contestado por opositores da Luos, foram apresentadas 104 emendas parlamentares ao projeto.
Além disso, não há o menor sentido em aprovar a Luos antes de aprovar o Zoneamento Ecológico e Econômico, que deveria ser a base para definir a destinação de cada área do território. Não dá para entender por que o governador Rollemberg não planejou a apreciação do ZEE antes da Luos e deixou tudo para o último ano de sua gestão.
Também não dá para entender a pressa de Ibaneis, pois mais três meses de debates não causarão, em tese, nenhum grande prejuízo a seu futuro governo. E, pelo jeito, ele já tem maioria na próxima legislatura.
É mais fácil entender a pressa de alguns distritais e o esforço do presidente da Câmara Legislativa, Joe Valle, para votar logo a Luos. Eles não serão deputados em 2019 e perderão a oportunidade de participar de uma votação tão relevante para seus interesses. E Valle já ganhou duas secretarias no futuro governo.



