O esporte era a única chance para esses meninos. E foi a última também

Vítimas de um sistema errado que não dá chances para os mais pobres, eles viraram também vítimas de um incêndio trágico

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atualizado 08/02/2019 21:34

O brasileiro que ama futebol, como eu, sabe o real significado das categorias de base. Para esses garotos, a maioria vinda de famílias carentes, jogar em um time de futebol significa muito mais que treinamento e aprendizado. A base, principalmente de um grande clube como o Flamengo, deixa de ser esporte e se transforma em expectativa de dias melhores.

Em um país desigual como o Brasil, o futebol é significado de ascensão social e saída da miséria. Esses meninos que chegam nas categorias de base cada vez mais jovens sonham em comprar uma casa para a mãe, que dá duro enquanto eles estão treinando. Esses garotos pensam no dia que vão deixar a favela, no dia que vão poder comer e comprar o que lhes faltou durante a infância.

Isso porque o esporte é uma das poucas áreas onde “se dar bem” depende mais do jogador que da situação social em se vive. É como se o brasileiro pobre e favelado já nascesse com “o dom nós pés”, aperfeiçoado dia após dia nos campos de terra batida e nas peladas de rua que arrancam a ponta dos dedões a cada drible.

Muitos deles não têm condições financeiras para estudar em uma boa escola, fazer um curso de línguas, chegar a uma boa faculdade e, assim, alcançar um futuro melhor por meio dos estudos. Por isso, vislumbram nas categorias de base essas oportunidades.

Um time como o Flamengo representa melhora imediata de vida: um lugar para morar, refeições diárias e saudáveis, uma ajuda financeira e até a chance de continuar na escola.

Além disso, por meio desse clube, o jovem jogador sonha não apenas em abandonar os dias difíceis e alcançar o sucesso financeiro mas também a realização pessoal e profissional. Esse menino sonha em vestir a camisa da Seleção Brasileira, em fazer gols e dedicar à namorada, em balançar os braços em homenagem ao filho que ainda nem nasceu após vencer um clássico.

É por meio do futebol que esses garotos acreditam que vão deixar a vida de sofrimento para trás e se transformar em pessoas ativas e donas de sua própria trajetória. Devido a tudo isso, o fogo que invadiu o centro de treinamento da categoria de base do Flamengo, no Rio de Janeiro, na madrugada desta sexta-feira (8/2) tem um peso tão grande. Ao matar esses jovens, entre 14 e 16 anos, o fogo destruiu sonhos antes ceifados apenas pela realidade social brasileira.

Esses garotos já eram vítimas. Todos eles só moravam no Ninho do Urubu por serem de famílias carentes e não terem condições financeiras de viver em outro lugar. Eram meninos de outros estados, mandados para a “cidade grande” em busca de uma vida melhor. Eram crianças pobres da periferia do Rio, que, para evitarem horas e horas de transporte coletivo, preferiam dormir no lugar de “trabalho”.

Mais do que futuros jogadores de futebol, cada um desses meninos era a esperança de suas famílias, e o Flamengo, a única chance de uma vida melhor para eles. Vítimas de um sistema errado que não dá chances para os mais pobres, eles viraram também vítimas de um incêndio trágico. Se até ontem o esporte era a única chance para esses garotos, hoje foi a última também.

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