O desenvolvimento necessário ao Brasil (por José Dirceu)

Que desenvolvimento é necessário e possível neste momento histórico, isto é, na atual fase da história brasileira?

Autor José Dirceu

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Imagem gerada por IA
ilustracao-brasil-sustentavel-natureza-industria-e-tecnologia—imagem-gerada-por-ia
1 de 1 ilustracao-brasil-sustentavel-natureza-industria-e-tecnologia—imagem-gerada-por-ia - Foto: Imagem gerada por IA

O Brasil precisa recolocar no centro do debate público a questão do desenvolvimento nacional. Não como nostalgia de um passado industrial que não voltará nos mesmos termos, mas como problema histórico concreto: que país queremos construir, com quais instrumentos, em que lugar do mundo e sob quais bases democráticas, tecnológicas e ambientais.

Depois de uma década marcada por golpe, austeridade, desmonte do Estado, regressão social, avanço da extrema direita e financeirização ainda mais profunda da economia, não basta administrar a conjuntura nem celebrar indicadores positivos, ainda que eles sejam reais graças à reconstrução conduzida no terceiro mandato do presidente Lula. O desafio é transformar recuperação em projeto, crescimento em desenvolvimento e reconstrução em mudança estrutural.

Nas últimas semanas, Laura Carvalho e Guilherme Klein analisaram, no jornal Folha de S.Paulo, a distância entre o desempenho macroeconômico do governo e a percepção cotidiana da economia. Leonardo Weller respondeu que a esquerda se recusa a enfrentar os efeitos da crise sob Dilma Rousseff e o papel das políticas expansionistas na recessão de 2014-2016.

É um debate necessário, mas ele não pode ficar preso à oposição entre a defesa abstrata dos resultados sociais dos governos petistas – equívoco que Carvalho e Klein não cometeram, diga-se – e a narrativa simplificadora de que a crise teria sido apenas consequência de excesso de gasto, excesso de Estado ou desenvolvimentismo.

A pergunta que interessa é outra: que desenvolvimento é necessário e possível neste momento histórico, isto é, na atual fase da história brasileira, diante da nova geopolítica mundial, da crise climática, da revolução digital, da financeirização e dos limites do capitalismo dependente brasileiro?

Ou ainda quem a liderará, qual coalizão política e social, quem será capaz de fazer uma concertação em torno de um projeto de desenvolvimento, e se isso é possível. Trata-se de oferecer ao país um horizonte capaz de reorganizar expectativas, enfrentar privilégios e recolocar o Estado em sua função estratégica de planejar, induzir investimentos, garantir direitos e afirmar a soberania nacional.

Planejar e coordenar, construir alianças com os setores produtivos e de trabalhadores, mobilizar a sociedade, com planos e metas, com objetivos setoriais e instrumentos de gestão e governança, liderar um projeto nacional de desenvolvimento.

O desenvolvimentismo ficou desgastado no debate público. Seus adversários procuraram transformá-lo em sinônimo de descontrole fiscal, voluntarismo estatal, obra a qualquer custo e subsídio sem contrapartida. E

ssa caricatura interessa ao rentismo e aos defensores da austeridade permanente. Desenvolvimento, para nós, nunca foi isso. Desenvolvimento para nós é o país tomar em suas mãos seu destino, colocar em primeiro lugar os seus interesses vitais, nacionais, frente um mundo onde impera a lógica da guerra, a corrida tecnológica e a reorganização de fato do capitalismo.

Sendo o Brasil uma potência, quinto país em território, oitavo em população e uma das dez maiores economias do mundo, pode e deve assumir seu papel e lugar no mundo.

O papel do Estado

Para além da sua soberania alimentar e energética, a questão é se seremos capazes de ser soberanos em finanças e tecnologia, se seremos capazes de romper a dependência ao capital rentista financeiro e ao atraso tecnológico,  com o Estado, como acontece e todo mundo, assumindo o papel de liderar, coordenar e induzir  uma transformação produtiva, social e política que garante a soberania e a democracia.

Nesse sentido, vale a leitura do artigo dos professores Luiz Fernando de Paula, Fabiano Santos e Rafael Moura sobre o projeto desenvolvimentista dos governos do PT. O texto recusa tanto a negação da existência de um projeto petista quanto sua idealização.

Mostra que os governos do PT tiveram orientação social-desenvolvimentista, combinando salário-mínimo, mercado interno, políticas sociais, crédito, investimento público e bancos públicos, mas também identifica limites que condicionaram seu avanço e sua crise: financeirização, volatilidade externa, pressão dos mercados, ausência de reformas estruturais, tributária, financeira e política, e efeitos econômicos e políticos da Lava Jato.

O professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, ao formular a tese do “novo desenvolvimentismo”, chamou a atenção para a indústria, a taxa de câmbio competitiva, a responsabilidade macroeconômica e a necessidade de um projeto nacional. Sua contribuição foi relevante porque enfrentou o neoliberalismo e advertiu contra ilusões voluntaristas. Mas o Brasil de hoje exige síntese mais ampla.

Soberania, no século 21, não se define apenas por indústria, câmbio e investimento. É também domínio de dados, infraestrutura digital, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, energia e biodiversidade.

O Brasil de 2026 não é o Brasil de 2003, nem o de 2011. A ordem internacional mudou. A China se consolidou como potência industrial e tecnológica, os BRICS ganharam densidade e os Estados reassumiram papel decisivo na disputa por tecnologia, energia e alimentos. Enquanto isso, o Brasil ainda se vê amarrado a uma discussão estreita sobre ajuste fiscal, metas de curto prazo e contenção do investimento público, como se fosse possível disputar o futuro com os instrumentos do passado neoliberal.

Política macroeconômica

Por isso, a política macroeconômica precisa ser recolocada dentro de uma estratégia nacional. Não há desenvolvimento com juros elevados, crédito caro, famílias endividadas, empresas desestimuladas a investir, impostos indiretos e regressivos, energia cara e orçamento capturado por despesas financeiras e renúncias fiscais.

Para crescer de modo sustentado, é necessário reduzir juros, revisar o regime de metas de inflação, redefinir os objetivos do Banco Central, ampliar o crédito produtivo e recompor o papel do BNDES, da Finep e dos bancos públicos, dos fundos de pensões.

A reforma do sistema financeiro é parte desse projeto. Não basta reduzir conjunturalmente os juros se o sistema financeiro continuar organizado para remunerar a especulação, concentrar crédito, encarecer o financiamento produtivo e transferir renda da sociedade para poucos grupos.

É preciso reorientar o sistema financeiro para o desenvolvimento, com bancos públicos fortes, crédito de longo prazo, maior concorrência bancária, redução estrutural do custo do crédito e regulação mais rigorosa. O Banco Central não pode seguir apartado dos objetivos nacionais definidos pelo voto popular.

Seu mandato deve incorporar, além do controle da inflação, metas de crescimento, emprego e estabilidade financeira, em coordenação com a política fiscal, industrial e tecnológica.

A experiência recente mostrou que a falta de supervisão adequada, a concentração bancária e a autonomia excessiva das autoridades monetárias podem produzir riscos para a economia e bloqueios ao desenvolvimento. Um país soberano precisa de um sistema financeiro a serviço da produção, do trabalho, da inovação e da maioria social, não subordinado ao rentismo.

Também não haverá desenvolvimento sem reforma tributária progressiva. Um país que tributa pesadamente o consumo e o trabalho, mas alivia lucros, dividendos, grandes patrimônios, heranças e rendas financeiras, reproduz desigualdade e limita sua capacidade de investir.

A concentração de renda é o principal obstáculo aos investimentos e ao crescimento do país, agravada pela expropriação da renda nacional pelos juros, seja do serviço da dívida pública ou do crédito em geral, únicos no mundo, que expropriam a renda do trabalho e da produção

O Estado precisa de recursos para infraestrutura, saúde, educação, ciência, tecnologia, habitação, saneamento e transição energética. Isso investimento social e econômico.

Investimentos e PIB

O principal desafio do país é aumentar a taxa de investimentos para dobrar seu PIB em dez anos com distribuição de renda, o que só será possível com uma ampla reforma tributária e redução dos juros, apropriando se de parte da renda nacional para realizar uma revolução tecnológica, agregando valor as riquezas minerais, agrícolas e energéticas do país.

A nova agenda também deve recolocar o trabalho no centro. A informalidade, a plataformização, a subordinação algorítmica, o endividamento das famílias e a captura do tempo de vida mudaram as formas da exploração, mas não eliminaram a centralidade da classe trabalhadora.

Reduzir a jornada sem reduzir salários, superar a escala 6×1, recompor direitos, fortalecer sindicatos, regular plataformas, proteger a previdência pública e valorizar o salário mínimo são tarefas econômicas, sociais e democráticas.

O desenvolvimento necessário ao Brasil deve ainda ser ambientalmente responsável. A transição ecológica não pode ser obstáculo ao crescimento nem nova forma de dependência, em que exportamos biodiversidade e energia barata para importar tecnologia.

O Brasil pode transformar suas vantagens ambientais e energéticas em base de reindustrialização, inovação e empregos qualificados. Defender o meio ambiente é impedir que o país repita o padrão primário-exportador, predatório e excludente.

Soberania digital

Isso vale para a soberania digital. Dados, inteligência artificial, semicondutores, satélites, capacidade computacional e plataformas são infraestruturas de poder. Um país que entrega seus dados, sua comunicação e sua infraestrutura digital a corporações estrangeiras abre mão de parte decisiva de sua soberania.

Precisamos de política nacional de dados, infraestrutura pública, regulação democrática das big techs e política industrial para semicondutores.

Esse projeto exige democracia substantiva, com participação popular, soberania do orçamento, reforma política e enfrentamento da captura do sistema político pelo poder econômico. O desenvolvimento brasileiro sempre foi bloqueado quando ameaçou privilégios. Foi assim nas Reformas de Base, na reação ao avanço social dos governos petistas e no golpe de 2016. Sem maioria social organizada, e uma correlação de forças ampliada no Congresso e na sociedade, qualquer projeto permanecerá vulnerável à chantagem dos mercados.

O governo Lula tem realizado uma reconstrução importante: recuperou políticas públicas, retomou investimentos, reduziu desemprego, melhorou renda, recolocou o Brasil no mundo, retomou a política industrial com a Nova Indústria Brasil, impulsionou o PAC e abriu uma agenda de transição energética.

Mas a conjuntura exige transformar essas iniciativas em projeto histórico, capaz de enfrentar o rentismo, elevar a taxa de investimento, reindustrializar o país, proteger o trabalho, regular o poder digital, fortalecer a soberania e produzir nova esperança para o povo brasileiro.

A pergunta decisiva, portanto, é de qual desenvolvimento estamos falando. Para nós, a resposta deve ser clara: desenvolvimento com soberania nacional, democracia, distribuição de renda, trabalho valorizado, indústria, ciência, tecnologia, transição ecológica, serviços públicos universais e participação popular. Desenvolvimento que transforme produtividade em bem-estar e crescimento em direitos. Esse é o desenvolvimento necessário ao Brasil.

A principal pergunta é se o país será capaz de assumir sua soberania no século 21 e manter sua independência e democracia, realizando uma revolução social e política, na direção da autonomia não apenas política mas de poder industrial e  tecnológico a partir de seus interesses nacionais, liderando uma integração sul americana que nos de um lugar no novo mundo que já está nascendo.

  • José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações