Geociências para a soberania: a gestão dos recursos minerais estratégicos do país
O conhecimento geocientífico é a base para que o Brasil exerça sua soberania sobre os recursos minerais
Inácio Melo
atualizado
Compartilhar notícia

O papel estratégico do Brasil no contexto geopolítico global ganha destaque diante da intensificação da busca por terras raras e minerais estratégicos.
Nesse cenário, os produtos gerados e disponibilizados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), empresa pública do governo federal, são fundamentais para ampliar o conhecimento sobre as riquezas do território, garantindo a soberania nacional e o uso estratégico do potencial mineral brasileiro.
O Brasil possui enorme vocação e potencial mineral, e apresenta exploração mineral em todas as regiões do país, com ampla gama de minérios exportados.
Atualmente, cerca de 27% do território brasileiro conta com mapeamento geológico em escala 1:100.000. Mesmo com essa cobertura, o país já se destaca no cenário internacional por seus recursos minerais estratégicos.
O Brasil lidera o ranking global de reservas de nióbio, com 16 milhões de toneladas – equivalente a 94% das reservas conhecidas no mundo.
Também ocupamos a segunda posição global em reserva de grafita, com 74 milhões de toneladas (26% do total global), e de elementos terras raras, com 21 milhões de toneladas (23%).
No caso do níquel, somos a terceira maior reserva global, com 16 milhões de toneladas (12%) das reservas mundiais, conforme dados consolidados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Os investimentos contínuos do estado brasileiro em aquisição e processamento de dados geológicos, geoquímicos e geofísicos tem como objetivo aumentar as chances de descoberta de novas jazidas.
O SGB busca desenvolver estudos em áreas com arcabouço geológico favorável à ocorrência de elementos críticos e estratégicos, visando reduzir as lacunas de conhecimento, especialmente em regiões menos estudadas como a Amazônia.
Potencial geológico
É preciso também superar limitações tecnológicas e logísticas para transformar o enorme potencial geológico dos recursos minerais estratégicos atualmente conhecidos, contribuindo para a ampliação das reservas minerais explotáveis e bem conhecidas.
Estamos estudando firmar parcerias estratégicas entre o SGB, outras instituições de ciência e tecnologia (ICT) e o setor privado para desenvolver novas tecnologias.
Grande parte dos recursos de terras raras conhecidos no Brasil atualmente não é economicamente viável. Portanto, investir em tecnologia e inovação pode ser a chave para que o Brasil salte de um pequeno produtor de ETRs (com produção anual de cerca de dezenas de toneladas) para um cenário de produção em escala global.
Com esse propósito, e no marco dos 56 anos do SGB, lançaremos um plano estratégico para orientar, nos próximos 10 anos, as ações de pesquisa mineral.
O Plano Decenal de Pesquisa de Recursos Minerais 2026-2035 segue diretrizes do Ministério de Minas e Energia (MME), detalhando áreas que serão priorizadas para execução de projetos relacionados a minerais estratégicos e críticos para a transição energética e segurança alimentar, além de iniciativas com foco na inteligência mineral, rochas e minerais industriais, gemas, minerais nucleares, entre outras.
Áreas prioritárias
O plano estabelece mais de 100 áreas prioritárias e projetos estratégicos em províncias geológicas com alto potencial mineral. Esse trabalho ampliará o conhecimento do território nacional.
Serão priorizados minerais como terras raras, fosfato, lítio, nióbio, grafita, cobre, níquel e elementos do grupo da platina — e apoio ao desenvolvimento de novas fronteiras de exploração em apoio às demandas nacionais e globais.
Em um mundo cada vez mais competitivo e marcado por tensões geopolíticas, ampliar a capacidade técnica de identificar, avaliar e explorar minerais estratégicos não é apenas uma vantagem econômica, é uma necessidade.
O conhecimento geocientífico é a base para que o Brasil exerça sua soberania sobre os recursos minerais. Precisamos avançar de forma coordenada e articulada para garantir que o conhecimento gerado seja confiável, acessível e útil para subsidiar políticas públicas, atrair investimentos e fortalecer a presença do Brasil nas cadeias globais de valor.
- Inácio Melo é diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil
