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Maria Celina de Azevedo Rodrigues

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Dia Internacional da Mulher: estamos em um caminho sem volta

 

No Dia Internacional da Mulher, sempre me lembro da frase de uma palestrante em um evento comemorativo desta data, a qual assisti há muitos anos. A declaração que tanto me marcou foi resposta a um comentário de participante do sexo masculino que, em tom explicitamente irônico, perguntou à palestrante por que não há também o Dia Internacional do Homem.

Com delicadeza, mas bastante presença, a senhora prontamente respondeu que todos os dias eram dias dos homens e que o das mulheres era celebrado apenas em 8 de março. A resposta foi muito aplaudida e creio que quem fez a pergunta deve se lembrar até hoje do episódio. Pergunto-me se ele terá se dado conta de que, apesar de tanto se falar em igualdade de gênero em todos os setores da sociedade, a luta das mulheres continua árdua e diária.

Apesar de muitas conquistas, ainda há um longo caminho a ser percorrido para se obter o resultado esperado. Como diplomata mulher e pela segunda vez à frente da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB), faço constantes comparações entre o momento em que assumi como primeira presidente da recém-criada entidade, em 1990, e o atual.

Verifico que, tanto no passado, quanto no presente, o entusiasmo e a força das mulheres na Casa (como carinhosamente chamamos o Itamaraty) continuam marcantes. A diferença, no entanto, é que as diplomatas daquela época eram mais “tímidas” para pleitear condições de igualdade no Ministério das Relações Exteriores.

Felizmente, o movimento em busca da equidade profissional de gênero vem ganhando cada vez mais força em diversos setores da sociedade, o que tem estimulado a atuação de representantes que buscam o aumento da presença feminina e, sobretudo, a igualdade de oportunidades em posições de destaque e liderança.

Não é novidade que as mulheres são minoria na carreira diplomática. Mas, ainda assim, as estatísticas surpreendem. Em outubro de 2018, apenas 16% dos cargos comissionados de nível 5 (o mais alto sendo 6) eram ocupados por diplomatas mulheres. A situação é a mesma nos cargos mais altos: 84% dos cargos de alta chefia (nível 6) e de seus assessores são homens"

Nas representações brasileiras no exterior, o panorama não é melhor. Menos de 9% das chefias de embaixadas brasileiras são ocupadas por mulheres. Além disso, somos menos de 6% dos cargos em postos classificados como A, muitos situados em capitais estratégicas, a exemplo de Londres, Paris, Roma e Washington. Todas as embaixadas nas Américas são chefiadas por homens.

A África é o continente em que há a maior participação de mulheres nos cargos mais altos das representações brasileiras : 21%. O dado mais chocante é que, entre os 27 maiores postos da carreira diplomática brasileira (com 10 diplomatas ou mais), somente um é chefiado por mulher.

Assim, não há como cruzar os braços. É fundamental que, à luz desses números, todos os integrantes da carreira (sobretudo a chefia do Itamaraty) trabalhem para reduzir o cenário de desigualdade no ministério. Muito progresso foi feito, mas os desafios ainda são muito grandes. Sou, contudo, otimista e creio que reunimos elementos para quebrar paradigmas.

Somamos esforços com iniciativas como o Grupo das Mulheres Diplomatas, que, de maneira muito eficaz, vem contribuindo para dar visibilidade aos desafios adicionais enfrentados pelos diplomatas do sexo feminino na carreira. Na qualidade de associação e sindicato que representam mais de 1.600 profissionais, temos a obrigação de promover iniciativas que sublinhem a prioridade do tema e contribuam para promover a participação igualitária de ambos os gêneros na carreira diplomática.

 

* A embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues é presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB Sindical), tendo chefiado a Embaixada do Brasil em Bogotá (Colômbia), a Missão do Brasil junto às Comunidades Europeias, em Bruxelas (Bélgica) e o Consulado-Geral em Paris, França

 
 


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