“De pronto, ouvi: ‘Vou te intubar’. Gelei”, diz sobrevivente da Covid

A experiência de um jovem de 38 anos anos que sobreviveu à Covid-19, após passar uma semana intubado

atualizado 30/04/2021 13:01

profissional de saúde usa balão de ar manual para auxiliar paciente grave com covid-19 na respiração, em hospital de goiâniaVinícius Schmidt/Metrópoles

Há exato um mês eu fui extubado. Em março, fiquei internado no Hospital de Águas Claras, no Distrito Federal, por 14 dias. Desses, 12 em uma unidade de terapia intensiva (UTI). Oito, intubado. Sim, eu sou um sobrevivente da Covid-19.

Aos 38 anos, fiquei em estado gravíssimo, com 90% dos pulmões comprometidos pela doença. Tenho obesidade II diagnosticada, resistência à insulina e pré-hipertensão. Mas sou o que ainda consideram jovem, logo, acreditava-se que, caso contraísse o coronavírus, não seria em sua forma mais agravada. Ledo engano.

Em 14 de março amanheci com febre. Nunca tenho febre. Estava de plantão e trabalhei normalmente. No dia seguinte, que era segunda-feira, fiz uma consulta on-line e o médico me deu um pedido de exame, o PCR. Dia 15, terça-feira, fui ao laboratório e aguardei por uma hora para ser atendido. Dia 16, quarta, me ligaram: resultado positivo para Sars-CoV-2. Pronto, minha ansiedade já deu sinal.

Os cinco dias seguintes foram de muita dor no corpo, sem febre, porém, sem olfato e sem paladar. A saturação estava acima de 90%, que é o recomendado pelos médicos. “Se baixar de 90, você vai para o hospital”, aconselhou uma amiga enfermeira.

No dia 21, minha saturação bateu 89. Me desesperei e fui ao hospital. Lá fui atendido, fiz exames, inclusive a dolorosa gasometria, que exige a retirada de sangue diretamente de uma artéria. Nossa, como dói! Mal eu sabia que seria a primeira das muitas que faria dali em diante.

De volta ao consultório, o médico disse que meu caso era de internação, que meu pulmão estava com comprometimento entre 25% e 50%. “Pelo que vejo aqui nas imagens, está mais perto dos 50 do que dos 25”, disse o médico. Ele sugeriu que eu me internasse imediatamente. Resisti, disse que iria para casa e que, se no dia seguinte minha saturação não melhorasse, eu voltaria. Foi batata. No dia 22, voltei. A saturação desceu para 85. Me desesperei.

Fui internado e fiquei num quarto, sozinho. A ansiedade já gritava. Estava apenas com o cateter. Sem melhora na minha respiração, me passaram para a máscara de oxigênio. Depois, ainda sem melhora, passaram para a VNI, que é uma máscara que cobre o rosto todo, como um astronauta ou um mergulhador. Claustrofóbico que sou, aguentei por uma hora e meia. E a saturação não aumentou.

Fui levado para a UTI no dia 23. A sensação de entrar em uma unidade de terapia intensiva foi terrível. Eu estava num quarto, sozinho, em silêncio e de repente me vejo numa maca, sendo empurrado, entrando em um lugar cheio de médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas andando de um lado para o outro, muitas máquinas apitando barulhos diversos em um ambiente muito, muito claro.

Logo de cara o médico disse que eu teria de ficar mais duas horas com a VNI. “Eu não consigo”, disse eu. De pronto, ouvi: então eu vou te intubar. Gelei. Pedi um pouco de paciência, pois havia acabado de chegar. Depois disso, pouco me lembro. Apenas que conversei com uma médica, doutora Jaqueline, que me instruiu sobre a intubação, disse que era um procedimento importante e que meu pulmão precisava descansar.

Dei os telefones das pessoas que precisavam ser informadas sobre a minha intubação e meu estado de saúde enquanto estivesse sedado, dei alguns telefonemas informando que ficaria off por alguns dias e de nada mais me lembro. Tive pesadelos, sensações negativas… Tudo muito estranho.

No dia 30 de março, eu ouvi: “O Anderson está acordando…”. Era o Luciano, técnico de enfermagem que se tornou um amigo querido. Competente, dedicado, atencioso, extremamente profissional. Abri meu olhos. Estava deitado, ainda intubado. Vez ou outra aparecia uma pessoa, falava alguma coisa e saía. “Fica calmo, não tenta falar nada, que eu vou te extubar”, disse a doutora Jaqueline.

Fiquei – é claro – ansioso, comecei a tossir e a salivar. Fui acalmado pela santa Jaqueline e por Charline, uma enfermeira incrível que, segurando minha mão, dizia que eu precisava ter paciência. Consegui me controlar quando eu mordi o tubo. Apertei a borracha entre meus dentes e isso me acalmou. Foi como se eu tivesse controle da situação – mera ilusão.

“Eu vou te dar um pouco de água e aí você pode falar”, disse a médica intensivista. Lembro de, já sem o tubo na garganta, beber um gole d’água e responder que eu estava bem. Depois, mais um apagão. Me lembro do dia seguinte, sendo monitorado e medicado por enfermeiros e técnicos de enfermagem que são verdadeiros guerreiros nessa luta contra a Covid-19.

Depois foi só alegria. Fiz chamadas de vídeo com a minha mãe e com meu namorado, que, aos prantos, davam graças a Deus pela minha vida. Estavam muito felizes. E eu sem entender nada, porque, na minha cabeça, eu havia dormido uma noite apenas. Foram oito dias de angústia para as pessoas que estavam aqui fora, rezando por mim. E olha, modéstia às favas, tinha muita gente rezando, torcendo, mandando energias positivas. Católicos, evangélicos, espíritas, a galera do Reiki. E é graças a todas essas pessoas que hoje estou aqui, contando esse “causo” para vocês.

Renasci em 30 de março de 2021 e trouxe comigo a missão de viver bem, com gratidão e leveza. Comecei na própria UTI, onde fiquei por mais quatro dias depois que fui extubado. Brincava com as pessoas que me atendiam. Soltava piadinhas, elogiava os médicos. Conversava com outros pacientes, dava apoio emocional. Incentivava a melhora deles. Comemorei a alta de um colega que estava na maca em frente à minha.

“Quem diz que esse menino estava intubado há quatro dias?”, disse a doutora Jaqueline, ao me ver balançando o esqueleto, com dificuldade, pois mal conseguia ficar de pé àquela época. Aliás, que mulher a tal da Jaqueline! Que profissional! O jeito que ela trata os pacientes, que cuida, conversa. Humana.

Eu venci a Covid. Sou um caso de sucesso. Sinto-me muito sortudo, quando duas de cada três pessoas intubadas por causa da Covid-19 morreram no Brasil. Devo isso a toda equipe que cuidou de mim com muito cuidado e atenção desde o momento da minha internação. Técnicos, enfermeiros e médicos muito, muito competentes trabalham arduamente todos os dias para salvar vidas. E sofrem quando não conseguem. Somatizam. E precisam ser cuidados também. E valorizados.

Apesar da minha conquista pessoal, infelizmente, o Brasil já perdeu mais de 400 mil vidas para essa pandemia. São 400 mil famílias que choram a morte de algum ente querido. Eu conheço alguns e aposto que você também. Então, use máscara, só saia de casa se realmente for necessário, banhe-se com álcool em gel e vacine-se, se já estiver na sua vez. Não seja roteador desse vírus. Cuide-se, pois viver é bom demais.

* Anderson Costolli é jornalista e editor de Cidades do portal Metrópoles

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