A final… e o VAR? Árbitros comentam decisão da Copa do Brasil

Implementação do recurso está apenas iniciando no Brasil, e é normal que haja decisões polêmicas envolvendo os árbitros de campo e de vídeo

DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO CONTEUDODANIEL TEIXEIRA/ESTADAO CONTEUDO

atualizado 19/10/2018 10:11

O resultado da final da Copa do Brasil não passou pela arbitragem. O título do Cruzeiro foi merecido. Jogou melhor na partida de ida e, na quarta-feira (17/10), conseguiu segurar o ímpeto de um Corinthians que precisava vencer competindo em casa. Mesmo assim, os lances polêmicos da final envolvendo a arbitragem no campo de jogo e na cabine do VAR ainda repercutem pelo pênalti mal marcado para o Corinthians e também pelo desconhecimento do protocolo do árbitro de vídeo pelo público.

O protocolo, atualmente em sua nona versão, iniciou com a filosofia de que o árbitro de vídeo serviria apenas para corrigir erros claros e incidentes graves não vistos pela arbitragem em campo, principalmente em lances fora do contexto da disputa pela bola. Acontece que os clubes, as seleções, os jogadores e os dirigentes passaram, ao longo do tempo, a pressionar a Federação Internacional de Futebol (FIFA) para permitir também a revisão de lances interpretativos.

Argumentavam que o árbitro deveria ter a oportunidade de avaliar o lance de novo, por outros ângulos, podendo confirmar ou alterar sua decisão de campo. Isso seria importante, na opinião dos defensores da ideia, para dar maior credibilidade ao profissional em decisões polêmicas.

A FIFA encampou a ideia, tanto que afastou das instruções aos árbitros o mentor do protocolo, David Elleray, do IFAB (International Football Association Board), e colocou em seu lugar o italiano Roberto Rosetti, atual presidente da Comissão de Árbitros da UEFA, e o espanhol Carlos Velazco, atual presidente da Comissão de Árbitros da Espanha, que estavam mais alinhados com essa linha da FIFA, de intervenções em lances interpretativos.

A maneira encontrada para se revisar lances interpretativos sem ferir o protocolo, que previa o uso do VAR apenas para erros claros, foi utilizar a possibilidade de revisão para incidentes não vistos. Assim, toda vez que o árbitro não conseguir ver o lance, seja porque aconteceu fora do campo visual dele, seja porque ele não viu um contato dentro da área ou uma mão duvidosa, como aconteceu na final da Copa do Mundo, o VAR deve possibilitar ao árbitro rever o lance no vídeo.

Nem todos concordam com essa linha, principalmente quem defende manter a filosofia inicial do projeto, que pregava “mínima interferência com máximo benefício”. No jogo dessa quarta-feira (17), o árbitro de vídeo cumpriu à risca as orientações atuais da FIFA, inclusive na Copa do Mundo, após várias situações de agarrões dentro da área que os árbitros de campo e de vídeo estavam deixando passar e geravam protestos por parte das torcidas.

No primeiro gol do Cruzeiro, a roubada de bola de Rafinha sobre Leo Santos foi uma disputa normal. Certamente, o árbitro de vídeo checou esse lance e confirmou o gol corretamente. A jogada mais polêmica envolveu o pênalti marcado equivocadamente pelo árbitro em favor do Corinthians, após uma disputa entre Ralf e Thiago Neves dentro da área do Cruzeiro. Aparentemente, o posicionamento do árbitro não lhe permitiu ver a jogada com clareza, muito menos o contato que materializa o incidente.

Se o VAR chamou o árbitro por entender que a não marcação de pênalti foi um erro claro, ele errou. Mas, se o VAR recomendou a revisão exatamente por ter havido um incidente não percebido pelo árbitro, ele seguiu as orientações e garantiu a possibilidade de a arbitragem interpretar o lance baseado nas imagens e não no seu instinto ou suposição

Nessa situação de incidente não visto, o VAR deve recomendar ao árbitro que vá rever o lance, mesmo sendo interpretativo. Seria diferente se o profissional em campo tivesse visto aquele contato e então o interpretado como normal ou se não tivesse realmente acontecido nada na jogada – por exemplo, uma simulação clara de Ralf sem nenhum contato.

Essas situações não precisariam de revisão alguma. Na final da Copa do Brasil, possivelmente, o árbitro de vídeo, ao perceber que o de campo não viu nenhum contato ou ao ser informado por ele disso, chamou-o corretamente para rever a jogada nas imagens e tomar a decisão final, a qual sempre deverá ser do árbitro, conforme prevê as regras do jogo e o protocolo do VAR. O árbitro de vídeo não necessariamente chamou o árbitro por achar que era pênalti, muito menos para que o profissional em campo marcasse pênalti, mas para dar uma segunda oportunidade de ele ver o que não tinha visto.

Somente a divulgação do áudio da comunicação entre a arbitragem, prometida pela CBF, poderia confirmar o que de fato aconteceu. Contudo, se o árbitro de vídeo não tivesse chamado o árbitro de campo, aquele estaria interpretando as jogadas e fazendo o papel deste, o que seria uma quebra da filosofia atual do VAR e uma ameaça à própria função do árbitro.

Quem tem que interpretar um incidente não visto dentro de campo é o árbitro. O VAR deve apenas garantir essa possibilidade a ele, recomendando a revisão. Independentemente do motivo que levou o VAR a sugerir a revisão do lance, o árbitro errou ao marcar a penalidade, mesmo após ver as imagens.

No último lance polêmico do jogo, envolvendo o gol anulado do Corinthians, o protocolo foi cumprido à risca novamente. Pelas imagens, o árbitro viu a jogada e chegou a colocar o apito na boca para marcar a falta de Jadson, que realmente estendeu o braço e acertou Dedé, mas não o fez. O fato de ele ter vacilado não exime o árbitro de vídeo de recomendar a revisão, porque a falta foi clara e o erro de não marcá-la também.

A malícia de Dedé, de ficar no chão e valorizar o contato, foi a mesma malícia de Ralf ao reclamar de pênalti por um contato normal de jogo. Quem esperava que o VAR fosse transformar, como em um passe de mágica, o futebol em um esporte mais justo vai precisar esperar um pouco mais, porque a malícia dos jogadores e dos treinadores, associada à falta dela pelos árbitros, irá ainda gerar situações controversas como as dessa final

O processo de implementação do VAR está apenas iniciando no Brasil, e é normal que haja decisões polêmicas envolvendo os árbitros de campo e de vídeo. Isso também aconteceu na FIFA e na Conmebol.

Na Copa do Mundo, no jogo entre Arábia Saudita e Egito, o árbitro foi olhar o vídeo e não quis mudar sua decisão inicial, mesmo sendo claramente equivocada. Também houve erros claros em que ele deveria ter sido chamado pelo VAR, mas não foi, como nos pênaltis claramente sofridos, mas não marcados, pela Inglaterra, Suécia e Sérvia.

Na Conmebol, aconteceu a mesma coisa no pênalti sofrido pelo Grêmio contra o Lanus na final de ida da Libertadores do ano passado e no pênalti para o mesmo Lanus contra o River Plate na semifinal. Enfim, os erros fazem parte do processo de aprendizagem e somente a prática nos jogos e a prometida transparência no processo levará à efetiva justiça dentro do campo de jogo e na cabine do VAR.


Sandro Meira Ricci é árbitro de futebol e representou o Brasil na Copa da Rússia. Fernanda Colombo é ex-auxiliar de arbitragem. Eles são casados

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