A face invisível da faixa de pedestres: 22 anos de respeito à vida

Se tivesse ficado apenas em engenharia ou em leis novas, o projeto teria sido desfeito. Foi sua característica educacional que o fez sólido

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 01/04/2019 22:34

O Governo do Distrito Federal (GDF) no período de 1995 a 1998 é reconhecido nacional e internacionalmente por diversos programas sociais que se caracterizam por serem soluções simples e criativas.

Entre eles, o mais conhecido é a Bolsa Escola, que se transformou em uma ação internacional depois do reconhecimento e da divulgação pelo Banco Mundial, o que ocorreu após sua expansão nacional pelo governo Fernando Henrique Cardoso e sua ampliação no governo Luiz Inácio Lula da Silva, com o nome de Bolsa Família. A medida foi estendida para toda a população que necessita de renda mínima, embora tenha perdido a característica fundamental de programa educacional.

Ainda hoje são lembrados e replicados o Saúde em Casa, o Agroindústria Familiar, o Poupança Escola, a Escola Candanga e muitos outros projetos nascidos no GDF, no período.

Nenhum deles, contudo, é tão visível e admirado pela população do Distrito Federal quanto a faixa de pedestres. Primeiro, porque todos a vemos e usamos diariamente. Segundo, porque ela nos orgulha como o “gesto de cidadania” (ou “sinal de vida”): o ato de estender a mão para os veículos pararem, garantindo uma travessia segura aos pedestres. Ato esse que só funcionou plenamente e por tanto tempo no DF.

O que não se percebe facilmente é o lado invisível da faixa. Ela é um gesto de educação. Quando o engenheiro Luís Miúra, então diretor-geral do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), e o coronel Renato Azevedo, comandante do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran) à época, trouxeram-me a ideia da faixa, percebi imediatamente que sua implantação não seria resultado de engenharia de trânsito, leis por advogados nem de segurança policial. Seria o resultado de um amplo programa de educação da população.

Eles entenderam isso e foram os artífices da implantação. Se tivesse ficado apenas em engenharia ou em leis novas, governadores seguintes teriam desfeito o projeto. Foi sua característica educacional, construindo uma consciência cidadã, que permitiu à faixa sobreviver a cinco governadores, sem contar os vices que assumiram nesses 22 anos que se passaram desde a sua implantação.

A solidez da faixa vem, portanto, da sua parte invisível. Nisto, ela pode servir de exemplo para o enfrentamento dos outros problemas da sociedade brasileira e brasiliense.

* Cristovam Buarque é ex-governador do Distrito Federal e ex-senador pelo DF. A faixa de pedestres foi efetivada em 1997, durante sua gestão no comando do Executivo local

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