Visitando Camila Soato: semanas de ateliê aberto na CAL

"Quero que a cidade me provoque", afirma a pintora brasiliense

Bernardo Scartezini

atualizado 18/05/2018 19:58

Morando há quatro anos na cidade de São Paulo, onde toca a carreira artística ao mesmo tempo em que cumpre doutorado, a pintora brasiliense Camila Soato está de volta à capital federal neste mês. Desde a semana passada, ela vem frequentando diariamente a Casa da Cultura da América Latina (CAL), braço da Universidade de Brasília em pleno Setor Comercial Sul.

Abrigada em uma das salas do terceiro andar do Edifício Anápolis, Camila trabalha em regime de ateliê aberto. A ideia é os estudantes de artes da UnB, e os interessados em geral, passarem por lá, darem um oi, trocarem ideia e entenderem um pouco do processo criativo da artista. Sim, ela está lá para isso mesmo. E foi o que fez a coluna Plástica: um par de visitas ao longo da semana.

“O ateliê aberto é um espaço experimental”, apresenta-se Camila Soato, na tarde terça-feira. “A minha proposta foi chegar totalmente aberta, sem trazer o arcabouço de imagens que eu já possuo. Porque, de certa maneira, tenho pinturas já formadas. Poderia pintar aqui ou em qualquer outro lugar. Mas não quis trazer esse tipo de produção. Quis que a cidade me provocasse.”

Esse desejo, ela conta, tem a ver com voltar a Brasília depois de quatro anos, vivendo a cidade por mais tempo, desta vez passando uma temporada mais comprida do que tem feito. E também tem muito a ver com o fato de estar frequentando diariamente o centro da cidade. Camila dorme na casa da mãe, em Sobradinho, e vem para o Plano Piloto de ônibus todas as manhãs. Então dá um rolê pelo Setor Comercial e suas cercanias para, de tarde, subir ao ateliê montado na CAL.

“Tenho andado muito pela rua. E também tem isso de sair de Sobradinho todo dia, esse trajeto de busão até a rodoviária, um lugar cheio de provocações. Depois venho a pé ou pego uma bike.”

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Percorrendo a cidade, usando a câmera do celular, Camila Soato registra tudo o que lhe chama a atenção. No Setor Comercial Sul, foi impossível não notar a profusão de faixas comerciais anunciando serviços, especialmente aqueles destinados à estética feminina, como depilação por R$ 5,99. Camila está até disposta a deixar de lado as telas por um momento e buscar outro suporte, pintar diretamente em tecidos desses fajutos usados para faixas.

Entre o Setor Comercial e o Setor Hoteleiro, um muro não muito distante do Hotel Nacional se impôs como o primeiro tema a ser trabalhado nesta temporada. Nesse trecho de paisagem urbana, interessou à Camila a arquitetura brasiliense e também a quantidade, a variedade e a qualidade estética dos lambes afixados no muro.

Primeiro fotografada no celular, essa cena foi então modificada no notebook por meio de colagens feitas em Photoshop. Camila incluiu na composição três personagens tirados da internet: uma freirinha pouco austera, uma moça de cócoras, um garotinho urinando. E pretende também, mais tarde, pintar uma quarta figura: ela própria, de seios nus, como costuma se autorrepresentar em suas telas, vendendo milho assado na calçada.

Cada uma dessas personagens, vale notar, é retirada de seu ambiente natural e inserida em novo contexto, num processo de apropriação seguido pela construção de uma narrativa atualizada – que vem a ser, justamente, uma das marcas da pintura de Camila e o objeto de seu estudo de doutorado em poéticas contemporâneas na Universidade de São Paulo.

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A imagem fotografada foi projetada sobre uma tela esticada para servir de suporte à pintura. “Talvez por estar muito provocada por Brasília, por esta paisagem urbana, já projetei a imagem mesmo ainda sem nenhuma daquelas modificações feitas no computador. Normalmente, eu teria começado a pintar apenas após acrescentar os personagens. Desta vez, foi diferente. Só depois, vou ver se as figuras realmente se encaixam na pintura. Já estão todas na minha cabeça, mas agora é a paisagem que vai me direcionar, ela vai comandar o processo poético.”

O primeiro desenho sobre a tela – impermeabilizada com cola, gesso cré e água – foi feito na segunda-feira, explica Camila. Na tarde de terça-feira, momento de nosso primeiro encontro, alguns trechos da paisagem já estavam firmados: Hotel Nacional e o prédio ao lado. Entre ambos, um céu escorrido, elemento acidental que se apresentou e foi aceito. “Aconteceu e eu deixei assim, eu gostei dessa invasão, desse derretimento.”

Neste momento do processo, a principal dúvida de Camila paira sobre a presença do carro, fotografado ao longo do meio-fio, e ainda apenas delineado na pintura. Ela está dividida. Por um lado, pode simplesmente omitir esse elemento em nome do equilíbrio, porque ele periga pesar em demasia a metade inferior da composição. Por outro lado, esse carro pode ser transformado numa viatura policial, solenemente atingida pela urina do garotinho em cima do muro.

E esse será um sarcasmo mui oportuno para a autora. Porque Camila tem notado a presença um tanto saliente dos homens da lei e da ordem na capital da República. “Isso me causa receio e vejo isso se refletir na vida cultural da cidade, nas festas de rua, nas ocupações do espaço público, algo que sempre aconteceu na cidade. Até mesmo tomar uma cerveja de final de noite na Esplanada já não rola mais, há uma presença ostensiva da polícia. Você fica com medo até de dar um pum no meio da rua.”

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Três dias depois dessa primeira conversa, na tarde de sexta-feira, no nosso segundo encontro, Camila tinha encaminhado bem a questão e para ela parece estar resolvido o tal lance de equilíbrio. “Quando a gente vai pintando, vai percebendo o que encaixa ou fica de fora.”

O céu escorrido, que surgira num acaso e fora acolhido um tanto instintivamente no primeiro momento, está mostrando seu valor composicional, para além do estético. Camila o enxerga como o contraponto, o contrapeso, neste momento ainda a ser trabalhado, em relação às figuras cá embaixo na calçada.

O carro que ela fotografara, de fato, já se encontra a meio caminho de se tornar uma vistosa viatura policial. Em seu capô, estão delineadas as luzes giratórias tão características. Ali sobre o muro, o garotinho despeja seu pipi arteiro em cima da lataria. E mais adiante, na calçada, a autorrepresentação de Camila Soato assume seu posto, cervejinha na mão e peitos de fora, vendendo milho verde.

Os lambes, que tinham chamado a atenção de Camila logo à primeira vista, e a tinham levado a tomar mais apreço pelos muros da cidade, agora são por ela diligentemente reproduzidos, sem interferências. A artista vai mantendo com fidelidade o trabalho feito anteriormente por outros.

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Enquanto Camila Soato segue quieta no terceiro andar, terminando sua pintura ao som de Maria Bethania (“olhos nos olhos, quero ver o que você faz”), um tantinho dela escapa para fora do Edifício Anápolis.

Sua presença se faz sentir até mesmo por quem passa pela calçada diante da CAL. O transeunte mais atento ao mundo ao redor pode ver, através da ampla vitrine do prédio, três obras de Camila inaugurando o projeto Grande Vidro, bolado pela curadora Ana Avelar para marcar os 30 anos de funcionamento da Casa, a serem comemorados neste 2018.

As três telas aqui apresentadas, nesta mini-mostra batizada de Virilha Suada, foram primeiramente vistas na Alfinete Galeria, em julho de 2017, na exposição Desculpa a Virilha Suada. Entre os trabalhos, destaca-se Eterno Retorno, em que Camila rearranja elementos caros à sua vivência brasiliense: o Bar do Mendes, os azulejos de Athos Bulcão, um aceno a Planaltina de Goiás, cidade de sua família.

Na próxima quarta-feira (23/5), às 16h, Camila Soato será o centro de uma roda de conversa na CAL. Ela vai falar sobre Virilha Suada e, claro, sua experiência diária no Setor Comercial Sul.

Bernardo Scartezini

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