Uma porca e um quilo de presunto para Raquel Nava

A artista vem frequentando o Hospital Veterinário da Universidade de Brasília há cinco anos

atualizado 24/08/2018 18:21

Bernardo Scartezini/ Especial para o Metrópoles

Raquel Nava vem frequentando o Hospital Veterinário da Universidade de Brasília há cinco anos. A aventura começou quando a artista estava atrás de um singelo crânio de coelho. Percorreu em vão restaurantes da cidade, tentando encontrar carcaças dispensadas pelos cozinheiros. Até que o amigo desenhista Eduardo Belga lhe deu esse toque.

No Hospital Veterinário, de fato, Raquel encontraria crânios de coelho – e também de coruja, papagaio, gato e de outros animais de pequeno e médio porte. Belga já frequentava o prédio da L4 Norte, nas franjas do Campus Universitário Darcy Ribeiro, para aprimorar seus desenhos de anatomia. Raquel passou a seguir uma pesquisa poética que a lançaria no caminho da taxidermia.

César Leão, um dos técnicos que trabalham no Museu de Anatomia do Hospital Veterinário, recebeu muito bem Raquel Nava. Além de ter emprestado aquele crânio de coelho pelo qual ela tanto ansiava para arrematar uma composição fotográfica, César vem sendo um importante parceiro. Deu aulas de taxidermia para ela. E alguns de seus bichinhos já passearam pelas galerias da cidade e de outras capitais, chegando também ao Museu Nacional Honestino Guimarães, protagonizando diversas instalações de Raquel.

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Uma porca de César Leão, mui robusta e viçosa, é neste momento a personagem central de Apresuntados, a exposição que Raquel Nava abre neste sábado (25 de agosto) numa das salas da antiga Alfinete Galeria na comercial da 116 Norte.

Em curta temporada, até cinco de setembro, a exibição funciona como contrapartida de Raquel & César para o projeto que a artista viu aprovado no Fundo de Apoio à Cultura, do Governo do Distrito Federal, na intenção de realizar uma residência artística no Hospital Veterinário. Assim, os dois amigos acabaram oficializando nestes últimos quatro meses uma parceria que já vinha rolando entre laboratórios, ateliês e galerias.

Neste seu novo habitat, a porquinha de César Leão faz par com uma gorda peça de presunto, entronizada por Raquel Nava sobre um pedestal, como convém a uma escultura clássica. Mas o presunto de Raquel, em verdade, foi feito em silicone dentro de uma forma de gesso a partir do exato formato de uma peça comprada em supermercado. Sua cor rosada vem do material químico – assim como a do presunto original vem dos corantes que a indústria alimentícia injeta na carne.

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O presunto original, conta Raquel, está mantido em formol e neste momento se encontra lá no Hospital Universitário. Já era para estar bastante acizentado, afinal se trata de um quilo de carne morta. Mas César e ela se surpreendem diariamente com o fato de que, um mês após ter servido como molde para a escultura, o presunto segue levemente rosado. Talvez isso sirva para se ter ideia do quanto havia de corantes e conservantes ali dentro.

Raquel pensou em também incluí-lo na exposição. Desistiu por questões práticas envolvendo a salubridade. “No ambiente fechado desta sala, o cheiro de formol seria um tanto tóxico para os visitantes”, ela ri, acostumada que está com uma das menos aprazíveis características do Hospital Universitário.

Desta feita, ela prefere receber as pessoas (e as turmas de estudantes com hora marcada sob agendamento) com um aroma de outra ordem – bem mais gentil, embora ainda mais artificial. Um perfume sabor tutti frutti, igual chiclete de bola, cheirinho que emana de sua apresuntada escultura de silicone.

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Raquel Nava, graças ao apoio financeiro recebido do FAC, pôde levar outros artistas para se somarem ao seu diálogo com César Leão. Márcio H. Mota ficou responsável pelos vídeos sobre o projeto (que já podem ser acessados em www.animalia.art.br) e Diego Bresani carregou para o Hospital Veterinário todo seu arsenal de fotografia e iluminação.

Nesse encontro com Bresani, a ideia de Raquel foi se valer da experiência do amigo para trabalhar numa série de imagens que desenvolvessem o que ela já vinha fazendo na série A Natureza Ama Esconder-se (2014-2017). Numa linguagem visual que corteja a estética publicitária, embaralha elementos orgânicos e inorgânicos numa mesma composição. Nesta mostra, quatro fotografias da série Poeira dão conta desse estudo.

Bresani e Raquel também foram até a casa da artista Cila MacDowell, na 708 Sul, onde funciona a Galeria Iboc. Na cozinha e na área de serviço, ergueram uma cenografia em que uma capivara, um pato e outros bichos taxidermizados convivem com peças de apresuntados e fatias de bacon. Instalações absurdas registradas em fotografias que valorizam a paleta rica em tons de azul e rosa, uma tendência cromática que a artista e pesquisadora Yana Tamayo havia detectado na obra de Raquel, seja em objeto, desenho ou pintura – e que agora conscientemente Raquel quis intensificar.

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Na semana anterior à abertura de Apresuntados, enquanto montava a exposição e decidia quais obras mostrar e quais deixar de fora, Raquel Nava ainda sentia que estava faltando alguma coisa. Na quinta-feira, ela fez dois dos três desenhos que agora amarram e encerram a exibição, ocupando a menor das paredes da sala.

“Estava sentindo falta disso”, diz Raquel, pregando na parede a última folha de papel canson. “A instalação da porca ficou mais limpa do que eu tinha previsto e, diante de toda essa nitidez da imagem fotográfica, senti que faltava dar uma quebrada, deixar algo mais processual e menos acabado, faltava deixar a minha mão.”

O trabalho em desenho, afinal, vem acompanhando em paralelo toda essa pesquisa poética de Raquel. Funciona, para ela, como um contraponto. Se, na fotografia, a luz precisa ficar uniforme, as rimas cromáticas são todas equilibradas e a composição visual resulta em harmonia, o desenho se torna o momento em que – ainda mantendo o rosa e o azul ali ao fundo da imagem – Raquel Nava pode soltar sua mão.

Bernardo Scartezini/ Especial para o Metrópoles

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