De partida, Dalton Camargos conta a história da Alfinete Galeria

O entusiasta da arte e de artistas brasilienses vai passar um ano em Londres e deixará o espaço fechado

atualizado 17/08/2018 19:46

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Ao fim deste sábado (17/08), Dalton Camargos vai baixar as portas da Alfinete Galeria. Pelas próximas semanas, ele terá que se ocupar entre pendências burocráticas mil. Tem viagem marcada para o Reino Unido, em setembro, com a esposa e os dois filhos pequenos. A família vai passar um ano em Londres.

Um ano em que a Alfinete Galeria, ali na comercial da 103 Norte, permanecerá de portas cerradas. Esperando seu proprietário voltar com a chave de casa. Dalton, afinal, sempre foi mais do que o proverbial dono da bola – na real, o camarada fazia praticamente de tudo ali dentro, desde definir a disputada pauta de exposições ao longo do ano, até se equilibrar no alto da escada para acertar a luz.

Valendo-se de sua larga experiência como iluminador e fotógrafo para teatro e dança, um currículo com gente do naipe de Irmãos Guimarães, Hugo Rodas e Giselle Rodrigues a chancelá-lo, Dalton paulatinamente migrou das artes cênicas para as visuais. Trabalhou também em exposições em Brasília e outras capitais.

Quando se cansou da vida na estrada, montou a Alfinete Galeria. Logo se tornou um dos centros gravitacionais da arte contemporânea brasiliense. Dalton Camargos hoje também representa artistas como Camila Soato, Elder Rocha, Karina Dias, Milton Marques e Raquel Nava. Lá de Londres, vai continuar tocando seus interesses pela internet.

Misturando tempos verbais no presente e no passado ao falar de sua galeria, Dalton sentou-se à mesa do Beirute da 109 Sul para um par de cervejas e uma conversa sobre a Alfinete e o cenário das artes de Brasília.

Para ilustrar nossa conversa, Dalton Camargos escolheu algumas das fotografias que ele fez ao longo desses cinco anos de atividades da Alfinete Galeria. Primeiro, na descolada salinha da comercial da 115 Norte, voltada para o Savana Café, que de tão pequena deu nome e emprestou o conceito à toda empreitada. Nos últimos três anos, no atual endereço, um pouquinho maior, na comercial da 103 Norte.

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Dalton, quando você abriu a Alfinete, há cinco anos, ela era uma galeria um tanto singular na paisagem brasiliense. Você trazia algum modelo na cabeça ao criá-la?

Pois é. Um lugar tão pequeno, eu tinha até dúvida em chamar de galeria de arte por ser assim tão pequeno. Esse nome de galeria está associado a algo grande, elitizado, e essa é uma questão para mim. Mas eu já tinha dado vários rolês, principalmente por conta dos trabalhos de dança, em muitos lugares do exterior e me deparava com situações incríveis, projetos alternativos, com consistência, funcionando fora do lance mais comercial. Não sou um turista que vai aos hot spots de turismo. Vou sempre atrás da cena cultural e isso sempre me coloca em lugares bem maluquinhos, bem fora do padrão do que antes eu achava que seria necessário para as coisas funcionarem. Tipo encontrar uma galeria minúscula em Barcelona e três, quatro anos depois, voltando lá, continuava do mesmo jeito, funcionando dentro da mesma proposta.

Então, quando eu quis parar dessa vida de viagens seguidas e quis ficar mais aqui na cidade, com mais tempo para mim e para cuidar do meu filho, fui buscar algo para fazer e que se encaixasse nisso. Algo que me mantivesse próximo da vida cultural. Eu tinha uma reserva de grana, mas não tinha muito claro o que seria. Se seria uma livraria ou o quê. A ideia de galeria foi se apresentando como a mais natural. Até por ser mais fácil montar uma galeria do que montar um teatro. Então comecei a pensar sobre isso. Encarar as inseguranças.

Comprei uma sala pequena, a que eu podia comprar. E eu reunia umas qualidades que faziam não ficar tudo muito caro: eu mesmo vou cuidar do lugar, eu mesmo vou pintar as paredes, montar as obras, iluminar, registrar em fotografias. Ou seja, de minha experiência com teatro e dança, já trazia tudo isso e estava economizando uma equipe. Não ia queimar as minhas finanças.

E você chamou um antigo conhecido seu, o artista Oziel, para abrir os trabalhos.

O Oziel foi o cara que aceitou correr esse risco comigo. Ele é um artista com quem me relaciono, um artista em quem acredito. Mas montar aquela exposição, para mim, a primeira, foi meio intuitivo. E quando a galeria de fato acontece ali as pessoas aparecem para ver, deu um frio na barriga.

Então eu tenho que dizer do que se trata essa galeria que inventei. No começo, no primeiro ano, era um processo mais aleatório de escolhas até que fui entendendo o perfil que me interessava. Obviamente seria algo de arte contemporânea. E dando bastante espaço a isso que chamam de low tech, os artistas que trabalham com arte e tecnologia. Já passaram pela Alfinete artistas como Milton Marques, que considero o grande expoente da arte e tecnologia em Brasília, e Bia Medeiros, a professora de boa tarde dessa galera, além de Márcio H. Mota, Jackson Marinho, Fernando Aquino, Alan de Lana, Miguel Ferreira, Luiz Olivieri. Artistas de vídeo como a Karina Dias. Quem abriga e quem recebe constantemente esses trabalhos é a Alfinete.

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Teve um momento específico em que você percebeu que não precisava ficar na arte e tecnologia, poderia expandir os interesses?

O que me ocorreu é que há uma produção interessante em Brasília, atual e das antigas, que merece espaço. E nesse período que a Alfinete tem existido, especificamente, os espaços do GDF estão fechados em sua maioria. Sacando isso, eu achei que tinha que dar chances para quem estava a fim de correr riscos. Artistas que muitas vezes não tinham aceitação por não vender, por não ter um rolê dentro do mercado. Então quando você vai ter um trabalho da Capi (Andrea Campos de Sá) e do Walter Menon. Ou trabalhos da Ananda Giuliani e da Ludmilla Alves, que também são instalativos e você pouco pode pensar que sejam para ser levados para uma casa e expostos dentro de uma sala. Receber na galeria esse tipo de obra  tem a ver com a ideia de abrir espaço para pesquisas atuais que estão sendo desenvolvidas. Assim como pesquisas já admitidas e legitimadas, como a de Elder Rocha, que é um trabalho sofisticado, ousado de uma pessoa que não está pensando em mercado. Se ele estivesse pensando em mercado, já estaria rico.

Mas, como galerista, você também precisa ficar atento ao lado dos negócios, não? Alternar exposições de menor e maior apelo comercial?

Não há uma conta para isso. Até porque quando você coloca uma coisa que parece ser vendável, pode dar tudo errado. E tem exposição que parece impossível de vender, por exemplo, o Miguel Ferreira, que faz aquelas máquinas muito malucas, fora dos suportes tradicionais, e de repente, ele tem a exposição inteira vendida. Eu aprendi que não dá para fazer previsão: vou trazer o artista tal e vai bombar.

Como aprendi isso? Ah, agora vai vir aí um artista com pinturas no formato X, os preços são legais, não tem como dar errado – e não dava certo, não era uma garantia. O que acontece é que tem várias questões quem movem uma exposição.  A principal é que temos artistas parceiros, que eu apoio, divulgo e tento fazer circular os trabalhos deles. Esses têm espaço garantido para expor. Se eles estão com a pesquisa pronta, se têm trabalho pronto, eu defino a data da exposição. E nessa escolha feita de artistas parceiros, dá para ver que não tem lugar para os convencionais.

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E como surgiu essa ideia de, além de galerista, se tornar representante de artistas?

Isso não estava na minha mente quando montei a galeria. Surgiu ao ver os tipos de galerias que existem. Tem as comerciais, tem as que representam artistas exclusivamente, tem as que representam regionalmente e tem aquelas com pegada de centro cultural, sem a intenção de montar um acervo. Fui vendo com elas funcionavam, de maneira geral, e fui sacando que me interessava um híbrido entre representar artista e ser um centro cultural. E ainda quero chegar no momento de ser uma livraria também.

Isso aconteceu tão naturalmente, que para poucos desses artistas eu precisei dizer formalmente que tínhamos uma relação de representante e representado. Foi acontecendo, foi uma construção. Eu como representante deles faço os meus esforços: recebo seus trabalhos, tento conectar esses trabalhos ao mercado consumidor e tento também fazer que circulem em outras instâncias, que não somente o espaço da galeria. Isso tem a ver com parcerias com a Hill House, com a Casa da Cultura da América Latina e a Casa Niemeyer, com exposições no Dulcina…

Conta então como entrou o projeto Fuga nessa dinâmica.

O Fuga é uma espécie de antídoto para o rolê da galeria. Ele é uma parceria com a artista Luciana Paiva e com o ateliê de Valéria Pena-Costa. Uma liberdade para aquilo que, na própria Alfinete, já começava a ficar engessado, começava a complicar. A gente ali propunha que os artistas fizessem trabalhos sem nenhum comprometimento que aquilo deveria ser vendido, ou deveria durar. Que eles que fizessem o que quisessem, como aliás, funciona na Alfinete também.

Foi um espaço muito importante por trazer outras pessoas para pensar as exposições. Eu tinha trabalhado em duas coletivas com o Gregório Soares e, no Fuga, convido a Luciana Paiva para fazer a organização comigo, pensar quais os artistas lá vão estar. Depois fazemos isso no Breve também.

Eu estou sempre sozinho pensando a Alfinete. Então, para esses projetos, quis trazer outras pessoas, propor uma troca, abrir uma conversa, oxigenando o que eu estou tentando levar, pensando junto. E isso tira a Alfinete do rolê normal de galeria expõe artista e vende, galeria expõe artista, monta acervo e vende. Também me interessa propor situações.

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Você comentou que tanto no Fuga quanto na Alfinete, o artista tem a liberdade de propor o trabalho que quiser…

No decorrer da coisa, com a experiência das exposições que ali eram colocadas, e nisso a gente pode falar do primeiro ano inteiro, fui entendendo como funcionaria a Alfinete. No primeiro ano, rapidamente recebi muitos contatos de artistas que eu já conhecia e que tinham trabalhos que eu não necessariamente estava olhando de perto. Eles foram convidados por proximidade de outras conversas.

Depois desse primeiro momento, comecei a pensar no perfil da galeria e foi chegando para mim a noção de que era importante de conhecer o trabalho dos artistas, acompanhar visitando ou mesmo de longe, descobrindo afinidades e entendendo quais entre eles estavam produzindo uma história.

Quando você convida um artista e não sabe exatamente qual será o trabalho, você convida pelo percurso que ele já vem trilhando, o que ele vem fazendo desde a universidade, as primeiras coletivas, você enxerga a possibilidade de um trabalho que se conclua ou que se estabeleça numa exposição individual. O que está dizendo que esse artista tem espaço para expor não é escolher este ou aquele trabalho, mas o percurso que ele vem sedimentando.

Pode ser frustrante, às vezes, não?

Claro que alguns trabalhos deram errado, na minha opinião, mas isso tem a ver com o risco: escolher trabalhos e apostar em artistas sempre vai ter riscos de ser bom ou não ser bom, de rolar ou não rolar. Sem a possibilidade de risco, não há a possibilidade de salto. E muitas vezes artistas que têm histórias incríveis podem errar em determinado momento – e a galeria está lá para apoiar. O que é uma galeria parceira? É a galeria que não vai apenas no certo. É a que acompanha todo o percurso.

Mais do que o dono da galeria, você foi durante esses cinco anos o cara que estava ali quase todos os dias. O sujeito que levantava a porta no início do expediente e a baixava no final. Recebia as pessoas. Conversava com elas sobre a exposição que estava em cartaz. Como foi essa experiência?

Eu aprendi tudo, né? A minha escola das artes visuais foi essa. Normalmente, a galeria funciona aberta ao público durante um mês, com a exposição em cartaz, e aí fecha uma semana para desmontagem e montagem e aí inaugura novamente. O processo é esse. E essa semana entre as exposições é uma verdadeira escola. É a escola da montagem, da convivência com os artistas, dentro da galeria, quando os trabalhos chegam, quando a gente finalmente os vê e quando a gente convive com eles cara a cara. Quando a gente ouve os artistas falando da própria obra. Algumas pessoas de Brasília aproveitaram esse período e passaram por lá, participaram da montagem de outros artistas e participaram das conversas.

Esses períodos sempre foram muito ricos. Aquela mesa do lado de fora, onde tomamos muitas cervejas, foi também a mesa de muitas conversas sobre os caminhos da arte, as possibilidades da arte, com pessoas absolutamente incríveis como o Elder se dispondo a falar o que pensa sobre as coisas, Manoel Veiga, Gisele Camargo, Camila Soato, todo mundo usando esse espaço para trocar ideia.

Além disso, tem o período em que a galeria está aberta e o público está convidado a vir e interagir. Em alguns momentos, tem também encontros e conversas, mas bem menos, por incrível que pareça. A galeria sempre teve essa sorte de ser um lugar de encontro, de grupos sempre estarem passando por ali, como se fosse um café, um bar. Esses momentos podem ser muito divertidos, muito zoados, mas sempre foram muito ricos. Para mim é meio bar, meio escola, meio galeria.

Uma pena que, no mundo de hoje, as pessoas talvez prefiram estar olhando todas essas coisas pelo Instagram a que ir lá e conversar. Tem dia que não vai ninguém. O que é um desperdício, né? Porque tem tantos trabalhos incríveis e você pode entrar e ver. Mas é isso, essa é a nossa situação, esse é o tempo em que a gente vive, esse é o nosso país.

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Ao longo dos últimos cinco anos, iniciativas independentes têm pipocado no Distrito Federal. Alguns programas tentam dar conta dessa movimentação, como a mostra Ondeandaonda, o projeto BSB Planos das Artes e, noutra chave, o prêmio Transborda Brasília. Você sente esse crescimento também?

Sem dúvida. Imediatamente depois que a Alfinete começa, vem a Elefante, pouco depois deCurators. Hoje em dia pipocam espaços como A Pilastra, no Guará, o Mercado Sul, de Taguatinga, a Casa Frida, de São Sebastião, a galera do Urbano Observatório… Tem muita gente fazendo coisa. É possível perceber vários espaços que apareceram, uns sumiram, uns continuam, uns vão dar um tempo de um ano e voltam.

Eu acho que teve um pensamento geral, um entendimento de que a coisa estava tão ruim, que por outro lado transbordou. Aí vem esses trampos mais institucionais, esses projetos que têm grana pública através do FAC. Tudo isso é bem vindo, não sei a real dimensão do quanto isso contribui, mas espero que as pessoas administrem isso muito bem do ponto de vista ético, do ponto de vista da utilização da grana pública e do ponto de vista da utilização disso como uma coisa maior e não uma coisa privada, individual.

A Alfinete chegou a promover alguns encontros para tentar estimular o colecionismo. Esse ainda é o principal entrave de nosso sistema das artes?

O mercado das artes não está estabelecido. Está ainda muito voltado à ideia do uso decorativo dos trabalhos, muito voltado ao mercado da arquitetura, ou seja, de você consumir esses trabalhos para botar na sua casa até determinado uso, até determinado momento e chega. A gente tem alguns colecionadores em Brasília, importantes até para o Brasil, mas não temos um mercado formado, de colecionadores, que gire todo mês, o ano inteiro e que garanta a produção dos artistas como talvez no Rio, em São Paulo ou até em Belo Horizonte.

Boa parte de Brasília tem um bom poder aquisitivo, mas não está se relacionando com os artistas daqui. Nos cinco anos de Alfinete, isso ainda caminha a passos de tartaruga. É sempre um intervalo grande para aparecer um novo colecionador. As pessoas vem, compram uma coisa, somem. É um consumo aleatório. Acho que colecionar está para além de comprar para organizar um espaço. Você vira parceiro daquela situação, daquela pesquisa, daquele artista, daquela galeria. E isso não é uma viagem da minha cabeça, porque determinadas pessoas viraram parceiros da Alfinete, e não foi algo organizado oficialmente. Assim como aconteceu com os artistas, aconteceu com os colecionadores, foi natural.

Tudo é uma coisa só. O mercado e os artistas, um não pode viver sem o outro, entende? E também não existe um mercado de arte sem colecionadores, sem galerias. É um sistema que faz com que a máquina gire. E nesse sistema nosso, faltam peças. Ainda é algo a ser construído.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Dalton Camargos no Beirute da 109 Sul

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