Um passeio entre os anjinhos endiabrados de Antônio Carlos Elias

Para o artista, que também leciona odontologia, arte e ciência caminham lado a lado

atualizado 03/08/2018 18:45

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Nas aulas de anatomia dentária da Faculdade de Odontologia de Anápolis, Antônio Carlos Elias tinha que desenhar arcadas inteiras. Também era esperado que ele esculpisse moldes em gesso – e assim logo aprendeu que não existem dois dentes iguais no mundo.

Esse trabalho milimétrico se tornaria o centro da atividade profissional de Elias. Estaria tanto no dia a dia de seu trabalho clínico quanto no currículo da disciplina que hoje, décadas mais tarde, ele leciona dentro do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília: Prótese Total Removível. E mais…

Com aqueles desenhos para as aulas de anatomia, lentamente Elias percebeu que a pintura não precisava permanecer algo assim tão distante, que ele conhecia através das reproduções de Van Gogh e de eventuais visitas a museus. Com aqueles moldes de gesso que banhava em soluções supersaturadas para testar as resistências de diferentes materiais, Elias hoje entende que ali já estava a esculpir pequenas obras – pouco maiores que um dente.

De modo que, para Antônio Carlos Elias, ciência e arte não apenas são irmãs. Elas caminham juntas ao longo de sua biografia. Alimentam o interesse permanente do dentista/professor/artista. E podem servir como uma chave para o prezado visitante se aventurar por Urômelos, Coelhinhos e Quimeras, em cartaz no Museu dos Correios.

Após ter circulado pelo circuito brasiliense das artes plásticas entre as décadas de 1990 e 2000, Elias ficou um bom tempo afastado. Agora está de volta com essa exposição.

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Para comentar sobre sua produção recente, Antônio Carlos Elias nos recebeu na tarde da última terça-feira em seu ateliê na 711 Norte. Discretamente localizado entre oficinas mecânicas e lojas de ferragens, o imóvel de dois pisos pouco lembra os ateliês de seus colegas artistas.

Elias parece manter a casa em constante apuro – tudo limpo, branco, tudo em seu lugar. Suas obras estão iluminadas para seu olhar e ao alcance de seu tato. Para além de servir como espaço de conservação dessas peças, o vasto ateliê funciona também – claro – como um local de labor, em que esses trabalhos já prontos aqui permanecem diante de seu autor, como a retroalimentá-lo, engatilhando as futuras criações num processo circular.

Os visitantes por aqui não são muito frequentes. Ao menos uma dessas visitas, porém, o anfitrião guarda na lembrança como sendo particularmente venturosa. Renata Azambuja, pesquisadora e crítica de arte, veio no ano passado tomar conhecimento dos trabalhos mais recentes de Elias. Os dois já haviam colaborado, como curadora e artista, no início da década passada, mas não se viam fazia muito tempo.

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Antônio Carlos Elias, àquela altura, já tinha conseguido a aprovação no Fundo de Apoio à Cultura, do Governo do Distrito Federal, para realizar uma mostra. Procurava então uma curadora. O produtor Gladstone Menezes fez o meio de campo para esse reencontro com Renata.

A mostra entra em seus últimos dias no Museu dos Correios e foi configurada, por Renata Azambuja, para que pinturas e esculturas – as vertentes do atual interesse de Elias – pudessem se desdobrar diante do espectador como duas etapas de um mesmo pensamento, de um mesmo processo.

Surgiu então a proposta de dividir a exposição naquilo que Renata Azambuja chamou de “nichos instalativos”. Como a sala do Museu dos Correios é toda recortada, com falsas paredes ao centro do ambiente funcionando como divisórias, cada um desses recortes abrigou uma pequena instalação com vida própria – e uma espécie de narrativa própria.

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Na parede ao fundo, a pintura. E dali, como que escapando para fora da tela, as figuras em gesso. Como se fossem uma instalação. Unindo-se assim, conceitualmente ao menos, peças que nem sempre foram criadas no mesmo fluxo, nem sempre foram pensadas no mesmo momento.

Muitas vezes, no entanto, as figuras repetem o que está na imagem original. E essas rimas, essas derivações, conta Elias, não são acidentais. São propositais. Sempre que isso acontece, pode-se ter como fato que ele partiu da pintura e depois ampliou em gesso aquelas figuras.

“A vida é um teatro. Tenho para mim que estamos o tempo todo encenando”, diz Antônio Carlos Elias. “Enxergo esses nichos da exposição como se fossem cenários de teatro. A pintura, no fundo, como se fosse uma fantasia. E as esculturas como uma realidade. Mas uma realidade fantástica.”

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Só não peça para Elias explicar o que se passa nessas histórias fantásticas. Ele as constrói para si mesmo – como parte de seu processo criativo – e não tem interesse algum em passar adiante nada além das imagens. Abre mão até mesmo de dar títulos a suas obras.

“A arte virou parque de diversões, sabe? Odeio isso. Hoje em dia é tudo muito fácil. Está tudo dado. Tudo é interativo. Entretenimento. Eu não quero nada disso. Quero que as pessoas pensem um pouco.”

E como ele, Elias, pensa? Como chega a composições em que, desprezado o rigor da anatomia clínica, busca formas impossíveis, seres fantásticos? Como definir essas figuras que fizeram com que Renata Azambuja recorresse ao bestiário medieval para dar conta em sua leitura curatorial?

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Elias sorri. “Sofro muita influência do meio, das mídias, jornais, revistas, peças de teatro, filmes de cinema. Quando vejo uma foto interessante, eu recorto, vou juntando. Tem obra que pode durar um ano, que eu vou acrescentando elementos ao longo desse tempo.” Quando uma colega chinesa do curso de espanhol surgiu nas aulas com chapeuzinho de orelhas de coelho, bem, ela não poderia prever o que a imaginação de Elias aprontaria…

E, claro, boa parte desse mundo fantástico vem ainda das antigas aulinhas de anatomia. Vem dos estudos de odontologia, dos livros de medicina. É tranquilo de reconhecer nas formas de Elias, seja em pintura ou escultura, elementos orgânicos – em particular, dentários, como raízes de dentes que proliferam, ora como rizomas, ora como medusas.

O próprio material que ele usa vem de seus estudos em odontologia. O gesso branco, tão prosaico, é aquele mesmo gesso que ele banhava em soluções supersaturadas, que estudou detidamente em seu mestrado em prótese dental na Ohio State University, na cidade de Columbus, Estados Unidos. Aqui para ganhar volume, o gesso parece muitas vezes revestindo estruturas de metal ou isopor. E é sempre deixado rugoso, sem acabamento, ainda com a marca dos dedos do artista.

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No escritório de Antônio Carlos Elias, na verdade um puxadinho em estrutura metálica nos fundos de seu ateliê, ele guarda uma coleção de livros de arte. Alguns de seus favoritos estão ali. Como Francis Bacon, criador de figurinhas assaz atormentadas. Ou Donald Judd, inspiração decisiva na época em que Elias erguia estruturas metálicas em espaços como a 508 Sul e o Museu de Arte de Brasília.

Elias não fala muito sobre os anos em que se manteve afastado do cenário da arte. Conta apenas que não se sentia à vontade. Como se tivesse de escolher – ou era artista ou era dentista. De tal maneira que preferiu, aos poucos, ir se recolhendo. Até que, nesses últimos anos, mais tranquilo com suas atividades acadêmicas, cada vez mais próximo de se aposentar como professor da UnB, tem retomado o trabalho como artista.

“Eu não sou intelectual. Não sei me enquadrar muito em definições de arte. Quando estávamos montando a exposição, eu perguntava para a Renata: Você acha que sou naïf? Ela ria. Eu insistia: sou naïf? Porque eu faço figurinhas tão singelas. Ela ria mais ainda. Eu os chamava de anjinhos. Nas para ela não são tão anjinhos assim. São um tanto endiabrados.”

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Detalhe de instalação de Antônio Carlos Elias

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