“Puxadinho” do Copom pode abalar credibilidade do BC, dizem analistas
Termo técnico usado pelo Banco Central em comunicado sobre corte da taxa básica de juros, a Selic, causou celeuma entre economistas

Uma mudança no comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), na quarta-feira (17/6), está causando celeuma entre agentes econômicos.
O documento é emitido ao final de toda reunião do Copom. Ele contém uma análise do cenário econômico externo e interno. Na prática, o texto expõe os argumentos que levam o órgão do BC a definir o novo patamar da taxa básica de juros do país, a Selic.
Nesta quarta-feira, depois do corte de 0,25 ponto percentual da Selic, agora fixada em 14,25% ao ano, o Copom citou uma variação do “horizonte relevante” (grosso modo, ele indica o período futuro em que o BC mira a convergência da inflação para a meta, ou seja, quando a política monetária — a taxa de juros — terá maior efeito na economia).
No comunicado, o órgão do BC mencionou que, considerado o horizonte atual, que corresponde ao quarto trimestre de 2027, a inflação estaria fora da meta. Em contrapartida, tendo como alvo o primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante para a próxima reunião do órgão, em agosto, a inflação voltaria para a meta (cujo centro é de 3% ao ano).
Credibilidade
Para parte dos especialistas, porém, a menção ao próximo horizonte relevante soou como um “puxadinho” do Copom, usado para justificar o atual corte da Selic, o que poderia arranhar a imagem do órgão.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, por exemplo, por mais que a estratégia utilizada de rolar o horizonte relevante por um trimestre à frente justifique um corte da Selic na reunião de quarta-feira, ela fere a credibilidade da diretoria do BC e aumenta as chances de uma parada forçada na redução dos juros na próxima reunião.
“O comitê optou por ‘rolar’ o horizonte relevante como forma de obter um cenário em que o corte da Selic seja consistente com uma inflação na meta”, diz Lin. “Esse fato sinaliza que o BC está mais disposto a correr maiores riscos em termos de inflação vis-à-vis a atividade econômica, mesmo em um ambiente que está sendo marcado por uma economia ainda resiliente.”
Ônus da comunicação
Na avaliação do economista André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a mudança do horizonte não compromete automaticamente a credibilidade do Banco Central, mas aumenta o ônus de comunicação.
“O problema não é o BC olhar um horizonte mais longo”, diz. “Política monetária atua com defasagem e, em momentos de choque de oferta, câmbio, petróleo ou clima, faz sentido evitar uma reação excessivamente dura que derrube demais a atividade. O ponto sensível é mudar a referência do horizonte relevante justamente quando a inflação projetada no horizonte anterior ainda está acima da meta.”
Braz observa que, no comunicado, o Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano, mas reconheceu uma piora do cenário: a projeção de IPCA para 2026 subiu para 5,2%, e a estimativa para o quarto trimestre de 2027 (o atual horizonte relevante) ficou em 3,7%, acima da meta de 3%.
“Não é uma perda de credibilidade por si só, mas pode ser percebida como flexibilização da reação do BC se não vier acompanhada de uma explicação muito clara”, acrescenta o economista. “A credibilidade depende de o mercado entender que a mudança é técnica, ligada à defasagem da política monetária e à natureza dos choques, e não uma forma de acomodar inflação mais alta. O BC precisará mostrar, na ata (que será divulgada na próxima semana) e nas próximas falas, que continua comprometido com a meta e a extensão do horizonte não significa tolerância permanente com inflação acima de 3%.”
Amparo técnico
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o Copom estava diante de uma “aritmética desfavorável” na reunião desta quarta-feira. “Para entregar a inflação na meta no horizonte vigente, o quarto trimestre de 2027, seria necessário um choque de juros significativo”, diz. “O problema: esse aperto forçaria a inflação abaixo da meta no trimestre seguinte, obrigando o BC a reverter rapidamente a política monetária.”
Kayo observa que, “a saída foi adiar o horizonte relevante em um trimestre, para março de 2028, onde é possível entregar a convergência com uma trajetória menos agressiva e compatível com a suavização da atividade”.
“A decisão tem amparo técnico no regime de metas, mas traz um risco de credibilidade: num momento em que a inflação já superou o teto da meta e as expectativas seguem desancoradas, o movimento pode ser lido como sinal de que o BC está priorizando o crescimento”, afirma.
O economista destaca que o “mercado tende a se dividir e o BC pode sair da reunião com credibilidade arranhada para uma parcela dos participantes”. “A ala mais ‘hawkish’ (ou seja, dura, no jargão) vai questionar as prioridades do Comitê, enxergando na mudança de horizonte uma justificativa para cortar juros num ambiente ainda adverso para a inflação”, diz. “A ala ‘dovish’ (branda) vai considerar o dilema razoável, apostando que o período prolongado de juros elevados fará o trabalho. A ata e o Relatório de Política Monetária serão determinantes para calibrar essa percepção e revelar o quão desgastado o BC sai dessa sinuca de bico.”

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