Papa Leão XIV condena lucro “vertiginoso” obtido com destruição ambiental
Crítica do pontífice foi feita durante visita à região de Acerra, na Itália, alvo de despejo ilegal de lixo tóxico desde o fim dos anos 1980
atualizado
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O papa Leão XIV criticou os lucros “vertiginosos” obtidos por empresas às custas da destruição ambiental. A afirmação foi feita neste sábado (23/5) em uma visita a uma área conhecida como “Terra dos Fogos”, em Acerra, na Campânia, a cerca de 220 quilômetros ao sul de Roma. A região é conhecida como alvo de despejo ilegal de lixo tóxico.
Diante de cerca de 15 mil fiéis, o pontífice instou o mundo a “rejeitar as tentações de poder e enriquecimento ligadas a práticas que poluem a terra, a água, o ar e a convivência social”. Ele também criticou a ação do crime organizado e a omissão do poder público, além de defender a responsabilidade coletiva e a justiça ambiental.
O local visitado pelo papa, a “Terra dos Fogos”, abriga cerca de três milhões de habitantes e recebeu esse nome devido à prática recorrente de queima de resíduos industriais a céu aberto, muitas vezes provenientes do norte da Itália. Ao longo de décadas, solos, lençóis freáticos e o ar foram contaminados por metais pesados, dioxinas e partículas poluidoras, comprometendo a saúde da população. Estudos apontam índices de câncer superiores à média nacional nessa área.
No primeiro discurso do dia, Leão XIV denunciou “uma mistura mortal de interesses obscuros e de indiferença ao bem comum, que envenenou o ambiente natural e social”.
Camorra
A “Terra dos Fogos”, também conhecida como “Triângulo da Morte”, funcionou como local de descarte irregular desde o fim dos anos 1980, quando empresas passaram a destinar resíduos tóxicos à região para reduzir custos. Em vez de arcar com o tratamento adequado do lixo, que exige investimentos elevados, as companhias recorreram à Camorra, um grupo mafioso baseado na região de Nápoles, pagando valores menores para eliminar materiais perigosos de forma clandestina.
Entre os resíduos descartados estão placas de amianto, pneus e recipientes industriais contendo substâncias químicas, frequentemente queimados ao ar livre, agravando a poluição atmosférica. Investigações parlamentares conduzidas desde 2013 apontaram falhas graves de fiscalização por parte das autoridades públicas e, em alguns casos, indícios de conivência com o esquema ilegal.
Em janeiro de 2025, o tribunal europeu concluiu que as autoridades italianas falharam repetidamente em agir para impedir o despejo ilegal de detritos na região visitada pelo pontífice.
“A beleza é frágil”
Em seu pronunciamento, Leão XIV retomou o tema da fragilidade ambiental para destacar a necessidade de responsabilidade coletiva. “Na vida, entendemos que quanto mais uma beleza é frágil, mais exige atenção e responsabilidade”, disse.
O papa também afirmou que sua presença em Acerra tinha como objetivo “confirmar e encorajar esse impulso de dignidade e responsabilidade que todo coração honesto sente quando a vida nasce e é imediatamente ameaçada pela morte”. “Esta terra pagou um alto preço, enterrou muitos de seus filhos e testemunhou o sofrimento de crianças e inocentes”, afirmou o pontífice.