Mercado: tombo da indústria surpreende, mas 2026 deve ser “menos pior”

Tendência é o setor esboçar recuperação nos próximos meses, embora não suficiente para elevar a indústria brasileira a um patamar sólido

atualizado

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Imagem de fábrica da indústria têxtil - Metrópoles
1 de 1 Imagem de fábrica da indústria têxtil - Metrópoles - Foto: Jason Dean/Getty Images

A forte queda da produção industrial brasileira em dezembro do ano passado, com o recuo de 1,2% revelado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi pior do que o esperado, segundo economistas e analistas do mercado ouvidos nesta terça-feira (3/2) pela reportagem do Metrópoles.

Apesar do resultado negativo no último mês de 2025, o que confirma o cenário de desaceleração da economia do país, a tendência é a de que, com a iminente queda da taxa básica de juros (Selic), o setor esboce alguma recuperação nos próximos meses – embora não suficiente para elevar a indústria brasileira a um patamar sólido de crescimento.

De acordo com o IBGE, a produção industrial recuou 1,2%, na passagem de novembro para dezembro de 2025 – em novembro, o índice havia ficado estável. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta manhã.

Em comparação com dezembro de 2024, a indústria avançou 0,4% na produção. Em 2025, acumulou alta de 0,6%. O IBGE também destacou que a produção industrial está 0,6% acima do patamar pré-pandemia (em fevereiro de 2020). No entanto, se situa 16,3% abaixo do nível recorde de maio de 2011.

A média das estimativas do mercado apontava um recuo menor, de 0,8%, na produção industrial em dezembro, na comparação com o mês anterior. Na base anual, a estimativa era uma alta de 1%.

O que diz o mercado

Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, o resultado da indústria em dezembro “reforça a tendência de desaceleração do setor industrial, que se intensifica nos últimos meses e reflete em grande desaceleração em 2025”.

“O setor foi o mais afetado pelas condições adversas enfrentadas pela economia brasileira em 2025, no caso, a elevada taxa de juros e o tarifaço imposto pelos Estados Unidos que, apesar do recuo parcial, ainda é válido sobre boa parte dos produtos industriais que possuem mercado americano”, afirma.

“Com a proximidade do início da flexibilização da política monetária, o setor deverá ter um ano de 2026 menos pior, mas a tendência de desaceleração deve persistir pelo 1º semestre do ano”, conclui Valério.

Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, a leve alta da produção industrial no acumulado de 2025 “foi sustentada pela indústria extrativa, que avançou 4,9%, beneficiada por uma produção de petróleo muito forte no ano passado”. “A indústria de transformação, por outro lado, teve uma ligeira queda (-0,2%), refletindo os efeitos de uma política monetária mais restritiva”, observa.

“Apesar da expectativa de cortes ao longo deste ano, os juros devem continuar em patamar elevado, pesando sobre segmentos como bens de capital. O crédito mais caro desestimula a compra de máquinas e equipamentos e reduz os investimentos nas fábricas, o que afeta o desempenho da produção industrial como um todo. Por esse motivo, projetamos uma queda acima de 2% na produção industrial em 2026”, explica Moreno.

Para a economista, “a perda de força da indústria é mais um sinal de que a atividade econômica desacelerou ao longo de 2025, ano em que o PIB deve ter crescido 2,2%”. “Já para 2026 e 2027, nossa expectativa é de um avanço mais moderado, de 1,7% e 1,5%, com as medidas de estímulo adotadas pelo governo – como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda – ajudando a evitar um esfriamento mais intenso da economia.”

Matheus Pizzani, economista do PicPay, afirma que o movimento de baixa “segue justificado pelo ainda insuficiente nível de demanda, que tem afetado negativamente o nível de produção corrente e a expectativa futura dos produtores, bem como a correção em nível após o período de movimentação mais intensa gerado pela Black Friday e pela antecipação da produção visando o fim de ano”.

“A intensidade acima do normal da queda do indicador, no entanto, pode ser atribuída ainda à retração de 9,2% do grupo de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, que vinham sustentando trajetória sólida de crescimento nos últimos meses e aparentam ter esgotado, ainda que de maneira momentânea, seu fôlego e capacidade de absorver novos investimentos”, analisa.

“Projetamos crescimento de 1,8% da indústria em 2026. A expectativa é que o cenário de baixo crescimento vá sendo gradualmente superado ao longo do ano, com a queda da inflação e, posteriormente, da taxa de juros, ajudando na recuperação dos componentes cíclicos e favorecendo ainda o consumo de bens não duráveis mais sensíveis ao nível de preço e renda disponível das famílias”, projeta Pazzini.

O economista Maykon Douglas, por sua vez, destaca que “a indústria cresceu apenas 0,6% em 2025, com clara heterogeneidade temporal e setorial”. “Em primeiro lugar, o setor reportou um crescimento nulo a partir da segunda metade do ano passado. Além disso, esse resultado se deve apenas ao setor extrativo (+4,9% no ano), especialmente à produção de petróleo, visto que a indústria de transformação caiu 0,2% no agregado do ano”, afirma.

“Ou seja, o setor industrial tem caminhado em dois trilhos, pois a parcela mais sensível às condições de crédito sofre mais com o aperto monetário do BC. Mesmo o ciclo iminente de cortes da taxa Selic não deve ajudar muito o setor no curto prazo, pelo efeito defasado da política monetária e porque este deve ser um ciclo mais cauteloso”, prossegue o economista. “Portanto, espero que a indústria de transformação continue performando mal nos próximos meses.”

Em nota, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) diz que “o fraco desempenho da indústria ao longo de 2025 é um reflexo do ambiente macroeconômico desafiador para o setor, marcado pela política monetária contracionista, bem como pela imposição de tarifas pelos EUA, que reduziram as exportações da indústria de transformação para os EUA em 8,6% no segundo semestre de 2025 (período de maior impacto das medidas tarifárias) em relação ao mesmo período do ano anterior”.

Segundo a entidade, “algumas medidas do governo trazem um viés de alta e podem suavizar a desaceleração da atividade industrial”. “Entre as medidas, destacam-se a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, a ampliação do Minha Casa Minha Vida, o Reforma Brasil, além das mudanças no crédito imobiliário e da aceleração nas concessões do crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Somadas, tais medidas devem movimentar cerca de R$ 212 bilhões, o que pode aumentar a demanda por produtos industriais”, afirma a Fiesp.

“Para 2026, a Fiesp projeta moderação da atividade industrial (+0,6%), em função da continuidade da política monetária restritiva sinalizada pelo BC, apesar da indicação de início do processo de flexibilização em março. A permanência da taxa Selic em nível elevado prolonga um ambiente de forte restrição financeira, com impactos negativos sobre o investimento e a dinâmica da produção industrial”, completa a entidade.

Mais dados da indústria

Ainda de acordo com o levantamento do IBGE, na comparação com dezembro de 2024, a indústria cresceu 0,4%, interrompendo dois meses consecutivos de taxas negativas. A média móvel trimestral em dezembro foi de -0,5%. Em 2025, a indústria acumulou crescimento de 0,6%, após registrar 3,1% em 2024 e 0,1% em 2023. No quarto trimestre de 2025, ante o mesmo período do ano anterior, a indústria acumulou perdas de 0,5%.

Ainda de acordo com o IBGE, as quatro grandes categorias econômicas e 17 dos 25 ramos pesquisados mostraram recuo na produção em dezembro. Com esses resultados, a produção industrial se encontra 0,6% acima do patamar pré-pandemia (fevereiro de 2020), mas ainda está 16,3% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.

Entre as atividades, as influências negativas mais relevantes foram de veículos automotores, reboques e carrocerias (-8,7%), produtos químicos (-6,2%) e metalurgia (-5,4%).

Outras contribuições negativas importantes sobre o total da indústria vieram de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-9,2%), produtos de minerais não metálicos (-6,6%), máquinas e equipamentos (-4,6%), produtos têxteis (-9%), produtos de borracha e de material plástico (-2,2%) e confecção de artigos do vestuário e acessórios (-4,1%).

Por outro lado, entre as oito atividades que mostraram alta na produção, coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (5,4%) representou o principal impacto na média da indústria e interrompeu três meses seguidos de queda. Também houve impactos positivos assinalados dos setores de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (6,7%) e de indústrias extrativas (0,9%).

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