Dólar cai e Bolsa sobe à revelia de novas tensões entre EUA e Irã
Moeda americana recuou 0,25%, a R$ 5,22. Ibovespa avançou 1,35%. Em Nova York, novas ameaças de Trump contra Teerã derrubaram as ações
atualizado
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O dólar à vista registrou queda de 0,25% frente ao real, cotado a R$ 5,22, nesta quinta-feira (19/2). O Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), fechou em alta de 1,35%, aos 188.534,42 pontos.
E tanto o recuo do câmbio no Brasil como a elevação da Bolsa ocorreram na contramão do cenário global. De acordo com o índice DXY, que compara a força do dólar frente a uma cesta de seis divisas de países desenvolvidos (euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço), a moeda americana apresentava leve alta de 0,13%, às 18h05.
O fato é que o real e o Ibovespa superaram ao longo do dia o quadro internacional, marcado pelo recrudescimento das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Nesta quinta-feira, o presidente americano, Donald Trump, voltou a fazer ameaças militares contra Teerã.
Trump afirmou que o mundo deve descobrir em dez dias se o território iraniano será atacado ou não. Além disso, o republicano lançou uma ameaça mais direta. Disse que o país do Oriente Médio tem de fechar um acordo nuclear ou “coisas ruins vão acontecer”.
Negociações
Nas negociações em curso, Washington quer limitar a capacidade de enriquecimento de urânio do Irã. Os EUA também exige que o acordo defina limites ao programa de mísseis iraniano, ponto em relação ao qual Teerã tem resistido. O Irã, por sua vez, exige o alívio das pesadas sanções que causaram inflação recorde e desvalorização da moeda em 2025, condicionando o avanço diplomático a concessões econômicas.
Petróleo em alta
Com as ameaças, o preço do petróleo voltou a subir no mercado internacional. A cotação do barril do tipo Brent, referência para o mercado internacional, retornou ao patamar de US$ 70. Na véspera, ele já havia aumentado 4%.
Nesse contexto, as ações da Petrobras (PN ou preferenciais, sem direito a voto em assembleias) registraram alta de 1,83%. A elevação ajudou a impulsionar o Ibovespa. Os papéis da petroleira estão entre os que têm maior peso no índice.
Bolsas em baixa
Em contrapartida, os principais índices das bolsas de Nova York caíram, num quadro de maior aversão a investimentos de risco. Às 15h30, recuavam o S&P (-0,63%), o Dow Jones (-0,88%) e o Nasdaq (-0,61%), que concentra ações de empresas de tecnologia.
PIB no Brasil
No Brasil, o Banco Central (BC) divulgou os dados do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), o indicador mensal considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). O índice caiu 0,2% em dezembro sobre novembro, segundo dados dessazonalizados, mas a expectativa do mercado, segundo pesquisa da Reuters, era de retração de 0,5%. No ano, o crescimento do produto foi de 2,5%.
A redução do PIB menor do que a esperada mostrou uma atividade econômica ainda aquecida no Brasil. Por isso, ela reforçou a perspectiva de que os juros devem cair de forma gradual no país, ainda que o ciclo de cortes da taxa Selic comece em março.
Análise
Na avaliação de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a pequena queda do dólar no mercado doméstico foi reflexo de “fatores locais”. “A valorização do petróleo também contribuiu para o fortalecimento do real, enquanto o IBC-Br mais resiliente reforçou a percepção de cortes mais graduais da Selic”, diz o analista.
Ele observa que a possibilidade de uma redução paulatina da Selic preserva o diferencial de juros ainda elevado entre o Brasil e outras economias. Para Shahini, isso favorecendo o “carry trade”. Esse é o nome que o mercado dá à estratégia na qual os investidores tomam empréstimos em uma moeda com juros baixos (em países desenvolvidos, por exemplo) e investem esses recursos em uma economia com juros altos (no caso, o Brasil).
Fluxo forte
Bruno Perri, da Forum Investimentos, observa que o Ibovespa sobe ignorando o movimento de aversão ao risco que toma conta das bolsas no exterior, provocado pelas tensões entre EUA e Irã. “O fluxo estrangeiro é forte, beneficiando sobretudo a Petrobras, que surfa a alta nas cotações do petróleo e os bancos, além de outras bluechips (ações de empresas de grande porte) que formam a preferência dos investidores institucionais do exterior”, afirma.
Para Perri, os destaques entre as altas do Ibovespa ficam com a Petrobras, que reage bem à alta nos preços do petróleo, além dos bancos, que se beneficiam do fluxo externo, em especial os papéis do Bradesco e do Banco do Brasil. “Do lado oposto, GPA (Grupo Pão de Açúcar) é destaque de baixa, com a suposta venda de posição por acionista minoritário e receios quanto aos resultados da companhia, que serão apresentados na próxima terça-feira”, afirma.
