Dólar cai e Bolsa dispara com alívio do risco global e emprego recorde
Humor dos investidores melhorou com queda do petróleo, menor pressão por alta de juros nos EUA, além de recuo histórico do desemprego

O dólar registrou queda de 0,92% frente ao real, cotado a R$ 5,06, nesta quinta-feira (30/7). Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), fechou em forte alta de 1,88%, aos 177,1 mil pontos. Com o avanço, o indicador reverteu as perdas registradas na véspera, quando afundou 1,52%, batendo nos 173,8 mil pontos.
Ao longo do pregão, não faltaram motivos para estimular o bom humor dos investidores, quer no ambiente externo, quer no interno. No fim do dia, esse conjunto de fatores provocou uma melhora generalizada no sentimento de risco, notadamente, no mercado internacional. Até a eventual venda de dólares por parte do Japão atuou a favor do real e do Ibovespa.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasNo cenário externo, o índice de preços de gastos com consumo (PCE, em inglês) dos Estados Unidos caiu 0,1% em junho em relação ao mês anterior. Em maio, ele havia registrado alta de 0,5%. Na base anual, o indicador avançou 3,7% em junho.
O PCE é a medida de inflação preferida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O núcleo do índice, que exclui os preços voláteis (energia e alimentos), subiu 0,1% na base mensal. Mas, em maio, a alta foi de 0,3%.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPIB dos EUA
Além disso, o Escritório de Análise Econômica do Departamento de Comércio americano também divulgou, nesta quinta-feira, a estimativa inicial do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA. Ele cresceu 1,5% no segundo trimestre. A expectativa de economistas ouvidos pela Reuters apontava para um avanço de 2,1%.
Tanto a queda do PCE de junho como o menor impulso do PIB reduzem a pressão sobre o Federal Reserve por aumentos dos juros básicos do país. Na quarta-feira, o Fed decidiu manter a taxa no atual patamar, o intervalo entre 3,50% e 3,75%. Ainda assim, os analistas preveem duas altas até o fim de 2026.
Queda do petróleo
Ainda no quadro internacional, novos ataques recrudesceram e ampliaram o alcance geográfico da guerra entre Estados Unidos e Irã, envolvendo a Arábia Saudita e atingindo o Egito. Os confrontos, contudo, não foram suficientes para elevar o preço do petróleo.
Ao contrário. O barril do tipo Brent, a referência internacional da commodity, recuou 1,37%, a US$ 86,88. O tipo West Texas Intermediate (WTI), que baliza o comércio nos Estados Unidos, caiu 1,04%, a US$ 83,58.
Desemprego em baixa
No ambiente interno, o investidor acompanhou a divulgação de dados econômicos relevantes. De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego do país caiu para 5,4% no segundo trimestre de 2026.
O resultado representou uma queda do índice em relação ao primeiro trimestre (6,1%) e ao mesmo período (2º trimestre) de 2025 (5,8%). A taxa de 5,4% é a menor para um segundo trimestre da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), iniciada em 2012 — ou seja, em 14 anos.
Inflação menor
O Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), baixou 1,16% em julho, depois de ter recuado 0,50% no mês anterior. A expectativa do mercado, segundo uma pesquisa da Reuters, era de queda de 1,09% neste mês. O IGP-M serve como referência para diversos ajustes de preços na economia, como aluguéis.
Análises
Na avaliação de Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a valorização do real foi estimulada pelo enfraquecimento global do dólar. Às 16h15, o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas fortes (como o euro, o iene e a libra esterlina), registrava baixa de 0,89%, aos 99,92 pontos.
Para Nossig, esse recuo foi reflexo, por um lado, da divulgação de dados fracos da economia dos Estados Unidos — caso do PIB e do PCE. “Isso reduz a pressão sobre o Federal Reserve para novos aumentos de juros”, diz.
Papel do Japão
Por outro lado, acrescenta a analista, esse movimento de desvalorização ganhou mais força com as suspeitas de intervenção do governo japonês no mercado de câmbio. “A provável venda maciça de dólares pelo Japão para conter a queda do iene pressionou fortemente para baixo o índice DXY, provocando um efeito cascata de liquidez que beneficia diretamente as divisas de países emergentes”, afirma.
Ela observa que, no âmbito doméstico e das commodities, o movimento favorável ao real ganhou tração extra com o alívio nas cotações do petróleo. “Elas passaram por uma correção depois de disparada recente, motivada pelas tensões no Oriente Médio, amenizando os receios sobre a inflação global”, diz. “Somado a isso, o mercado local reflete um bom humor sustentado pela recente queda no desemprego e pela forte expectativa em torno da temporada de balanços das empresas.”
Rebecca Nossig nota que a “melhora generalizada no sentimento de risco internacional, combinada à fraqueza global do dólar, atraiu capital estrangeiro para a Bolsa brasileira, empurrando a taxa de câmbio para baixo e ajudando a sustentar uma forte alta do Ibovespa ao longo da sessão”.
Comunicado do Fed
João Vitor Saccardo, especialista em renda variável da Convexa, destaca que a alta do Ibovespa também foi consequência de uma “comunicação mais branda” feita na véspera pelo Fed (o BC dos Estados Unidos), o que reduziu as apostas em novas altas de juros. “A queda dos juros futuros favoreceu principalmente serviços, varejo e construção, enquanto as altas das ações da Petrobras (+1,2%) e da Vale (+0,64%) contribuíram para o desempenho positivo do Ibovespa”, afirma.
Emerson Vieira Junior, responsável pela mesa de câmbio da Convexa, considera que o dólar recuou frente ao real, acompanhando o movimento global de enfraquecimento da moeda americana. “A mudança nas expectativas para os juros nos Estados Unidos, depois de uma comunicação mais branda do Fed, e a divulgação de um crescimento do PIB de 1,5% no segundo trimestre, abaixo da expectativa de 2,1%, reduziram as apostas em novas altas de juros”, diz. “A suspeita de intervenção das autoridades japonesas no mercado de câmbio intensificou esse movimento, favorecendo moedas emergentes como o real.”



