Como a disparada do petróleo a US$ 120 o barril já afeta o brasileiro
Cotação da commodity tem impacto direto na inflação, que altera a perspectiva de queda de juros, mantendo o arrocho na economia
atualizado
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A disparada do preço do petróleo acendeu todos os sinais de alerta nos mercados globais no início desta segunda-feira (9/3). No sábado (28/2), antes do conflito no Oriente Médio, a cotação média do barril da commodity era de US$ 73. No último fim de semana, ela chegou a quase US$ 120. O valor não ultrapassava a barreira dos US$ 100 desde 2022.
A reação dos mercados foi imediata. O índice VIX, o “termômetro do medo” de Wall Street, embicou para cima. Às 10h40, ele subia 6,68%. Na última semana, o salto superou 24%.
As bolsas da Ásia também acusaram o baque da alta do petróleo. Elas fecharam em forte queda nesta segunda. Na Coreia do Sul, depois de afundar mais de 8%, o índice Kospi chegou a acionar um “circuit breaker“, mecanismo que interrompe as negociações por 20 minutos, quando as perdas atingem um nível alto demais. No fechamento, o Kospi reduziu parte das perdas, mas, ainda assim, caiu 5,96%.
Inflação
Esses são exemplos de impactos pontuais da elevação da commodity. Há, contudo, reflexos de longo alcance nas economias. Um deles é sobre a inflação, uma vez que o preço do petróleo se desdobra numa ampla cadeia que vai desde fretes até fertilizantes utilizados na agricultura.
De acordo com o economista André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a relação petróleo-inflação é imediata. Ele observa que, para cada aumento de 1% do preço da gasolina, por exemplo, há um impacto de 0,05 ponto percentual no Índice Nacional de Preço ao Consumidor (IPCA), que registra a inflação oficial no Brasil.
Juros
Com o choque de energia em curso, a perspectiva de queda da taxa de juros, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, também é afetada. Para pior, claro. Os bancos centrais dos dois países vão definir o patamar da taxa básica em duas semanas, na quarta-feira 18 de março.
No caso brasileiro, as projeções de redução dos juros (no caso, a taxa Selic) estavam entre 0,75 e 0,50 ponto percentual antes do confronto entre Estados Unidos e Israel contra o Irá. Agora, elas já começam a se acomodar em torno de 0,25 ponto percentual, embora alguns palpites comecem a dizer adeus a qualquer perspectiva de corte.
O Boletim Focus, a pesquisa realizada semanalmente pelo Banco Central com economistas do mercado, mostrou na edição desta segunda-feira um aumento na estimativa para a Selic em 2026. A previsão passou de 12% para 12,3%.
“Modo torniquete”
Uma inflação ascendente num cenário de juros altos também altera a perspectiva de crescimento geral da economia. Isso porque esse contexto mantém a atividade num modo “torniquete”, com baques inevitáveis sobre os negócios (crédito mais escasso e caro) e o mercado de trabalho (tendência de queda do emprego, principalmente o formal).
Com a alta do petróleo, cresce o interesse do mercado na divulgação dos próximos índices de preço. Nos Estados Unidos, serão divulgados o CPI (quarta, 11/3) e PCE (sexta, 13/3). No Brasil, o IPVA de fevereiro será veiculado na quinta (12/3).
Petrobras pressionada
A alta do petróleo, seguida pelo aumento da defasagem, coloca a direção da Petrobras contra a parede. A cúpula da estatal tenta não repassar a volatilidade dos preços praticados no mercado internacional para os combustíveis nacionais. Na sexta-feira (6/3), no entanto, a presidente da empresa, Magda Chambriard, afirmou que, caso a alta do petróleo fosse muito elevada, o cenário exigiria respostas mais rápidas sobre um potencial reajuste.
Na análise da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem interna nos preços do óleo diesel e da gasolina disparou com a cotação do petróleo acima de US$ 100. Dados divulgados pela entidade nesta segunda-feira (9/3) indicam uma defasagem média de R$ 2,74 por litro de óleo diesel e de R$ 1,22 por litro de gasolina.
