Com guerra, mercado já aposta em alta de juros. Dólar sobe e Bolsa cai
Moeda americana disparou 1,79%, a R$ 5,30. O Ibovespa, principal índice da B3, desabou 2,25%. Juros futuros subiram em todas as pontas
atualizado
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O dólar registrou alta de 1,79% frente ao real, cotado a R$ 5,30, nesta sexta-feira (20/3). Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), anotou queda de 2,25%, aos 176,2 mil pontos. Os juros futuros, por sua vez, dispararam.
Todos esses movimentos (a disparada do dólar e dos juros; além do baque do Ibovespa) refletem o estresse que domina o mercado, com os desdobramentos e as implicações da guerra no Oriente Médio, que completa três semanas. A principal consequência do confronto, sob o ponto de vista dos agentes econômicos, é a elevação do preço do petróleo, com forte impacto inflacionário.
A agravante é que, diante dos temores provocados pelas incertezas que o conflito impõe ao cenário global, os agentes econômicos já precificam uma elevação dos juros. Ou seja, a perspectiva de redução dessas taxas, que prevalecia entre analistas até o início desta semana, está se invertendo de forma radical.
As estimativas dos juros podem ser observadas nos contratos de DI (Depósito Interfinanceiro) negociados na B3. Eles permitem que os investidores apostem nas taxas que serão praticadas no futuro. Na prática, representam a expectativa do mercado financeiro para a trajetória da Selic, por exemplo.
Alta geral
Nesta quinta-feira, as curvas de juros futuros subiram em todas as pontas, de 2027 a 2038. As elevações chegaram a quase 3%, caso dos contatos para dezembro de 2027.
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing, observa que, antes da guerra, tudo parecia favorecer uma flexibilização da política monetária. “Agora, sem que haja previsão de término do conflito, talvez o Banco Central (BC) brasileiro vá se arrepender de ter cortado a Selic na última quarta-feira (18/3)”, afirma o analista.
Avante Selic
Na avaliação de Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, a precificação dos juros indicando uma alta para prazos mais longos, a partir de 2029, é um movimento natural em momentos de incerteza. “Principalmente, quando temos fatores relevantes de influência nessa conta, como uma crise energética”, diz. “Isso cria uma pressão inflacionária que faz o mercado enxergar uma menor chance de corte de juros e até uma Selic mais alta para controlar a inflação no futuro.”
Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners, observa que, além da guerra, há desafios no cenário interno. “Lá fora, a situação está pegando fogo, com a inflação atacando”, diz. “Some-se a isso um governo que vai gastar mais para tentar a reeleição. O resultado é que o mercado passa a exigir mais juros de algo que tem um risco pior do que o projetado lá atrás.”
Intervenções
Para conter a disparada dos juros futuros, o Tesouro Nacional realizou cinco intervenções no mercado de títulos públicos nos últimos dias. Elas resultaram uma recompra líquida de R$ 47 bilhões em cinco leilões extraordinários. Só na quarta-feira (18/3), o governo readquiriu R$ 5,4 bilhões de títulos pré-fixados LTN e NTN-F.
Juros nos EUA
A guerra também está provocando revisões sobre o comportamento dos juros nos Estados Unidos. De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, as chances de elevação da taxa básica americana, que era praticamente nula há uma semana, estão em 12,4% já na próxima reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), em abril.
Sobre o dólar
Sobre o dólar, Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, observa que a moeda americana subiu com a “deterioração do ambiente de risco global”. “O mercado volta a focar nas incertezas em torno de um conflito de maior duração, especialmente depois de notícias de uma possível incursão terrestre dos Estados Unidos no Irã”, diz.
Shahini observa que, tal movimento, elevou de forma relevante o risco de um choque adicional nos preços de energia, com o petróleo avançando para níveis acima de US$ 110 por barril. “O estresse se refletiu de forma ampla nos mercados, com forte queda das bolsas em Nova York e alta expressiva do VIX (o “índice do medo” de Wall Street), indicando um movimento de aversão ao risco generalizado.”
