“Não consigo respirar”: relembre os últimos minutos de George Floyd

Nove meses após a morte de George Floyd, ex-policial Derek Chauvin será julgado. Relembre os 30 minutos antes de Floyd parar de respirar

atualizado 08/03/2021 9:04

Velas e um mural com o rosto de George FloydStephen Maturen/Getty Images

Os quase nove minutos em que George Floyd, de 46 anos, implorou pela própria vida jamais sairão da cabeça de muitas pessoas que viram o vídeo de seu assassinato em frente a uma loja em Minneapolis, Minnesota (EUA).

As imagens gravadas em 25 de maio de 2020 mostram um policial branco, Derek Chauvin, ajoelhado no pescoço de Floyd, algemado e totalmente imobilizado no chão. Chauvin é o ex-policial que vai a julgamento pelo crime nesta segunda-feira (8/3).

Os eventos que levaram à esta cena fatal começaram cerca de meia hora antes. De acordo com relatos de várias testemunhas, vídeos e declarações oficiais de autoridades ao longo dos últimos meses, uma confusão começou com uma denúncia de uso de nota falsa de 20 dólares.

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Um relatório policial feito na noite de 25 de maio aponta que Floyd havia comprado um maço de cigarros na mercearia Cup Foods, local onde o afroamericano costumava ir, já que morava há vários anos na cidade.

O dono da loja, Mike Abumayyaleh, relatou à NBC à época, que George Floyd frequentava o local de forma assídua e que era um cliente amigável, que nunca causou problemas com ninguém.

No entanto, no dia do crime, ele não estava na loja. Foi seu funcionário, um adolescente cujo nome não foi revelado, que seguiu os protocolos da empresa e fez uma ligação para o 911 (o serviço de emergência dos EUA) às 20:01, informando que havia exigido que Floyd devolvesse os cigarros, o que ele se negou.

A transcrição desse diálogo foi divulgada pelas autoridades. Nele, o funcionário disse ainda que o homem parecia “bêbado” e “sem controle de si mesmo”.

Sete minutos depois, às 20h08, dois policiais chegaram ao local. Floyd estava sentado com outras duas pessoas em um carro estacionado na esquina.

Após se aproximar do veículo, um dos policiais, Thomas Lane, sacou a arma e ordenou que o homem mostrasse as mãos. Depois, segundo relato do incidente feito pela promotoria, Lane “colocou as mãos sobre o Sr. Floyd e o puxou para fora do carro”.

George Floyd resistiu ativamente a ser algemado, mas sem sucesso. Detido, ele se tornou complacente e pediu desculpas repetidas vezes – como mostraram as imagens das câmeras do corpo dos policiais-, enquanto Lane dava voz de prisão por “passar moeda falsificada”.

Quando os policiais tentaram colocar Floyd na viatura, ocorreu a luta entre os dois. Por volta das 20h14, George Floyd “enrijeceu, caiu no chão e disse aos policiais que estava claustrofóbico”, de acordo com o relatório.

Neste momento Derek Chauvin chega ao local. Ele e outros policiais se envolvem na tentativa de colocar o homem na viatura. Às 20h19, Chauvin então puxou George Floyd.

Policiais envolvidos na morte de George Floyd
Quatro policiais de Minneapolis foram demitidos e acusados ​​pelo assassinato. Além de Derek Chauvin, são acusados pelos crimes os ex-policiais J. Alexander Kueng, Thomas Lane e Tou Thao

“Você vai me matar, cara”

As cenas seguintes foram captadas por vários telefones celulares das pessoas que olhavam o estado de angústia de George Floyd. Cenas estas que viralizam na internet e rodaram o mundo, provando ser os momentos finais de vida do afro americano, algemado e totalmente imobilizado no chão.

Chauvin colocou o joelho esquerdo entre a cabeça e o pescoço dele. E assim foi por quase nove minutos. As transcrições das imagens da câmera corporal dos policiais Lane e J Alexander Kueng mostram Floyd implorando mais de 20 vezes que não conseguia respirar porque estava contido. Ele também estava implorando por sua mãe e dizendo “por favor, por favor, por favor”.

Quando engasgou, Floyd ainda disse: “Você vai me matar, cara”. O ex-policial Chauvin retrucou: “Então pare de falar, pare de gritar. É preciso muito oxigênio para falar.”

Com a negativa do policial, restou a Floyd dizer suas últimas palavras: “Não acredito, cara. Mãe, amo você. Amo você. Diga aos meus filhos que os amo. Estou morto.” Seis minutos haviam se passado até então, quando a vítima deixou de responder.

Após pedidos das pessoas ao redor, o oficial J. Alexander Kueng tentou verificar o pulso do homem, sem sucesso, enquanto os demais não se moveram.

Às 20:27, Derek Chauvin tirou o joelho do pescoço do Sr. Floyd, que, imóvel, foi rolado para uma maca, levado para o Hennepin County Medical Center em uma ambulância e declarado morto uma hora depois.

Prisão, hip-hop e família

George Perry Floyd Jr. foi preso algumas vezes por roubo e posse de drogas, em 2009, e fez um acordo judicial por assalto à mão armada. Ele cumpriu quatro anos de prisão, depois ganhou a liberdade.

Destaque nos esportes desde a adolescência na escola, como no futebol, americano, ele também contribuiu para o desenvolvimento do cenário do hip-hop em Houston e foi mentor ativo em sua comunidade religiosa.

Quando escolheu a cidade de Minneapolis para morar com a família, depois que deixou Houston, ele chegou a conseguir trabalho como caminhoneiro e segurança. No entanto, como milhões de outros norte-americanos, enfrentou o desemprego causado pela pandemia de coronavírus, que causa a Covid-19.

Considerado pela família e amigos como “um gigante gentil”, Floyd Perry (como também era chamado) deixou cinco filhos, incluindo duas filhas em Houston, com idades de 22 e 6 anos, e um filho adulto em Bryan, Texas.

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